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Análise dos Times

Real Madrid

Principal

Motivo: A matéria relata a experiência de Zé Roberto no clube de forma factual, sem demonstrar favoritismo ou crítica excessiva ao desempenho geral.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Motivo: A menção ao Flamengo é breve, como parte da narrativa da carreira, sem um viés evidente.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Motivo: A passagem pelo clube é mencionada como parte da consolidação da carreira, de forma descritiva.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Motivo: A menção ao Bayern é factual, como mais um clube de destaque na carreira de Zé Roberto.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Motivo: O clube é citado no final da carreira do jogador, com foco nas conquistas recentes, sem viés aparente.

Viés da Menção (Score: 0.0)

Palavras-Chave

Entidades Principais

Flamengo Palmeiras Cristiano Ronaldo Real Madrid Portuguesa Bayern de Munique Bayer Leverkusen Copa do Mundo de 2002 Zé Roberto Copa do Mundo de 2006 Copa América de 1999 Copa América de 1997 Copa das Confederações de 1997 Copa das Confederações de 2005

Conteúdo Original

Zé Roberto explica por que perdeu o foco no Real Madrid O office-boy que via o sonho de ser jogador escorrer pelos dedos encontrou no emprego com carteira assinada uma forma digna de colocar mistura no prato e ajudar a mãe a criar os irmãos. O que Zé Roberto não imaginava é que, poucos anos depois, impulsionado pela insistência materna e pelo próprio talento, estaria no Real Madrid, após brilhar no início da carreira na Portuguesa. A chance no gigante espanhol, porém, poderia ter sido melhor aproveitada. A testosterona de um jovem recém-casado vivendo no exterior encontrou o vício em videogame e a obsessão por "zerar" um jogo (Crash Bandicoot). Vieram, então, as noites mal dormidas, o descuido quase inacreditável com a forma física e apenas 21 partidas em pouco mais de um ano. Três títulos no currículo e uma despedida precoce do clube que muitos consideram o mais relevante do futebol mundial. – Foi muito difícil assimilar tudo isso. O videogame me atrapalhou muito porque eu era molecão: 21 anos. Minha esposa também era muito jovem, de 18 para 19. Um dos meus sonhos, além de me tornar jogador e comprar um carro, era ter um PlayStation. E a gente comprou. Recém-casado, eu parecia um galo. Namorava o dia todo e, à noite, ia jogar videogame. Eu perdi toda a minha performance, chegava ao clube para treinar com olheira. Imagina: o cara namora o dia todo e, à noite, perde o sono jogando videogame. – Aquela época foi a única em que eu saí da minha forma física, porque o jogo me gerava muito estresse. Eu queria zerar e não conseguia. Aí me dava fome de madrugada. Eu ia comer biscoito. Eu comia muito biscoito. Eu falava: “Me traz um biscoito.” Eu ia comer um, terminava com a caixinha. Aí vinha lanche, refrigerante... Eu fui ficando acima do peso sem perceber. E estressado por causa do jogo. Isso é algo que tira a concentração e o foco de muitos atletas hoje – conta Zé Roberto. Mais do Abre Aspas + Amaral diz como perdeu dinheiro: "Eu me reinventei" + Nelsinho Baptista lembra tensão com ameaça de traficante + Guto Ferreira rejeita rótulos e revela caso de preconceito 1 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Se para muitos deixar o maior time do mundo representaria uma chance desperdiçada, para Zé Roberto foi o passo para trás que ele precisava para dar o impulso necessário para uma carreira sólida na Europa depois de retornar ao Brasil para uma breve passagem pelo Flamengo. Após isso, foram 14 anos atuando por Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, além de Hamburgo e Al-Gharafa. – Nesses 14 anos de Europa, pude perceber que a maioria que não teve a família como base acabou batendo e voltando. Eu bati, voltei e depois retornei, porque não estava preparado. Quando eu voltei ao Brasil, em 1998, por empréstimo, para o Flamengo, e fiquei seis meses, foi quando pude analisar muitos pontos que teria que mudar para voltar e permanecer lá por longo tempo. – Essa