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Futebol Estrangeiro na seleção: conceito tático diferente, resultados parecidos Julio Gomes Colunista do UOL, na Cidade do México (MEX) 08/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Ancelotti no jogo contra o Marrocos na estreia da Copa Imagem: IMAGO/Elyxandro CEGARRA/IMAGO/Action Plus A seleção brasileira foi atrás de um técnico estrangeiro para ganhar a Copa. E não ganhou. Pelo contrário, foi eliminada em uma fase tão distante da final pela primeira vez desde 1990, quando Sebastião Lazaroni era o técnico e foi massacrado pelo vexame da época. Pela sexta Copa seguida, conseguiu ganhar um jogo de mata-mata contra uma seleção não-europeia e caiu no primeiro confronto contra um europeu. Se os resultados foram parecidos, o que efetivamente mudou? Essencialmente, se comparado com os antecessores imediatos, Carlo Ancelotti trouxe um discurso de mudança de conceito tático para a seleção brasileira. Mas essa mudança ficou muito mais no discurso do que na prática. "No aspecto defensivo, precisamos ter uma equipe solidária, que lute, que seja competitiva e que trabalhe junta", disse Ancelotti. "Uma equipe ordenada com e sem bola nos permite jogar um futebol que pode ser atrativo". Os jogadores corroboraram o discurso, capitaneados por Casemiro, homem de confiança no Real Madrid e na seleção brasileira. Juca Kfouri O VAR seletivo e a proteção à Argentina PVC Fifa abriu a porta do inferno com o caso Balogun João Paulo Charleaux Flávio calcula errado, e estratégia sai pela culatra José Paulo Kupfer FMI está mais otimista com o Brasil que os brasileiros Ancelotti chegou à seleção brasileira há pouco mais de um ano. Sucedeu Dorival Júnior, que já havia sucedido Fernando Diniz, dois dos treinadores brasileiros que estiveram em evidência nos últimos anos. A chegada de Carletto foi o último ato do ex-presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, que havia prometido a chegada do italiano desde 2023. Enquanto não conseguiu, tentou com Diniz e Dorival até rifá-los. O movimento de trazer Ancelotti teve pouco a ver com um debate técnico ou filosófico e mais a ver com um dirigente em frágil situação de poder buscando mantê-lo através de uma escolha populista para a seleção. A ordem do dia no futebol brasileiro é apostar em técnicos estrangeiros. Então que fosse feito o mesmo na seleção. Mas que diferença fez para o Brasil a experiencia do técnico estrangeiro até aqui? Ancelotti falhou taticamente no jogo da eliminação, contra a Noruega, assim como Tite havia feito uma leitura errada no jogo da eliminação de 2022, contra a Croácia. Diniz e Dorival chegaram à seleção com o discurso de resgatar a identidade do futebol brasileiro. Na cabeça de Diniz, tal identidade é representada na liberdade e na autonomia do jogador. Ele entendia que o papel dele era "ajudar o jogador a colocar para fora a sua inventividade e criatividade" e não ficar amarrado a conceitos táticos. Resgatar a "escola brasileira" de improviso e talento individual, aglomerando jogadores pelo campo e com "coragem para jogar". Já Dorival Júnior chegou à seleção brasileira falando menos de estilo e mais de resultados. "Precisamos de uma mudança emocional, de postura. O atleta precisa entender que está vestindo uma camisa muito pesada, uma camisa respeitada no mundo todo". Para ele, a identidade do futebol brasileiro era a vitória. Ganhar. Ancelotti não adotou em nenhum momento um discurso de identidade. Parte do princípio de que o talento brasileiro já está lá, e sua contribuição é organização e equilíbrio tático em cima disso, recusando-se inclusive a definir uma "identidade clara" como conceito. Para o italiano, solidez defensiva é o fator mais importante. Continua após a publicidade Casemiro talvez seja o símbolo desta teórica mudança de priorização. Diniz convocou o veterano, mas logo desistiu dele, preferia um jogador como André (ex-Fluminense) para fazer a função de 5 e melhorar a saída de bola. Dorival também chegou a convocar, mas Casemiro teve uma lesão e depois nunca mais foi chamado. Ele preferia um meio de campo com jogadores mais leves e dinâmicos, do estilo Premier League, e João Gomes (ex-Flamengo) era um símbolo disso. Ancelotti voltou com Casemiro como indiscutível logo de cara e morreu abraçado com ele na Copa, em um Mundial em que o volante mostrou clara falta de velocidade. De um lado, técnicos brasileiros buscando o ataque, cada um a seu modo. Do outro, um técnico italiano buscando a defesa primeiro e a pressão como forma de encontrar transições curtas e recuperar a bola perto da área adversária. Um método de construção baseado na desconstrução. Na prática, os aproveitamentos de Dorival e Ancelotti foram parecidos, enquanto Diniz não teve a chance de jogar amistosos, comandou seis partidas de eliminatórias e acumulou recordes negativos. Com Diniz, o Brasil teve em média 64% de posse de bola nos jogos, que geraram 11,2 finalizações por partida. Com Dorival, os jogos ficaram mais abertos, com menos posse para a seleção (59%), mais finalizações a gol (14 por jogo), mas mais finalizações sofridas também (10,3). O primeiro não teve tempo para fazer os jogadores entenderem o que ele queria, não conseguiu transformar posse em eficiência e caiu depois de perder da Argentina no Maracanã. O segundo adotou um jogo mais atual, mas mais "lá e cá", o que resultou também em demissão após levar goleada da Argentina. E Ancelotti? Com ele, o Brasil teve 34% de posse de bola contra a Noruega, a pior marca já registrada em um jogo da seleção em Copas. A seleção ainda teve média de 53% de posse somando os cinco jogos, gerando 14,8 finalizações por jogo e a segunda posição no ranking de grandes chances desperdiçadas, segundo o Sofascore. No que Ancelotti realmente foi diferente dos outros foi na aceitação de que não haverá uma tática única e sim uma adaptação sempre em função do jogo que se apresenta. É uma discussão quente no futebol: se impor ou reagir? No que Ancelotti decepcionou? Para reagir ou escolher uma tática diferente em função do jogo, tua leitura precisar estar para lá de afiada. E não foi o caso contra a Noruega, uma seleção que só havia tido mais do que os 66% de posse de bola que teve contra o Brasil em jogos contra Moldávia (69%) e Estônia (68%) pelas eliminatórias europeias. Em um amistoso recente contra a França, em que levou uma sapatada de 4 a 1, a Noruega teve só 43% de posse de bola e no jogo anterior ao do Brasil, contra a Costa do Marfim, havia sofrido justamente quando os africanos tiveram o controle e o volume. Continua após a publicidade Resumindo: Ancelotti fez a leitura errada de como vencer a Noruega. Um técnico brasileiro, como Diniz ou Dorival ou mesmo Tite, que também fez leitura errada no jogo contra a Croácia, em 2022, seria massacrado. No fim, o resultado da aposta no italiano foi o mesmo - por enquanto. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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