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Futebol Da Copa do Mundo que talvez eu jogue Luiz Henrique Matos Colunista do UOL 19/05/2026 05h30 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Luiz Henrique Matos em uma figurinha da Copa do Mundo Imagem: Arte/UOL Quando um email da CBF chegou anunciando minha convocação para os jogos amistosos contra Japão e Coreia do Sul, ele não veio em boa hora. Era outubro e muita coisa vinha acontecendo. Eu andava às voltas com a decisão iminente de mudar de carreira. Depois de três décadas vendidas ao mundo corporativo, estava decidido a me afastar e me dedicar em tempo integral à escrita, um sonho que alimentava desde a juventude. Mas, poxa, poder jogar pela seleção brasileira às vésperas da Copa ia além de um sonho juvenil. É o tipo de coisa que poderia alterar completamente os planos e fazer com que minha vida de centroavante não-praticante mudasse de patamar. Julio Gomes Neymar não aceitará ficar no banco 'numa boa' Wálter Maierovitch Flávio se equilibra para não cair em crimes Marco Antonio Sabino Vorcaro vale bem mais que R$ 40 bilhões Carla Araújo Pré-campanha estuda agendas de Janja sem Lula Reli o email para ver se não era spam, golpe ou trote. Não era. O remetente era a gerência de seleções da CBF (com domínio @cbf.com.br e tudo), incluía outros executivos da confederação em cópia, era direcionado ao manager de um clube russo cujo nome meu teclado é incapaz de reproduzir e ao atleta convocado. Call up dizia o título e a mensagem vinha toda em inglês. O mais importante: diziam no corpo da mensagem que eles tinham "the pleasure to confirm" a convocação do jogador listado no documento anexo para "join the Brazilian National Men's Team" na disputa de duas partidas amistosas durante a Data Fifa do final de ano. E o tal documento em anexo que abri como se fosse uma caixa de bombons tinha lá: PLAYER: Luiz Henrique | Left Winger Euzinho. Em carta oficial, datada, carimbada e assinada pelo diretor de futebol logo depois de um "we thank you very much in advance for your support" e mais um tanto de firulas com as quais, essas sim, eu estava bem acostumado. Comecei a me animar ao me dar conta de que ser jogador de futebol, afinal, tinha lá suas semelhanças com a vida corporativa que eu levava. No outro anexo, um visto para entrar na Coreia do Sul e as passagens aéreas. Porque é claro que eu, o atleta, aceitaria a convocação e também é claro que mesmo surpreso com a novidade, acreditava que um dia, finalmente, o reconhecimento pelo meu talento chegaria (mesmo que ele fosse desconhecido, inclusive, por mim) e, é evidente, sem a menor sombra de dúvidas, que só existe um Luiz Henrique no planeta e que meu email jamais poderia ter sido copiado por engano, mesmo sendo ele luizhenrique@algumacoisa.com e pareça fácil de ser adicionado por engano. Por fim, quem liga se a foto da pessoa ao lado do meu nome na folha de visto não se parecia comigo e nem que eu more em São Paulo e não em São Petersburgo, de onde partiria meu voo? Continua após a publicidade O fato - e sei que você concorda comigo - o fato inconteste é que fui convocado. Ou meu email o foi. E se isso colocou em cheque decisões de vida e carreira até então sólidas, o ponto é: quem se importa? Eu iria para um jogo da seleção. E a partir daí, jogar a Copa só dependia da minha capacidade de aprender a praticar futebol. Mas é para isso, dizem, que existe a IA. "A convocação para ser parte da Seleção Nacional é sempre o ponto alto na carreira de um atleta e um reconhecimento do seu talento e bom trabalho realizado", dizia a carta, que eu já lia às lágrimas. E seguia: "Todos os envolvidos merecem as máximas congratulações". Obrigado. Se minha meta pessoal até aquela tarde era aprender a escrever com a precisão estilística da Lygia Fagundes Telles, dali em diante eu me dei conta de que, para agradar à torcida e