análise, quando eu voltei, foi muito importante. A minha volta foi para a Alemanha, uma adaptação muito mais difícil do que na Espanha. Quando chego ao Leverkusen, o que me ajudou muito é que o clube já estava preparado para receber estrangeiro. Antes de mim já tinham jogado lá Paulo Sérgio e Jorginho. Era um clube preparado, e isso facilitou a minha adaptação – explica. Abre Aspas: idade, aprendizado e títulos na carreira de Zé Roberto Ficha Técnica Nome: José Roberto da Silva Júnior Apelido: Zé Roberto Idade: 06/07/1974 - 51 anos Carreira: 1051 jogos | 103 gols | 49 assistências Clubes: Portuguesa, Real Madrid, Flamengo, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, Santos, Hamburgo, Al-Gahrafa, Grêmio e Palmeiras. Seleção Brasileira: 84 jogos | 6 gols Títulos: Bundesliga (2002/03, 2004/05, 2005/06 e 2007/08), Copa da Alemanha (2002/03, 2004/05, 2005/06 e 2007/08), Taça da Liga Alemã (2004/05 e 2007/08), Brasileirão (2016), Copa do Brasil (2015), Campeonato Espanhol (1996/97), Supercopa da Espanha (1997), Campeonato Paulista (2007), Liga dos Campeões (1997/98), Copa das Confederações (1997, 2005), Copa América (1997 e 1999). 2 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli A sólida e vitoriosa carreira de Zé Roberto ainda teve decepções e feridas difíceis de serem curadas, como a ausência na lista de convocados para a Copa de 2002 e o vice-campeonato na Copa de 1998, além da precoce eliminação em 2006 com uma das seleções mais badaladas e estreladas da história do Brasil. – No meu auge, não fui convocado para a Copa de 2002. Fiquei chateado? Claro, eu nem vi a Copa. Eu vivi o meu luto ali, só que precisava voltar, porque ia ter quatro anos para buscar meu espaço de novo. E busquei. Uma coisa que é muito difícil, se vocês forem analisar, é um jogador que não participou de um grupo, de uma seleção que foi campeã, chegar de titular depois de quatro anos, em outra Copa. – Eu chego bem. Aquele time ali no papel, se você for apontar dentre as outras seleções, qual seria a seleção que teria grande chance para ganhar a Copa de 2006? O Brasil! Claro que ninguém chegou ali nas suas melhores condições físicas. Eu acho que isso que fez a grande diferença. Todos chegaram com o mesmo objetivo de ser campeão do mundo, mas a gente pegou já a fase que o futebol não era só nome, não era só talento. O futebol passou a ser físico e por nem todos estarem no ápice de sua carreira, de performance, fomos eliminados – disse. A carreira terminou aos 43 anos, dando o pontapé para uma era de inúmeras conquistas do Palmeiras. Zé Roberto admite que poderia ter ido ainda mais além, jogado por mais alguns anos, mas a gana pelo futebol ficou no passado. A rotina fit e o cuidado com o corpo ficaram, a vontade de jogar futebol se foi como o suor de um dos treinos mostrados diariamente nas suas redes sociais. – Eu vou falar uma coisa que nunca falei para ninguém: o mais difícil na carreira de um atleta não é tomar a decisão e saber a hora de parar. Para mim, o mais difícil foi decidir parar sabendo que eu poderia ir um pouco mais além. As pessoas me perguntam hoje se tenho vontade de jogar futebol. Eu digo: zero. Eles perguntam: "Por quê?" Eu respondo: "Porque eu dei o meu máximo. Eu deixei o meu máximo. E poderia ter ido além." Por ter deixado o meu máximo, hoje a vontade é zero. A única vontade que tenho hoje é de continuar me cuidando, ter meu estilo de vida e ser referência para a nova geração. Isso, para mim, é viver com propósito. Zé Roberto x Cristiano Ronaldo: quem é mais disciplinado? Em quase duas horas de entrevista ao Abre Aspas, na sede da Globo em São Paulo, Zé Roberto foi às lágrimas relembrando os primeiros passos no futebol, detalhou os cuidados com o corpo que mantém até hoje e se diz realizado com o trabalho atual de mentoria para jovens jogadores e como influenciador digital dos seus mais de 3 milhões de seguidores. Ele acha que foi mais disciplinado com o corpo do que o astro português Cristiano Ronaldo. – Quando eu jogava, acho que sim. Depois que encerrei a carreira, ainda sou um cara muito regrado, disciplinado. Eu priorizo a minha alimentação e meus