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António Oliveira relembra passagem pelo Corinthians e por que barrou Cássio Depois de cinco anos seguidos de trabalho no futebol brasileiro, António Oliveira vive em Lisboa um dos períodos mais raros de sua carreira: o tempo livre. O técnico português aproveita para estudar, descansar e retomar o convívio familiar após a rotina intensa que marcou suas passagens recentes por Cuiabá, Athletico-PR, Sport, Remo e Corinthians. – Estou a aproveitar algo que já há muito tempo não fazia: desfrutar do meu tempo em família, com os meus filhos, com a minha mulher, acompanhar os meus pais. É sempre muito difícil estar longe de casa e de quem amamos. Agora penso em descansar e ouvir propostas que ofereçam confiança ao treinador e projetos sustentados. Sobre o futuro, António evita limitar possibilidades. Apesar de ter construído boa parte da carreira no Brasil, o técnico diz estar aberto a outros mercados. – Pela minha trajetória, é evidente que o Brasil está no meu radar, mas não foi nada premeditado. As coisas foram acontecendo desde que cheguei ao Santos, em 2020 (como auxiliar). Hoje o futebol é global, e eu escolho projetos que tenham confiança no treinador, organização, responsabilidade e tempo para que as coisas aconteçam. 1 de 7
António Oliveira na passagem pelo Corinthians — Foto: Marcos Ribolli António Oliveira na passagem pelo Corinthians — Foto: Marcos Ribolli Nos últimos meses, António viveu duas experiências breves: Sport e Remo - no primeiro ficou apenas quatro partidas, enquanto que no segundo foram menos de três meses de trabalho. Apesar disso, diz não carregar arrependimentos, apenas reflexões. – Em nenhum momento me arrependo. Sabia dos riscos. Sempre entrei em projetos extremamente desafiantes. Fiz o melhor possível dentro dos recursos e do tempo. Mas sou um treinador de processo, e sem estabilidade não há crescimento – explica. No Sport, ele lembra o cenário delicado ao assumir o clube na lanterna do Brasileirão. O time pernambucano, mesmo depois da demissão de António Oliveira, seguiu na última posição por todo o Brasileirão e acabou sendo rebaixado para a Série B de 2026. – O clube estava extremamente instável, com dois pontos em sete rodadas. Emocionalmente abalado e com pressão natural. Houve evolução clara, reconhecida internamente, mas era preciso resultado imediato, e o calendário pesou muito. 2 de 7
Técnico António Oliveira em ação durante treino do Sport — Foto: Paulo Paiva/Sport Club do Recife Técnico António Oliveira em ação durante treino do Sport — Foto: Paulo Paiva/Sport Club do Recife O sucesso de nomes como Abel Ferreira e Jorge Jesus influencia a percepção sobre técnicos portugueses no Brasil, algo que António reconhece como positivo e também desafiador. – Abre portas, mas aumenta a expectativa. Nem todos são Abel ou Jesus. Há bons e maus treinadores em Portugal e no Brasil. O treinador português evoluiu muito e, quando se adapta rápido ao contexto brasileiro, normalmente tem longevidade. António Oliveira analisa "sombra" de Abel Ferreira e Jorge Jesus no futebol brasileiro Sobre as declarações xenofóbicas de Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira , António admite incômodo, mas prefere tratar como um episódio isolado. – Foi uma intervenção infeliz e deselegante, mas pontual. Sempre fui bem recebido no Brasil, que faz parte da minha vida. 3 de 7
Abel Ferreira e António Oliveira durante Palmeiras x Corinthians - — Foto: Marcos Ribolli Abel Ferreira e António Oliveira durante Palmeiras x Corinthians - — Foto: Marcos Ribolli O técnico vê evolução nas condições de trabalho oferecidas no Brasil, mas destaca que bons dirigentes são tão essenciais quanto bons treinadores. E isso, segundo ele, interfere diretamente na sequência e consolidação de um bom trabalho. – Tive dois anos brilhantes no Cuiabá, que para mim é referência em gestão desportiva e financeira. O Palmeiras é outro exemplo. O problema de muitos clubes é a incapacidade de avaliar o processo. Mudam muito, vivem sob pressão externa e procuram bodes expiatórios. António classifica sua passagem pelo Corinthians como uma das mais marcantes da carreira. O português não esconde o desejo de retornar ao clube futuramente. António chegou