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Só para assinantes Assine UOL Opinião Entre o tango e a maresia: um sul-americano sem pátria na Copa do Mundo Juca Kfouri Colunista do UOL 24/07/2026 20h04 Deixe seu comentário brasil argentina peso real america latina américa do sul Imagem: Oleksii Liskonih/Getty Images/iStockphoto Resumo POR VALENTINO CABANILLAS KMENTT* Cheguei a Fortaleza com apenas onze meses de vida, engatinhando entre as malas de uma viagem que definiria o meu destino. Fui criado sob o sol do Ceará, aprendendo a andar nas calçadas quentes do Nordeste, me naturalizando no papel e na alma, construindo nesta terra as minhas memórias mais profundas, meus primeiros amigos, meus amores e toda a arquitetura da minha existência. Cresci habitando um território invisível, um entre-lugar de afetos e linguagens: navegava entre o castelhano falado dentro de casa e o português cantado nas ruas; entre o aroma do mate e o cheiro da maresia; entre o tango e o forró. Filho de pai brasileiro e mãe argentina, eu trazia no sangue duas geografias que só o futebol permitia separar. Durante décadas, movido por uma inconsciente necessidade de inclusão, busquei me fazer apenas cearense, empurrando a minha argentinidade para as sombras do subconsciente. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo Eu não sabia, mas nascia ali a minha vocação para a abolição das fronteiras. Eu sempre fui um utópico. Carrego o sonho teimoso, romântico e anarquista dos amantes da liberdade: a ilusão bonita de um mundo sem cercas nem alfândegas morais, onde a América Latina não é uma colcha de retalhos dividida por geopolíticos, mas uma pátria grande, dolorida e indivisível. Escrevo hoje porque uma dor transbordou. Escrevo do centro de uma dupla decepção. Sou metade argentino e metade brasileiro, e assisto aos dois povos que formam a minha própria carne se guerrearem de forma covarde nas redes virtuais. E o que é infinitamente pior: vejo pilares ideológicos que defendi a vida inteira desmoronarem sob o peso de uma máquina implacável de desinformação, ressentimento e ódio fabricado. No princípio, o futebol era uma linguagem secreta que nos permitia falar sem tradutores. O samba e o tango conversavam de chuteiras. O drible brasileiro e a garra argentina eram duas formas irmãs de desobedecer à gravidade e ao destino. Uma rivalidade entre irmãos que se olhavam no espelho e se reconheciam, mesmo quando rangiam os dentes. Nesta última Copa, a bola de certa forma voltou a sorrir em castelhano. Em sua campanha a Argentina não jogou apenas para vencer; jogou para lembrar quem era. Homens que pareciam carregar no peito a alma de um povo ferido pela economia e surrado pelas crises, correndo como se cada passe fosse o último pão da mesa, refundando a esperança em um canto só. Era o futebol em estado puro: pernas de vento, coração na boca e a teimosia de não se render jamais. Uma beleza de fazer chorar até os deuses neutros. Assistimos, pela última vez no grande palco do mundo, à dança sagrada de Lionel Messi. Ver um jogador que atingiu o que parecia inalcançável — um gênio absoluto que caminhana mesma altura mítica de Pelé e Diego — orquestrar sua última sinfonia foi um privilégio poético. Messi não corria apenas contra os adversários; corria contra o tempo, carregando nas costas a responsabilidade de dar alegria a uma nação inteira. Cada passo, cada passe, cada drible, cada gol, em espaço invisível, cada gesto de liderança era um ato de amor visceral à camisa, uma postura nobre, inspiradora e exemplar. Uma lição de união e entrega onde onze operários do futebol se transformaram em uma só alma. Continua após a publicidade Mas a beleza, em tempos de penúria, virou um pecado imperdoável. O ecossistema digital e midiático no Brasil, incapaz de encarar o próprio deserto de uma seleção brasileira apequenada e sem alma, preferiu a inveja. Nosso futebol atravessa uma seca profunda de títulos e de dignidade. Nossos jogadores transformaram-se em mercadorias etiquetadas, garotos de propaganda de casas de apostas obscuras,desconectados do povo e frequentes em manchetes fúteis. O torcedor brasileiro, traído por ídolos de plástico, olhou para o rival e viu a paixão e a poesia que gostaria de vestir. Incapaz de igualar a poesia no gramado, uma massa ressentida e a mídia mercantilizada decidiram incendiar o poeta. De repente, os argentinos viraram os vilões universais. Tudo virou "trapaça", "maldade" ou "favorecimento". A garra virou desonra; o brilho virou provocação. A