treinos diários. Mas, quando você está dentro da sua profissão, você tem objetivos específicos e isso te direciona mais. O Cristiano é um cara que está em busca de mil gols, de ser campeão do mundo. Ele tem objetivos dentro da carreira, e isso ajuda ele a se manter focado até hoje, quase com 40 anos. 3 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Abre Aspas: Zé Roberto ge: Conta por que você decidiu seguir esse caminho das palestras e como tem sido. Você se encontrou nessa função? Zé Roberto: – Eu me encontrei porque isso já fazia parte da minha rotina. Hoje vivo a melhor fase da minha vida, porque faço o que mais gosto. Minhas palestras falam sobre transformação, sobre os processos que vivi e as conquistas que tive. Em todos os clubes por onde passei, exerci papel de liderança. Como capitão, precisava transmitir algo positivo aos companheiros. Essa postura ajudou na minha carreira e hoje me permite compartilhar esses aprendizados com outras pessoas. Você se sente mais feliz hoje do que quando jogava? – Não posso dizer isso, porque jogar foi a realização de um sonho de infância. Mas realizar esse sonho foi muito difícil. Passei por muitas provações. Quando você é criança e sonha em ser jogador, precisa de referências. Normalmente são os pais. Eu tive meu pai presente por pouco tempo e sentia falta dele. Em alguns momentos achei que nem conseguiria realizar meu sonho. Quem sempre esteve comigo foi minha mãe. Ela trabalhava em dois empregos para sustentar cinco filhos. – Era a única mulher nas escolinhas onde eu jogava. Um dia perguntei se ela não se sentia excluída. Ela disse que não, porque sabia o lugar dela. Enquanto os outros pais deixavam os filhos e iam para o bar, ela ficava no canto observando. Ali, começou a ouvir comentários: "Está vendo aquele menino ali? É diferente. Pode virar jogador". Ela não entendia de futebol, mas entendia de amor e cuidado. Só insistiu porque via o amor que eu tinha pelo jogo. 4 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Você falou da ausência do seu pai. Como isso impactou sua vida e sua carreira? E como influenciou sua paternidade? – Tive meu pai presente dos nove aos 13, 14 anos. Ele era muito autoritário e cobrava estudo e trabalho. Minha mãe era mais coração, deixava eu fazer o que amava. Havia conflito em casa. Quando ele saiu, senti muito. Numa fase difícil, perdi minha irmã, que era o braço direito da minha mãe. Cheguei a desistir do futebol. Decidi trabalhar para ajudar em casa. Fui office-boy, carteira assinada. Em seis meses, fui efetivado. Minha disciplina não veio da Alemanha nem da seleção. Veio de casa. – Minha mãe me dava tarefas: comprar mistura, limpar a casa, estar no ponto às nove e meia da noite com meu irmão. Aquilo me ensinou responsabilidade. O dia em que assinei carteira e recebi vale-transporte e tíquete-refeição foi um dos mais felizes da minha vida. Podia ajudar em casa. Mas minha mãe, sem eu saber, tinha feito minha inscrição na peneira da Portuguesa e do Corinthians. "Na Seleção, não tem ninguém como Neymar. Não tem como não convocar" – Eu não queria ir. Estava feliz no emprego. Mas ela insistiu. Disse que já tinha falado com meu patrão e que eu iria. Fui contrariado. Não passei na primeira avaliação. Ela questionou os treinadores porque tinham analisado a gente por poucos minutos. Conseguiu que eu tivesse nova chance dois meses depois. Na segunda vez, eu me preparei de verdade. – Treinava todos os dias. Consegui jogar mais tempo e fui aprovado. Fui federado pela Portuguesa e passei a morar no alojamento, porque o deslocamento da Zona Leste era inviável. A decisão mais difícil foi aceitar ir à peneira, porque eu já tinha enterrado meu sonho. Quem trouxe o sonho de volta foi minha mãe. Se não fosse ela, provavelmente eu teria seguido outra profissão. Você começou como meia, depois virou lateral e voltou ao meio. Foi tranquilo? – Era uma vontade minha, mas teve influência do Candinho. No Brasileiro de 1996, ele me tirou da lateral esquerda e me colocou no meio-campo. Nosso time encaixou e fizemos grande campanha, chegando à final contra o Grêmio. Essa mudança foi decisiva para minha projeção. 