à crítica, precisaria de empenho para alcançar um vocabulário à altura do Vampeta. * Na Ásia, fiquei no banco passando frio. Cheguei a pensar que meu sonho com o manto amarelinho estava encerrado. Aterrissando em São Paulo (ou melhor, São Petersburgo), segui com a rotina que tinha até a chegada daquele email. Continua após a publicidade No começo de novembro, eu já havia pedido demissão do emprego e cumpria um aviso prévio estendido. Era uma tarde de segunda-feira, eu estava parado no engarrafamento de São Paulo, quando abri o celular e lá estava ela, a CBF. Novamente um "Call up - Brazilian National Team" e eu sabia o que era aquilo. Nem li o que veio depois do "Dear qualquer-nome-em-russo" e fui direto para o anexo. Estava lá o player, meu nome de novo, o lance do ponto alto da carreira, as máximas congratulações, o nome do diretor e o carimbo, tudo igualzinho. Os jogos seriam dali duas semanas, contra Senegal e Tunísia, na Inglaterra e na França. Alguns comentaristas disseram que eu podia ter tido mais oportunidades. Mas quando chegou o fim do ano, pendurei as chuteiras no meu trabalho e segui o plano de carreira original. No começo de 2026 me despedi dos companheiros na empresa e empunhei uma caneta para me aventurar na vida de cronista. Estava com os papéis na mesa e meia dúzia de ideias equivocadas na cabeça quando meu o luizhenrique@ notificou uma nova mensagem. Era ela, eram eles, era a glória sendo anunciada na forma de mais dois amistosos contra França e Croácia. Aos 45 - de idade e do segundo tempo - minha última chance chegou, em anexo. Os amistosos acabaram e aproveitei os últimos meses para fazer media training. Caso o chamado para a Copa finalmente chegasse, gostaria de estar pronto para conceder entrevistas com um vocabulário à altura dos meus colegas. Mas, eu não consigo falar "o professor" em russo, quanto mais "meus companheiros", "trazer alegria para o torcedor brasileiro", "dar o meu melhor em campo" e "respeitar o adversário". Então eu ficava praticando na frente do espelho para não dar vexame nas entrevistas na beira do gramado. Ainda mais depois que apareci na pré-lista da seleção. Luiz Henrique em ação pela seleção brasileira Imagem: RAFAEL RIBEIRO/CBF Continua após a publicidade No mês passado, saiu o álbum de figurinhas da Copa. E nas páginas 20 e 21, reservadas à seleção brasileira, aparecem os espaços dos jogadores ainda em branco e, no topo direito, número 12, lá estou, semi-convocado . Quem precisa de Ancelotti quando você tem a Panini? Desde aquele sábado, numa pré-temporada aqui em São Paulo, passo as tardes na portaria do condomínio oferecendo R$ 5 pela figurinha do Luiz Henrique a cada criança que cruza pela rua. Eu ando popular nas bancas da zona oeste. Ontem, fiquei a tarde toda numa pracinha trocando cromos, batendo bafo e escutando a vizinhança dizer que mereço a convocação. "O professor", eu disse para o Feijão, dono da banca aqui do bairro, e um grupo de adolescentes com seus álbuns em mãos, "sabe o que é melhor para o grupo. Eu só quero poder ajudar meus companheiros, respeitando o adversário sempre, vou dar o meu melhor em campo para contribuir com a seleção e trazer alegria para o torcedor. E se Deus quiser, conseguir esse título para nossa torcida maravilhosa". Eu estava pronto. Desde os primeiros minutos de hoje, 18 de maio, meu email estava aberto esperando um sinal do @cbf.com.br e seguia atualizando a página a cada três minutos com toques de ansiedade e desejo de glória, ajoelhado diante de uma parede preenchida com minhas figurinhas. O professor disse que a lista sairia às 5h da tarde. Às 16:59, sem email na caixa de entrada, sintonizei o radinho na programação esportiva, abri os sites de futebol no computador e liguei a TV à espera da minha consagração. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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