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Futebol Microgestão divina? Por que jogadores da seleção falam de Deus nas derrotas Igor Siqueira Do UOL, no Rio de Janeiro 15/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Resumo Lucas Paquetá, meio-campo da seleção Imagem: Sam Robles/CBF Um pênalti perdido, uma chance clara de gol desperdiçada e um carrasco. Como explicar o fim do sonho do hexa? A absorção desse trauma por parte de alguns jogadores da seleção brasileira se refugia em referências religiosas. Basta ver como foram as manifestações de vários deles nas redes sociais — já de cabeça fria ou assessorados. Bruno Guimarães, que perdeu um pênalti ainda no primeiro tempo do jogo da eliminação contra a Noruega, está nessa lista. José Fucs O 'choque de gestão' proposto a Flávio Bolsonaro Sakamoto Senado ignora apelo pelo fim da 6x1 e vai descansar Marco Antonio Sabino Há sindicatos que envergonham os sindicatos Tony Marlon Rio acerta com proibição de anúncio de bets Assumo a minha responsabilidade, como sempre fiz, e não é agora que seria diferente. Triste demais pela forma como terminou, mas com a certeza de que Deus sabe de tudo. Bruno Guimarães, em post publicado no seu perfil Ao mesmo tempo em que Guimarães aponta o componente técnico para a falha, o "Deus sabe de tudo" remete a um propósito mais amplo para a derrota. Esse tipo de manifestação é comum a esta geração de atletas. E transitar pela intersecção entre teologia, psicologia e comportamento de sociedade é um caminho para tentar entendê-la. Mas afinal, teria Deus algo a ver com isso tudo? Microgestão de Deus? Na diversidade do cristianismo, mesmo entre aqueles que se declaram evangélicos, há nuances teológicas e doutrinárias que não permitem tratar a linha de raciocínio de todas "ovelhas" como iguais. Continua após a publicidade De todo modo, nas manifestações de jogadores, é comum encontrar traços como o do zagueiro Léo Pereira: "Deus tem um propósito muito grande para todos nós e o processo muitas vezes não entendemos". Propósito, desígnios, vontade e permissão. Conceitos que frequentemente são vistos nos discursos e podem, a princípio, conflitar com as decisões de indivíduos (livre arbítrio) dentro e à beira do campo, mesmo para cristãos fiéis. Bruno Guimarães, volante da seleção brasileira Imagem: Sam Robles/CBF E aí entra a questão: até que ponto Deus se envolve nos detalhes e acontecimentos da vida das pessoas? Algumas correntes do cristianismo têm em suas diversas instituições a ideia de que nada acontece fora do plano de Deus e que todos têm um propósito. Se "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus", como diz o livro de Romanos, o debate é a abrangência da interferência que vem do alto. Continua após a publicidade A teologia da providência divina se consolidou ao longo da história da igreja cristã. Se ela tem raízes no texto bíblico do apóstolo Paulo, também encontra em outros estudiosos antigos, como Agostinho de Hipona, no quarto século (d.C), a sistematização de que Deus tem uma soberania total — ainda conciliando-a com o livre arbítrio. Após a Reforma Protestante, João Calvino foi além e traçou a doutrina da predestinação. Por essa linha, que encontra abrigo entre os presbiterianos, alguns estão destinados à salvação. Outros, à perdição. Neopentecostais não são calvinistas, mas o discurso de "propósito" aparece muito entre eles, trazendo uma visão mais meticulosa da condução divina. Inclusive sobre quem flerta com a teologia da prosperidade, esperando recompensas materiais para o presente dos fiéis. Então, Endrick, por exemplo, perdeu o gol contra a Noruega porque isso fez parte de um propósito? O atacante não chega a esse ponto, mas vê traços de Deus na chance criada, apesar da imprecisão humana para resolver o jogo. "Lamentei muito. Depois, até fiquei falando com Deus, agradeci pela oportunidade, mas foi um momento em que eu poderia ter feito melhor. Não fiz, mas agradeço a Deus por aquela oportunidade. Trabalhar para isso não acontecer de novo", disse Endrick. 0:00 / 0:00 Siga o UOL Esporte no Continua após a publicidade Outro atacante da seleção, Igor Thiago mencionou a permissão de Deus para o enredo da seleção na Copa. Nessa linha de compreensão cristã, não quer dizer que o divino tenha determinado que o Brasil seria eliminado, mas sim que, à luz da onisciência dEle, a ausência do hexa foi aceitável. "Está doendo muito, mas sei que tudo acontece conforme a Sua vontade e que, lá na frente, entenderemos o porquê", publicou Igor Thiago. Apesar da busca por explicações que nem sempre estão visíveis, a aparente "microgestão" de Deus sobre o futebol não é unanimidade no mundo cristão. "A justificativa de que uma eliminação esportiva faz parte do 'plano de Deus' reflete muito mais uma muleta cultural para lidar com a frustração do que uma teologia bíblica sólida", avalia o pastor Edson Nunes, doutor em Estudos Judaicos (Bíblia Hebraica) pela USP, com pós-doutorado pela Universidade de Berkeley, na Califórnia. Nunes explica que, embora a Bíblia narre momentos de intervenção divina direta na história da humanidade, como a libertação dos hebreus do Egito, a maior parte da vida humana no livro se desenrola sob a autoridade da responsabilidade humana e das contingências naturais. "A Bíblia hebraica é rica em demonstrar que nem tudo é fruto de uma microgestão divina. Se Deus interferisse diretamente em cada detalhe da existência (chute, defesa, rebote, etc), a liberdade e a responsabilidade humana pelas próprias ações seriam anuladas. Apesar de intervenções divinas diretas, há também um enorme espaço de imprevisibilidade, beleza e falibilidade humana. Nessa tensão reside a insistência de ganhadores e perdedores em atribuir tudo a