5 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Como foi o primeiro ano como profissional? – Meu primeiro contrato foi assinado pela minha mãe. Eu não tinha empresário. O clube explicou as condições, falou que eu precisava ganhar massa, que iria morar em hotel por um período. Minha mãe praticamente não negociou. O que ofereceram já era muito melhor do que a gente tinha. Saí do alojamento, passei a ter acompanhamento profissional. Isso fez toda a diferença. Qual foi a primeira coisa que você comprou? – A primeira coisa que eu comprei foi o meu carro. Eu quis realizar um sonho: um Fusquinha 73, cinza. Mexi nele todo. Eu sempre gostei muito de som. Rebaixei. Meu Fusquinha apavorava. Onde eu chegava, era “o Zé chegando”. Mexia no escape. Eu gostava muito de carro, mas nunca tive condições. Eu falei: "Meu primeiro carro vai ser um Fusca". Por que um Fusca? Porque a única pessoa que tinha carro na minha família era meu avô, pai do meu pai. – Todo fim de semana a gente ia para o Ipiranga (bairro da zona sul de São Paulo) passar o fim de semana na casa dele. Quando eu chegava dos treinos, eu sempre pedia: “Poxa, vô, me leva para dar uma volta nesse Fusca aí.” E ele levava eu e meus irmãos para dar uma volta. O Fusca do meu avô era 73. E, quando eu fui comprar o meu, eu pensei: “Preciso achar um Fusca 73 cinza, da cor do Fusca do meu avô.” Então, o valor do primeiro contrato foi investido num carro que eu sempre tive vontade de ter. 6 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli E a chegada ao Real Madrid? – Foi muito difícil. Cheguei a um dos maiores clubes do mundo sem estar preparado psicologicamente e taticamente. No estacionamento só tinha carrão. No vestiário, todo mundo de terno. Eu fui com roupa simples. O Roberto Carlos brincou que iam achar que eu tinha ido pintar o vestiário. Dentro de campo, a intensidade era outra. Eu não acompanhava. Não falava inglês nem espanhol. Não tinha orientação. Foi um choque. Por isso bati e voltei. Você foi com quem para a Europa? – Fui recém-casado, aos 21 anos. Ter família como base fez toda a diferença. Muitos que foram com amigos acabaram voltando. A família é alicerce. 7 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli E o videogame? Você já contou que isso te atrapalhou... – Atrapalhou muito. Eu era jovem, recém-casado, comprei um PlayStation. Jogava até de madrugada, comia mal, dormia pouco. Perdi performance, ganhei peso. Foi a única fase em que saí da minha forma física ideal. Hoje as distrações são outras: redes sociais, exposição. Se o atleta não tiver foco, fica pelo caminho. Teve outras distrações? – Não. Consegui atravessar três gerações porque fui adaptável. Quando percebi que o futebol ficou mais físico, passei a investir mais em mim. Voltei ao Brasil em 2006 para o Santos no auge. Depois retornei ao Bayern aos 35 anos. Essa volta foi decisiva para minha longevidade. Encerrar no Palmeiras, com títulos importantes, foi escolha consciente. O mais difícil não é decidir parar. É parar podendo continuar. Mas parei no meu máximo. Por isso hoje não sinto falta de jogar. Meu propósito agora é viver bem, cuidar do corpo e ser referência para a nova geração. "Racismo hoje me soa estranho. Nem deveria mais haver esse câncer" Teve um momento que você percebeu que o físico seria determinante? – Sim. Em 2012, no Grêmio, percebi que minha recuperação já não era imediata. Passei a investir mais em mim: alimentação, recuperação em casa, piscina, cuidados extras. No dia seguinte aos jogos, meus índices eram melhores que os de muitos mais jovens. Entendi que meu corpo era meu instrumento de trabalho. Passei a tratá-lo como uma máquina que precisa de manutenção diária. Isso prolongou minha carreira. 