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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte 20 anos dos aplausos a Ronaldinho, o presente de Luxa e a estreia de Messi Julio Gomes Colunista do UOL 19/11/2025 20h12 Deixe seu comentário Ronaldinho, do Barcelona (Photo by Luis Bagu/Getty Images) Carregando player de áudio Ler resumo da notícia Eu acordei naquele 19 de novembro de 2005 chateado e preocupado. Fazia quase um ano que eu era correspondente da TV Bandeirantes, que me mandou para Madrid com uma câmera e um computador e me contratou para cobrir de perto o Real Madrid de Vanderlei Luxemburgo e tantos brasileiros - Ronaldo, Roberto Carlos, etc. O primeiro superclássico do "pofexô" havia sido uma goleada de 4 a 2, em maio, o jogo em que ele tirou Figo do time, escalou Owen e tudo deu certo. O título de 04/05 seria o primeiro de Ronaldinho no Barça, mas Luxemburgo ganhava moral. Eu não tinha feito a cobertura daquele clássico porque o Real Madrid não me deu credencial. Tudo bem, eu ainda era novo na cidade e na cobertura do clube. Mas aí veio novembro, já era a minha segunda temporada lá (e a do técnico brasileiro) e, apesar de tanta insistência e de a Band ser detentora de diretos, o Real voltou a negar a credencial para um superclássico. Eu falei "chateado e preocupado", né? É que eu já tinha passado por todos os outros sentimentos: raiva, esperança, ódio, desespero... A real é que eu estava puto da vida. Era um sábado. E minha namorada, que morava em Londres, estava em Madrid. A razão não era pouca. Nos casaríamos oficialmente, papel passado, na segunda-feira. Não havia mais o que fazer para trabalhar no jogo. Eu tinha tentado de tudo, falado com o clube, com os jogadores, com Deus e o mundo e a credencial simplesmente não saiu. Tem certas coisas na vida que ficam guardadas em nossa memória de uma maneira especial, em uma gavetinha que nunca será apagada. E nunca me esquecerei de onde eu estava, pertinho da Plaza Mayor, em frente a uma lanchonete "100 Montaditos", quando tocou o celular. Wálter Maierovitch Habeas corpus a Vorcaro seria escandaloso Ana Carolina Amaral Final da COP30 é mais difícil que jogo de futebol Sakamoto Delação de Vorcaro seria bomba como a de Cid Mônica Bergamo Haddad se recusou a receber dono do Master Eu poderia não ter ouvido ou sentido a vibração. Mil coisas poderiam ter dado errado. Mas eu peguei o celular e na telinha - porque na época eram telinhas e celulares eram só para falar mesmo - apareceu um nome: Vanderlei Luxemburgo. Caramba, faltavam poucas horas para o jogo, por que raios o treinador do Real Madrid estava me telefonando? Classificação e jogos La Liga O diálogo foi curto. E a voz do pofexô eu deixo para vocês imaginarem. - Julio, tudo bem, rapaz? É amanhã que você se casa, né? - Oi Vanderlei, como vai? Amanhã não, segunda-feira... - Ah, tá bom. Tenho um presente de casamento para vocês. Como é que ela chama mesmo? - É Cláudia... - Passa aqui no hotel de concentração que eu deixei dois ingressos com o teu nome aqui... - Puxa vida, Vanderlei. Que grande presente! Muito, muito obrigado. - Tá bom, tá bom.... deixei na recepção... - Vou passar para pegar. Obrigado de novo e bom jogo. - Um abraço... Talvez não tenham sido as exatas palavras. Mas não estamos longe delas. Eu estava preocupado por não conseguir cobrir o jogo do ano, chateado por outra negativa do Real. E Luxemburgo me salvou! Corremos para o hotel de concentração, que fica no norte da cidade. Peguei o metrô e depois um táxi, coisa que eu raramente fazia, pois custava muito caro. E lá estava o envelopinho, que tenho guardado até hoje. "Julio Gomes - Band", é o que estava escrito. Dentro, dois ingressos muito bem localizados, perto do gramado, do lado oposto aos bancos de reservas. Eu tinha uma mochila verde e preta de uma loja chamada Coronel Tapiocca. Eu adorava. Ela era enorme e cabiam a câmera e o tripé, além, claro de fitas (sim, fitas!) e microfone, cabos, etc. Arrumei minha mochila como se estivesse indo para uma cobertura normal, torcendo para não dar ruim na entrada do estádio. Fiz as entrevistas e imagens do lado de fora. Deu tudo certo. Para mim, pelo menos. Não tanto para o Vanderlei. Aquele time do Barça estava voando e meteu 3 a 0 no Real Madrid. Eu era e sempre fui um respeitador de regras, então não filmei absolutamente nada sem ter a permissão para isso. Mas, quando começaram os aplausos a Ronaldinho Gaúcho, após o primeiro gol dele e que ficaram mais intensos depois do segundo, eu saquei a câmera da mochila e gravei algumas imagens da arquibancada. Continua após a publicidade