Deus", acrescenta. Continua após a publicidade Ou seja, mesmo para quem é cristão, dá para atribuir a eliminação às decisões de Ancelotti, por exemplo, e suas derivações. Tanto que o goleiro Alisson, também evangélico, adotou um tom diferente na menção que fez a Deus. "Nessa vida debaixo do sol, o sabor é agridoce. Por vezes nos alegraremos com o doce sabor de uma conquista, por outras sentiremos o amargo sabor da derrota. E o futebol é um grande exemplo disso! Mas graças a Deus por Jesus Cristo, que nos dá uma perspectiva para além dessa vida, e nos permite desfrutar de tudo o que recebemos das mãos do Senhor", publicou o jogador. Por que os boleiros se expressam Faz tempo que futebol e religião se misturam no país. Os católicos há décadas fazem sinal da cruz quando entram em campo ou fazem gol. Evangélicos consagraram o gesto de apontar para o alto ou dizer: "Eu, não. Deus". Por que parece que isso está cada vez mais presente nos gramados? Douglas Santos, lateral-esquerdo da seleção brasileira Imagem: Sam Robles/CBF Continua após a publicidade O Brasil é um país majoritariamente cristão e, segundo o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de evangélicos nesse segmento nunca foi tão alto: um em cada quatro brasileiros declara seguir essa fé. Esse crescimento se reflete também no futebol. A presença mais forte do evangelicalismo, catapultado pelo alcance das redes sociais, traz consigo um incentivo à pregação. Como no século passado "todo mundo" - a esmagadora maioria de cristãos - era católico, o proselitismo da minoria crescente evangélica vem com mais força. Um retrato disso no futebol é que nessas instituições há grupos específicos voltado para jogadores, sublinhando o papel que eles devem cumprir na sociedade. "Existem pessoas que nunca ouviram falar de Jesus, e eu creio que você, no local do seu trabalho, o seu campo é o seu púlpito. É ali que você deve pregar a mensagem eterna. Use também as plataformas digitais. (...) Você tem uma influência, Jesus colocou você onde você está por um propósito. Só que você precisa se posicionar. Use a plataforma para anunciar", disse o pastor Léo Souza em um vídeo direcionado a atletas, publicado nas redes sociais. Continua após a publicidade Léo lidera o ministério na Igreja Batista Atitude, no Rio. O espaço recebe vários jogadores que atuam no futebol carioca. Entre eles está o meia Lucas Paquetá, do Flamengo e da seleção derrotada na Copa. Foi Léo quem batizou Paquetá, em uma cerimônia que teve a presença de Pedro, atacante do Flamengo. Essa igreja também é frequentada pelo ex-lateral-direito Jorginho, tetracampeão em 1994 e integrante do grupo Atletas de Cristo. Evangélico na seleção não é novidade, independentemente de sucesso ou fracasso em Copas. No campo acadêmico, a professora e pesquisadora Carmel Rial já abordou a união igreja-estádio com o artigo "Atletas brasileiros como missionários da nova diáspora neopentecostal". "O futebol, por seu lado, oferece à religião um palco para pregação, capaz de atingir bilhões simultaneamente", disse a autora no trabalho. Continua após a publicidade E o efeito psicológico disso tudo? Em momentos como esse, tentamos encontrar respostas, entender por que o nosso sonho terminou dessa forma, tão cedo. Mas Deus sabe de todas as coisas e os planos dele são sempre maiores que os nossos . Danilo Santos, volante da seleção A psicologia do esporte é outra ciência que precisa lidar com esse discurso dos jogadores e ajuda a decifrá-lo. Carlo Ancelotti ao lado de Marisa Santiago, psicóloga da seleção Imagem: Reprodução/CBF A seleção, inclusive, levou para a Copa a psicóloga Marisa Santiago, que trabalha no Grêmio e foi convocada para acompanhar a delegação do Brasil a partir de 2024, quando o técnico era Dorival Júnior. Continua após a publicidade "O ser humano é composto por um tripé: corpo, mente e espírito. A parte espiritual, independente do tipo de religião, significa compreender o propósito ou origem além do plano físico. Trata-se de enxergar o significado energético, emocional ou divino por trás de acontecimentos, sentimentos ou conexões, focando no propósito da alma e no autoconhecimento", conta a psicóloga esportiva Michelle Rizkalla. Ela lembra que o futebol envolve sonhos para jogadores de contextos sociais complicados. A fé vem como um símbolo de força extra, com jogadores recorrendo a Deus (ou ao que acreditarem) como um auxiliar e um instrutor para atingir as metas. Mas e se o olhar para o que acontece em campo for mais atrelado a Deus do que ao jogador? "É necessário identificar os fatores que o atleta controla e os que ele não controla. É perigoso avaliar de forma generalizada os resultados só pelo entendimento de ter sido 'plano de Deus'. A autorresponsabilidade é importante e determinante para as mudanças que dependem do atleta. Deve-se tomar cuidado para não negligenciar a responsabilidade de cada um e buscar explicação somente em Deus como um consolo passivo", acrescenta Michelle. O psicólogo João Cozac, que há pouco tempo prestou serviço para a CBF junto aos árbitros, ressalta ainda que o papel do profissional da área não é validar ou questionar crenças religiosas, mas compreender como elas influenciam o funcionamento psicológico do atleta. "Quando a fé favorece resiliência, esperança, autocontrole e sentido de vida, ela pode ser integrada ao trabalho psicológico como um fator protetivo. A fé é um recurso extremamente valioso quando amplia a capacidade de enfrentar a realidade. Porém, ela pode se tornar problemática se for utilizada para negar emoções legítimas ou impedir a análise crítica do desempenho", complementa. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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