8 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Teve alguém que te inspirou nesse profissionalismo? – Sim. Fernando Redondo e Fernando Hierro, no Real Madrid. Eram líderes pelo exemplo, últimos a sair do treino. Eu me inspirei muito neles e tentei replicar isso ao longo da minha carreira. Chegou uma época em que eu decidi desistir da realização, porque foi numa fase em que meu pai saiu de casa e eu perdi a minha irmã, que era o braço direito da minha mãe. Ela faleceu. – Quando isso aconteceu, eu cheguei para a minha mãe e falei: "Perdemos a Rejane, meu pai acabou de sair de casa, mãe. A senhora sempre foi a minha maior incentivadora, mas agora eu decidi não dar continuidade a esse sonho. Eu quero trabalhar, quero ajudar a senhora no sustento da casa, até porque a senhora perdeu duas pessoas importantes." E aí eu desisti. – Faltava alguém que pudesse me apoiar. Minha irmã me apoiava muito: era ela quem comprava as chuteiras. Às vezes minha mãe não recebia o salário no emprego, e era minha irmã que dava o dinheiro da condução. Quando ela faltou, e ao mesmo tempo meu pai saiu de casa, eu senti a necessidade de ajudar minha mãe, que trabalhava em dois empregos. Fui procurar emprego e comecei a trabalhar de office boy. Jovem aprendiz, office-boy, e em seis meses eu já estava com a carteira assinada. Quanto tempo durou a vida de carteira assinada, quantos empregos você teve e o que aconteceu para voltar a ter esse sonho? – Foram seis meses com carteira assinada de office-boy. Eu fazia o que o seu Edivaldo, diretor da empresa, me colocava para fazer: pagar conta no banco, buscar cartucho de máquina de datilografia. Ele dizia: "Agora você volta, vou te ensinar a fazer os formulários que a gente precisa mandar para as empresas, batendo aqui na máquina de datilografia". Eu aprendi datilografia e batia muito rápido. Eu fazia as entregas e pagava as contas no banco muito rápido. Até porque, desde dez anos, eu já andava de ônibus: eu sabia de onde saía, onde chegava, então era muito rápido. – Então, o processo de ter desistido e depois ter voltado a buscar a realização do sonho foi porque minha mãe me inscreveu numa peneira na Portuguesa, quando eu já não tinha mais vontade. Ou seja: eu já tinha enterrado o meu sonho; para mim, ele estava morto, não fazia mais sentido. Ela foi a pessoa que trouxe de novo, que deu vida a esse sonho. Foi por conta da persistência dela. Foi só por ela. – Porque, por mim, eu diria que, se não fosse ela, eu tenho certeza que hoje eu estaria... Não sei se eu seria dono de alguma empresa, mas eu estaria num cargo muito bom. Foi ela que me deu o caminho e me mostrou a forma de realização, independentemente de eu virar jogador ou ser alguém na vida. O caminho se projetou para que eu pudesse realizar o sonho muito por conta dela. 9 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Como foi o processo a partir daí? – Não passei na peneira. Não passei porque, como ela pediu dispensa no trabalho para ela e para mim, a gente saiu de casa quase meio-dia, e a peneira estava marcada para as duas. Duas horas a gente tinha que estar no portão principal do Canindé, na Portuguesa. A gente chegou dez para as duas, só que, quando chegamos, tinha uma multidão de garotos da minha idade, de 14 para 15 anos. A gente ficou mais para trás, porque a maioria chegou mais cedo e estava na frente. – Eu não passei, mas foi ela que me deu uma nova oportunidade. Eu voltei dois meses depois. E foi crucial, porque eu me preparei de um jeito totalmente diferente. Eu treinava todos os dias. Tinha dia em que eu pedia dispensa para o seu Edivaldo para fazer dois períodos. Como é a sua rotina de cuidados? Jogador quando para quer cerveja, churrasco... – Eu me mantenho dentro da minha rotina e do meu estilo de vida porque isso, para mim, tem propósito. Eu quero passar aquilo que faz diferença. O estilo de vida que eu tenho motiva muita gente. Eu recebo inúmeras mensagens. Às vezes, no dia em que eu não posto um treino na barra ou uma corrida na esteira, as pessoas falam: “Poxa, Zé, cadê o treino de hoje?”. – Isso te motiva a ser referência para pessoas que nem são atletas, mas pessoas comuns. Ser inspiração é o que mais me motiva. Isso traz propósito para mim. Eu me sinto feliz me sentindo bem e levando essa transformação para a vida de outras pessoas. Por isso vai ser difícil parar. 