Era nítido para quem estava no estádio que tinha uma história diferente ali sendo escrita. E, no meu ponto de vista, que eu sustento até hoje, a maior parte daqueles aplausos não eram de veneração a Ronaldinho e, sim, de sarcasmo. Era aplausos irônicos ao time formado por Florentino Pérez, então (e até hoje) presidente do Real, com sua política de "Zidanes y Pavones", ou seja, a mescla de craques consagrados com jovens da base. O problema é que os "galácticos" já andavam meio cansados, e os da base eram fracos. Florentino preferiu Beckham a Ronaldinho no mercado e quem se deu bem com isso foi o Barcelona. Aqueles aplausos foram a explosão de descontentamento da torcida madridista diante da situação. Mas, claro, a narrativa que entrou para a história foi a do Real Madrid como um clube "cavalheiro", um clube capaz de aplaudir o bom futebol e reconhecer a superioridade do maior rival. Para mim, era balela. Ficou para a história assim, no entanto. Quando acabou o jogo, eu corri para a zona mista. Naquela época, que saudades, os jogadores todos passavam pela área de entrevistas. Podiam não falar, muitos não falavam, mas tinham que passar por ali. Eu conhecia as alamedas do Santiago Bernabéu e sabia exatamente como chegar da arquibancada, onde eu estava, até a zona mista. Só que eu não estava credenciado, como vocês bem se lembram. Para entrar na ZM, era preciso um passe, um papel simples dentro de um plástico, com uma cordinha para pendurar no pescoço. Essa credencial não era recolhida na entrada e não era nominal. Lá fiquei eu na porta esperando alguém sair para eu poder entrar. Demorou para caramba. Devem ter sido uns 40 minutos, que pareceram dias de espera. Até que saiu um rapaz alemão, lembro bem. Expliquei a situação para ele, que tirou do pescoço e me deu a credencial. Mas avisou: "os caras do Real Madrid já foram embora..." Seis brasileiros tinham sido titulares naquela partida. No Real, Roberto Carlos, Ronaldo e Robinho, além de Júlio Baptista, que entrou no segundo tempo. No Barça, Edmílson, Deco e Ronaldinho foram titulares e Sylvinho ficou no banco. Era uma zona mista obrigatória. E, claro, se eu tivesse de escolher, entrevistaria o lado vencedor. Estava mais do que valendo. E como valeu! A reportagem completa que foi ao ar na Band está aqui abaixo, eu subi no You Tube uns anos atrás. 0:00 / 0:00 Continua após a publicidade Eu não entrei a tempo de ver e filmar a coletiva de Luxemburgo e, como havia avisado o colega alemão, a turma do Real já tinha picado a mula. Mas entrevistei os brasileiros do Barça e Ronaldinho, o nome do jogo e do futebol mundial naqueles anos, parou para falar ao microfone verde da Band que eu segurava com a mão esquerda, já que com a direita eu segurava a câmera, encostada no ombro para estabilizar. Ele não parava nunca e nem passava pelas zonas mistas. Desta vez, passou e parou, já que me conhecia de tantas coberturas em Barcelona naquele ano de 2005. Ronaldinho nunca me deixou na mão. Todo respeito ao bruxo. Ah, mas onde entra o Messi nessa história toda, já que ele aparece no título da reportagem? Bem, o jovem Lionel havia subido para o elenco profissional um ano antes. Havia feito a temporada 04/05 com o Barcelona-B, mas apareceu em sete jogos do Campeonato Espanhol como reserva do time de cima e marcou seu primeiro gol profissional contra o Albacete, em 1o de maio de 2005 - portanto, seis meses antes do "El Clássico" de 20 anos atrás. Ele já havia sido titular em jogos da Copa do Rei e da Champions League, mas nunca em uma partida de La Liga. Em 22 de outubro, ele foi titular pela primeira vez em um jogo do campeonato, contra o Osasuna. Mas o ataque ainda era formado por Giuly, Eto'o e Ronaldinho. Foi justamente na partida do Bernabéu, aquela dos aplausos, que o técnico Rijkaard resolveu apostar no menino de 18 anos como arma secreta, deixando Giuly no banco. Foi o primeiro jogo de Messi como titular "para valer", o primeiro como titular fora de casa, o primeiro superclássico e ele não decepcionou, fazendo uma jogada espetacular, que resultou no primeiro gol, o de Eto'o. A partir daquela noite de 19 de novembro, Messi "se formou", ganhou a vaga no time e o resto é história. Eu me casei dois dias depois e assim estamos até hoje. Luxemburgo só durou mais duas semanas. E Ronaldinho inspirou uma camisa comemorativa por aquela atuação, lançada hoje pelo Barcelona. O tempo passa, torcida brasileira. Vou dormir nesta noite de 19 de novembro de 2025 feliz, orgulhoso e com saudades. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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