hipocrisia desse tribunal de internet escancarou suas garras e sua ignorância histórica quando a Argentina avançou no torneio e enfrentou os gigantes do velho continente. Na semifinal contra a Inglaterra, assistiu-se no Brasil a um espetáculo de alinhamento colonial mimetizado de virtude. Nas ruas, nos bares e nas redes virtuais, orquestrou-se uma torcida apaixonada e ruidosa... pelos ingleses. A cada ataque britânico, a vizinhança vibrava; ao primeiro gol inglês, soltaram-se fogos de artifício. Para disfarçar a amargura e o recalque de torcer contra o rival continental, inventou-se a grande justificativa moralitária: "Torço para a Inglaterra porque os argentinos são um povo racista". Continua após a publicidade Que admirável, que trágica, que assustadora amnésia histórica. Em que sótão escuro os juízes do Twitter esconderam os seus livros de história escolar? O que foram os lordes e generais do Império Britânico senão os maiores e mais eficientes arquitetos do tráfico transatlântico de escravizados no planeta? O que foram os ingleses senão os saqueadores sistemáticos da Índia, da África e do Oriente Médio; os financiadores e articuladores da carnificina da Guerra do Paraguai — que dizimou a população masculina daquele povo irmão — e os manipuladores das dívidas soberanas da própria economia brasileira durante todo o século XIX? Para exercitar o ódio infantil ao irmão da pampa, com quem dividimos a água dos mesmos rios e a dor da mesma exploração, o brasileiro não hesitou em vestir a peruca do imperador colonizador europeu. Esqueceram que, diante dos velhos impérios que nos saquearam, deveríamos ser uma só voz: América do Sul, pátria de sangue retinto, ouro roubado, matéria-prima pilhada e memória ferida. Mais uma vez, a bola, o suor, a alma e Messi nos trouxe dignidade. Resultado final: Argentina 2, Inglaterra 1. Dois gols germinados dos pés de Lionel Messi — por Malvinas, por Diego Maradona, pela dignidade ferida do futebol sul-americano. O Brasil, incrédulo e humilhado na sua torcida imperial, dobrou a aposta no veneno: "Time corrupto", "bandidos", "Copa comprada". Toda a raça, a recusa em baixar a cabeça e o amor à camisa que o torcedor brasileiro desesperadamente sonhava em reencontrar no seu próprio país foram reduzidos a crime quando executados pelo vizinho. E o circo da incoerência atingiu o seu ponto culminante na final contra a Espanha. OS mesmos brasileiros que ergueram a bandeira do antirracismo para apedrejar o povo argentino torceram entusiasticamente e vestiram a camisa da Espanha — a mesma Espanha cujas arquibancadas de estádios de futebol chamavam o brasileiro Vinícius Júnior e tantos outros de macaco e atiravam bananas no gramado; a mesma Espanha dos navios negreiros, das encomiendas e do genocídio dos povos originários de toda a América Latina. Onde estava a coerência? Onde estava a sobriedade? Onde estava a dignidade antirracista? Não havia causa moral, nunca houve. Havia apenas ressentimento puro, cego e desordenado, pronto para abraçar qualquer colonizador de estimação, desde que ele derrotasse o irmão de continente. Continua após a publicidade É preciso ter honestidade intelectual: há racistas na Argentina, assim como os há em São Paulo, no Rio, em Madri e no mundo. A Argentina carrega suas contradições e sombras históricas que precisam ser debatidas com a profundidade que o tema exige. O horror, contudo, é a forma como a mídia brasileira instrumentalizou essa pauta. Assisti a uma enxurrada de acusações generalizadas que carimbavam a totalidade do povo argentino como essencialmente racista. Transformar os crimes ou providências lamentáveis de alguns na essência biológica ou cultural de uma nação inteira não é combate ao preconceito: é a definição exata de xenofobia. Se usássemos essa mesma régua desonesta e reducionista para julgar o Brasil — um país erguido e mantido pelo extermínio cotidiano da juventude negra —, que retrato sobraria do nosso próprio povo perante o tribunal da história? O rótulo do "racismo argentino" serviu como um salvo-conduto moral para que o brasileiro se autorizasse a odiar o seu vizinho, destilando um veneno disfarçado de virtude. O detalhe mais aterrorizante de toda essa arquitetura foi ver a própria esquerda brasileira embarcar em massa nessa tempestade. Pessoas, militantes, coletivos e veículos da mídia progressista, tomados por uma enxurrada de posts e matérias caça-cliques infladas pelo elemento patriótico, reproduziram sem qualquer filtro crítico um discurso abertamente xenófobo. A