10 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Como é a sua rotina tanto de treino quanto de cuidado? – A minha preocupação nunca foi buscar físico ou "shape". A forma em que eu me encontro hoje é consequência da minha rotina. Algo primordial para mim é começar o dia com treino. Eu preciso treinar logo cedo. Meus filhos hoje são adultos, mas, quando eu parei de jogar, eu priorizei levá-los todos os dias à escola. Por mais que eu pegasse duas horas de trânsito — era ruim demais — eu levava e buscava todos os dias. Depois que eu deixava, eu ia para o treino. – O treino diário, para mim, não é só físico, é mental. Quando eu não treino, eu fico chato, eu fico mal. Eu estou legal agora porque eu treinei de manhã. Alguns falam "bati a meta", outros falam "está pago". Eu não gosto muito de dizer "está pago", porque, para mim, não é dívida. É realização. É cumprir algo que eu me propus a fazer: cuidado pessoal. Isso me faz muito bem. – E eu me tornei palestrante. Decidi não continuar no meio do futebol porque eu queria fazer o que me traz felicidade, que é a minha essência: ter troca, levar conhecimento, ajudar pessoas. Hoje, eu tenho três frentes: ser palestrante, ser mentor de atleta e o ZR11 Experience, em que eu trago jovens, crianças de 12 a 15 anos, para o meu espaço e treino dentro de uma metodologia que eu desenvolvi com um treinador amigo meu. Esses três ativos me mantêm feliz e realizado. Posso dizer para vocês que hoje eu estou vivendo a melhor fase da minha carreira, com 51 anos. Não te bate vontade de comer o que quiser? – Eu sou um cara muito regrado. Eu como de tudo, mas eu sei dosar. Não é que eu faça dieta todos os dias, mas eu gosto de duas ou três vezes por semana, fazer jejum intermitente. Eu gosto de fazer exames de seis em seis meses. Eu gosto de tomar suplementos porque isso me ajuda na vitalidade, na motivação, e em algumas proteínas que eu preciso ingerir todos os dias. Eu tenho personal, médico. – Eu acho que são fatores que se complementam e te geram felicidade, fazem você viver uma vida plena. Eu não tenho nada muito rigoroso. Eu só procuro cumprir aquilo que eu me propus a fazer para melhorar a cada dia. Se eu melhorar um por cento a cada dia, com certeza, no fim do ano, eu vou estar muito melhor do que fui no ano passado. Isso, para mim, é o grande sucesso da minha vida, e é isso que eu quero passar para outras pessoas. Falta ao jogador profissional brasileiro se cuidar um pouco mais? – Antigamente, as pessoas que trabalhavam com você no clube falavam muito sobre isso: “se cuidar, se cuidar”. Hoje nem é tão necessário, porque os próprios atletas já sabem que, se não se cuidarem, não vão ter performance e vão acabar ficando para trás. – O Neymar é um caso. A dificuldade, no momento em que ele voltou ao Brasil, foi se recuperar, não ter mais lesão e buscar a melhor performance. Eu acho que a melhor performance do Neymar foi nos últimos dois jogos do Campeonato Brasileiro. Ele se lesionou e, agora, esse período de férias e a volta, neste início de ano com o Santos, estão ajudando muito ele a buscar performance. – Talento, para mim, o Neymar é o jogador que mais tem. E ele entendeu que não basta só ter talento. Eu já sou fã do Neymar, acompanho ele todos os dias. Ele posta treino todos os dias, mas não é no clube, é na casa dele. Ele mudou a mentalidade. Antigamente ele não fazia esses posts. Quando eu faço os meus posts, eu quero mostrar a rotina, o dia a dia. Ele está mostrando isso também, está mostrando que faz diferença. – E eu já vou até antecipar, antes de vocês perguntarem se ele merece ir para a Copa. Para mim, na última convocação não tem nenhum jogador com o talento e a qualidade do Neymar. Agora imagina ele bem fisicamente. Não tem como não convocar. Um cara com a qualidade dele, bem fisicamente, é quem faz a diferença. Mas claro que a gente sabe: cada treinador tem a sua opinião. "Na minha melhor fase, fui preterido da Copa" Zé, como você foi impactado com a não convocação para a Copa de 2002? – No meu auge, não fui convocado para a Copa de 2002. Fiquei chateado? Claro, eu nem vi a Copa. Eu vivi o meu luto ali, só que precisava voltar, porque ia ter quatro anos para buscar meu espaço de novo. E busquei. Uma coisa que é muito difícil, se vocês forem analisar, é um jogador que não