para substituir Mano Menezes e foi o primeiro técnico contratado na gestão de Augusto Melo. – Assumir o Corinthians foi uma das maiores responsabilidades do futebol brasileiro. O clube vivia um momento muito instável dentro e fora de campo. Jogámos organizados, competitivos, passamos todas as fases eliminatórias, fomos primeiros na Sul-Americana. – Tem uma torcida fenomenal, fantástica, que aprendi a amar. Um torcida que carrega qualquer treinador, qualquer jogador para a frente, tenho respeito absoluto pelo clube, pelos jogadores e pela torcida. Dei tudo o que tinha todos os dias e digo-lhe de uma forma muito franca que um dia gostaria de regressar – disse António. 4 de 7
António Oliveira e Paulinho em treino do Corinthians — Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians António Oliveira e Paulinho em treino do Corinthians — Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians O treinador, porém, lembra que o ambiente turbulento e as saídas de lideranças impactaram o rendimento no clube. Ao todo, foram 27 jogos, 12 vitórias, oito empates, sete derrotas e aproveitamento de 54%. – As saídas do Cássio, do Paulinho e a lesão do Fagner pesaram. O início do Brasileiro penaliza muito se os resultados não aparecem. Mas saio de consciência tranquila: construímos identidade e competitividade. António Oliveira comenta vida em Portugal e avalia retorno ao mercado António detalha o episódio envolvendo a saída de Cássio do Corinthians, decisão técnica que antecedeu a despedida do ídolo. O treinador foi o responsável por colocar o goleiro no banco de reservas após um desabafo sobre saúde mental feito por Cássio depois de uma partida válida pela Copa Sul-Americana. – Sempre quis contar com o Cássio. A decisão de o tirar foi técnica, mas também para o proteger, porque ele atravessava um momento emocional difícil. A saída do clube foi entre ele e a direção. 5 de 7
António Oliveira e Carlos Miguel conversam durante jogo do Corinthians — Foto: Marcos Ribolli António Oliveira e Carlos Miguel conversam durante jogo do Corinthians — Foto: Marcos Ribolli Sobre Carlos Miguel, que foi bancado pelo técnico após barrar Cássio, António admite decepção pela saída repentina do goleiro do Corinthians. – Ele sabe que me decepcionou. Deixou-me com o bebê na mão. Tínhamos acordado que faria os oito jogos até a parada. Mas aprendeu com o erro, e temos ótima relação – relembra António. O português vê com tristeza o atual momento financeiro e administrativo do Corinthians, que mesmo assim foi campeão paulista e da Copa do Brasil em 2025. – Um dia a conta iria chegar. É um gigante com potencial tremendo, mas erros de gestão levaram a um momento caótico. Espero que estabilize – disse António. 6 de 7
António Oliveira na passagem pelo Remo na Série B do Brasileiro — Foto: Raul Martins / Ascom Remo António Oliveira na passagem pelo Remo na Série B do Brasileiro — Foto: Raul Martins / Ascom Remo Mesmo longe do campo, António mantém rotina intensa de estudos. Apesar do tempo dedicado aos amigos e família, o treinador segue acompanhando jogos e o noticiário, principalmente do futebol brasileiro. – É impossível cortar o futebol. Estudo o jogo, diferentes formas de defender, atacar, sair de pressão, bolas paradas. Compilo tudo que foi treinado e jogado. É momento de reflexão. Filho de uma das maiores figuras da história do Benfica, António fala com orgulho da influência familiar. Seu pai, Toni, é um dos nomes mais conhecidos da história do futebol português, com longa carreira como jogador, treinador e atualmente comentarista esportivo. – Ele sofre comigo, acompanha de perto. Foi ele e minha mãe que me ensinaram valores e princípios. Mais do que formar jogadores, quero formar homens. Bons grupos ganham jogos. 7 de 7
António Oliveira ao lado do pai, Toni Oliveira — Foto: Reprodução António Oliveira ao lado do pai, Toni Oliveira — Foto: Reprodução António não fecha portas para um retorno ao futebol brasileiro, mas agora é criterioso. – Só saio de Portugal para projetos com provas dadas de confiança ao treinador e tempo para implementar processo. Quero desfrutar da família, recuperar o que perdi nesses cinco anos. Mas, se surgir um projeto sólido, estarei disposto a regressar ao Brasil ou a qualquer mercado.