pauta do antirracismo foi sequestrada e reduzida a argumento de provocação de torcida. Ao agir assim, a esquerda perdeu a capacidade de ter pensamento próprio e passou a odiar com as mesmas palavras do seu inimigo ideológico, a extrema-direita. Ao abdicar da análise crítica para se alinhar ao linchamento virtual, o campo progressista cometeu o ato supremo de traição contra a memória da Patria Grande. Fico me perguntando: onde estão os grandes acadêmicos, os intelectuais e os jornalistas sérios que investigavam a fundo as contradições do mundo, distantes da propaganda e dos cliques maliciosos? Onde estão os artistas e poetas que buscavam na abstração de suas ideias um caminho desbravador para novas estéticas? Onde estão os músicos para que não nos deixem esquecer o que realmente carregamos no coração? Cadê a nossa esquerda? Cadê a esquerda que nos estimulava a criar, a inventar, a sonhar, a expandir o peito? Onde está o nosso novo Chico Science, pronto para desorganizar a mente estagnada e reinventar a nossa arte com lama e caos? O que sobrou hoje é apenas a busca medíocre por poder, seguidores e visibilidade barata. A esquerda virou uma barata tonta, perdida no próprio labirinto do espetáculo. Se a esquerda virou essa patrulha de censores, burocratas e gestores moralistas, que me cancelem de vez. Continua após a publicidade Para compreender essa decadência, é preciso ir à raiz: o capitalismo venceu ao se instalar dentro da nossa própria mente. Quando aceitamos nos tornar produtos de nós mesmos nas redes sociais, abrimos mão da nossa capacidade de escolha. Hoje, a vida é um investimento obstinado no valor individual de mercado. Vendemo-nos como mercadoria para obter valor ou para não perder espaço. Dentro dessa lógica, tornou-se lucrativo vender-se como "uma pessoa boa", "do bem" ou "socialista". Entregamo-nos à cadeia do capital para ostentar a máscara de uma justiça moralista. A luta deixou de ser pela igualdade real e passou a ser pela imposição de uma moralidade programada através de conteúdo raso. O veneno é o único combustível que realmente transborda nessa engrenagem. Cativar pelo ódio e pela raiva é o que gera o clique. O hater foi completamente normalizado, e a reflexão foi substituída pela reação imediata. O reacionarismo virou o status quo comportamental. Preferimos apontar culpados na praça pública digital a absorver o ódio do mundo, filtrá-lo na nossa consciência e transformá-lo na beleza que as pessoas merecem. Já não sabemos o que queremos; queremos apenas o que nossos dominadores programaram. Enquanto a amargura nos cegar, seguiremos como bots programáveis reproduzindo a violência e a asneira que nos impõem. Continua após a publicidade Combater a raiva, o ódio e a amargura é a nossa principal e mais urgente luta política — e ela começa dentro de nós. Quando formos capazes de vencer a amargura no próprio peito, poderemos olhar para o outro aceitando nossos erros e imperfeições. Do que importa a sua ideologia se a sua vaidade moral o cega? Do que importa o lado que você defende se a sua única arma é sempre a hipocrisia de um moralismo de fachada? Historicamente, a esquerda sempre foi o abraço morno aos desajustados, aos dissidentes, aos excluídos, aos poetas loucos, aos errantes sem caminho. Precisamos de gente de verdade: gente boa, gente errada, gente certa, gente perdida, gente imperfeita. O falso moralista sempre foi nosso inimigo histórico. No pedestal da moral e da hipocrisia ordinária. só cabem os generais, os executivos, os políticos corruptos, os influenciadores caça-cliques, os burocratas e as patrulhas autoritárias. Mas o povo é o que nos resta. Não importa a falha: nossa missão humana é lutar por uma segunda chance para todos. Quando as telas se apagam e o ruído da matilha cessa, vejo que a bola continua sabendo o que o mundo esqueceu: a única nacionalidade que realmente importa sobre a terra é a da beleza, da paixão, do afeto e da liberdade. Devemos ter a capacidade de transformar o ódio que nos impõem na beleza que as pessoas merecem. E enquanto houver um menino chutando um trapo no chão, a utopia de um mundo sem fronteiras continuará viva em nós. * Valentino Cabanillas Kmentt é jornalista e artista audiovisual. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Ídolo na Ítalia, Sandro Mazzola morre aos 83 anos Eleição já sofre cerco dos EUA. Resta saber alcance da mão peluda de Trump Gretchen defende novo nariz de Simone após críticas: ?Está lindo? 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