participou de um grupo, de uma seleção que foi campeã, chegar de titular depois de quatro anos, em outra Copa. – Poucos chegaram. Eu só consegui fazer isso de chegar de titular não fazendo parte de uma geração vitoriosa, porque eu não fiquei preso em Felipão, isso de que minha carreira acabou. Eu não fiquei me lamentando, eu precisei correr atrás, eu precisei buscar o meu espaço em um dos maiores clubes da Europa, o Bayern de Munique, 25 jogadores, todo mundo quer jogar. – Precisei matar um leão a cada dia. Por isso que eu falo que a vida me ensinou muita coisa. E essa vivência que eu tive, que gerou transformação em mim, eu preciso levar pra vida de outros até. Por isso que me tornei um mentor, tem alguns que já trabalho junto, auxiliando, cuidando. Tem o meu espaço, o meu CT. A gente analisa o jogo, vê os pontos que precisam ser melhorados. 11 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Você chega na Copa de 2006 com a faca nos dentes... – Eu chego bem. O simples fato de a gente ter tido um time com os figurantes, qual seria a seleção que teria grande chance para ganhar aquela Copa de 2006? Seria o Brasil, por que qual seleção que tinha dois laterais como Roberto Carlos e Cafu? Quais seleções tinham a zaga com Lúcio e Juan, um goleiro como Dida? Um quarteto mágico como Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo Fenômeno e Adriano? Eu não renovei o meu contrato como Bayern de Munique porque falei, com esse time a gente vai ser campeão mundial e vou ficar grandão no mercado, passe livre, campeão do mundo, aí não vou precisar jogar até os 43 anos. Foi isso que que programei, mas caí do cavalo. – Claro que nem todos chegaram nas suas melhores condições. Ronaldinho já tinha sido dois mil anos antes, foi o melhor do mundo. Kaká já tinha sido o melhor do mundo. Roberto Carlos, o melhor lateral do mundo. Cafu, Ronaldo. Claro que ninguém chegou ali nas suas melhores condições físicas. Eu acho que isso que fez a grande diferença. Todos chegaram com o mesmo objetivo de ser campeão do mundo, mas a gente pegou já a fase que o futebol não era só nome, não era só talento. – O futebol passou a ser físico e por nem todos estarem no ápice de sua carreira, de performance, a gente acabou sendo eliminado nas quartas para a França, que tinha um time, pelo menos do meu ponto de vista, inferior, mas que fisicamente estava voando. O próprio Zidane foi o melhor daquela Copa, acho que com 33 anos, voando. Eu cheguei naquela Copa com 32. O Zidane, no setor dele ali, eu não conseguia achar ele. Então você via a diferença, que ali naquele jogo, acho que foi muito o físico que prevaleceu. Porque talento, o nosso time tinha mais. 12 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Como você vê esses casos de racismo cada vez mais frequentes no mundo da bola? – É repudiante você falar de racismo nos tempos de hoje e ainda não ter uma punição severa. Para mim, o racismo é um câncer que ainda não descobriram a cura. Essa é a definição que eu tenho. Eu sou um cara que eu já sofreu racismo. Só que isso nunca me parou, nunca me desestabilizou, nunca deixou com que eu passasse a não acreditar mais na minha essência. Eu acho que é um tema que não deveria mais estar sendo discutido, ele tinha que ter punição severa. E por não ter essa punição severa, os racistas enrustidos, eles opinam, eles falam, eles atacam e não acontece nada. – Enquanto não acontecer nada, a gente vai viver sempre perguntando, outros respondendo e não acontece nada. A partir do dia que as pessoas souberem que quem comete o ato vai ser punido, eu acho que já passa a não ter mais discussão de pergunta e resposta. Passa a ser algo que precisa ser banido, precisa ser tirado da sociedade. Pra mim, me soa um pouco estranho falar de racismo nos dias de hoje. Eu acho que deveria já ter tirado da humanidade, do mundo, e todos viverem de uma forma de igualdade. É um câncer que ainda não descobriu a cura. 13 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Em algum momento já pensou ou ainda pensa em voltar ao futebol? – Não, não, porque o futebol consome muito do teu tempo. Quando exerci a função de atleta, eu perdi muito tempo da minha vida. Não condenando a carreira, mas, poxa, eu queria tanto levar os meus filhos na escola quando eles eram pequenos, eu queria tanto participar de uma reunião da escola deles, queria tanto estar presente nas datas de aniversário e eu nunca pude estar por causa da minha profissão. Todo fim de semana eu estava concentrado, estava jogando... – Então, ir para o mercado de futebol como um auxiliar ou um treinador vai me tirar tudo aquilo que quero viver, ser livre e fazer aquilo que eu gosto. Então o clube, o futebol, ele exige tanto que você só precisa viver aquilo, não pode viver a tua vida. Não é isso que eu quero. Quero viver a vida que eu vivo hoje, eu quero realizar os meus sonhos do momento que eu vivo hoje. Por isso que não penso em estar no meio do futebol, por isso que não penso em me preparar para ser um treinador, quero priorizar muito o meu tempo após a minha carreira. Você se acha reconhecido pelo que você foi na medida que deveria? – Eu acho que sim. Você fala em qual sentido? 14 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Do público, da imprensa, de valorização? – Eu acho que sim. Eu acho que, da forma que você está me perguntando, me traz algumas lembranças de quando eu saí novo para jogar fora e que eu passei a atuar pela Seleção. Minha primeira convocação foi em 95. Eu fiquei 10, 11 anos sendo convocado. E eu lembro que em algumas convocações, na época que eu jogava no Leverkusen, recebi alguns questionamentos da própria imprensa e de torcedores, porque, como eu saí novo e estava jogando fora, as pessoas, quando saíam convocados, nem sabiam onde eu estava jogando ou quem eu era. – Chegou essa fase e eu acho que foi uma fase que eu não tive esse reconhecimento, por estar jogando fora e, nessa época, Vanderlei (Luxemburgo), eu acho que era o treinador, convocava poucos jogadores da Europa e a maioria aqui do Brasil, até porque ele era treinador aqui, né? Então acho que mais essa época. Aí depois, quando eu retorno para jogar no Santos, no Grêmio, encerro no Palmeiras, a memória do torcedor brasileiro para comigo muda muito, porque eu já passei a ser um jogador mais presente em clubes grandes, como o Santos, como o Grêmio e como Palmeiras. Acho que aí todo mundo pôde te acompanhar mais no dia a dia... – Isso, aí muda bastante. Sim, e claro que também a Copa, né? A Copa de 2006, eu acho que ter sido o melhor no meio dos melhores, eu acho que isso aí para mim foi o auge da carreira na Seleção, né? 15 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli O Palmeiras é grande? Ficou ainda maior... – Gigante, ficou maior, poxa. Quando cheguei ao Palmeiras, era uma fase de muito questionamento, porque o Paulo Nobre, quando ele muda a diretoria e traz o Cícero e o Alexandre, ele fala, vamos começar uma renovação. E o primeiro nome que sai na imprensa pra ser contratado foi o meu, o Zé Roberto. Primeiro nome da renovação. Aí os torcedores falam, pô, o Palmeiras está de sacanagem. Renovação, o Zé chegando com 40 anos. Sério, pô. Eu recebi muito isso. – Eu abria meu Instagram, recebia muita mensagem. Pô, o Palmeiras está de sacanagem, te contratou com 40 anos, falando de renovação. Até porque os torcedores estavam machucados, né? No ano anterior, 2014, de centenário, quase cai. Só não caiu porque acho que o Santos ganhou do Vitória, e o Palmeiras empatou, estava perdendo do Athletico Paranaense. E aí.. 2015 é o ano de renovação. 16 de 16 Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli Zé Roberto em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli – Só que eu vou falar uma coisa pra vocês, para gente finalizar. Nunca deixem de profetizar, tá? A palavra tem poder. Eu acho que o bate no peito e a fala que o Palmeiras é grande, caiu por terra tudo aquilo que os caras pensavam. Porque a partir daquele bate no peito, eles passaram a acreditar que o Palmeiras ia virar e ia dar alguma coisa aquele ano. Vice paulista, segundo semestre, tricampeão da Copa do Brasil, depois de 22 anos, 2016, campeão brasileiro. Acho que foi a profecia dentro do vestiário, porque se fosse a idade, era pra eu estar aposentado.