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Só para assinantes Assine UOL Opinião O futebol é um tempo dentro do tempo. Um bom livro, filme ou série, também Tony Marlon Colunista de Ecoa 24/06/2026 10h36 Deixe seu comentário 31.mai.26 - Torcedor brasileiro no Maracanã durante amistoso contra o Panamá Imagem: Wagner Meier/Getty Images Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× No metrô, na minha frente, três pessoas discutem sobre o que consideram o absurdo coletivo de quatro em quatro anos: a alienação do povo brasileiro em tempo de Copa do Mundo. Ganharam minha atenção. "É que a gente tem tanto problema para resolver, tanta coisa mais importante para fazer antes de ficar pensando em um jogo de bola". Foi quando a porta abriu, a estação chegou e elas foram para um caminho e eu para o outro. Não me esqueci daquele encontro. É curioso que todas as vezes que julgamos que uma coisa precisa ser melhorada na sociedade, a tendência é nos colocarmos fora dela. Estou falando de mim, inclusive. Dizer o povo brasileiro é feito a voz de quem narra, de alguém de fora, que não está envolvida, implicada, de alguém que não está misturado àquela história dizendo qual é o melhor rumo a ser seguido por eles, os outros. Existe um nós aqui e aquele lá, o povo brasileiro. Então, primeiro tem isso. Depois, vem a binariedade. A gente foi acostumada por uma visão de mundo que nos diz que as coisas são ou não são. Formados por e para um pensamento cartesiano. Ou, como estudam e escrevem Luiz Rufino e Luiz Antonio Simas: domesticados por um carrego colonial. É quando se manifesta um padrão estreito e rígido com nós mesmos e com o outro, que busca organizar a realidade a partir de sim ou não. Disso ou daquilo. Deste jeito ou de outro, escolha. A rede social faz isso com a gente o tempo todo. Sakamoto Jaques Wagner faz desserviço a Lula Nelson de Sá Chineses também têm sua CazéTV para ver a Copa José Saad Neto IA recria o gol mais bonito de Pelé marcado em 1959 José Fucs Será que Lula sobrevive à onda latina da direita? Acontece que a vida que a gente manobra na fila do banco, indo para a feira, acordando cedo para o trabalho não tem limites tão nítidos. A vida tem nuances e na parte do tempo, a gente vive dentro delas. Entre o branco e o preto, existem uma dezena de outros tons de cores. Suspender a realidade para encontrar os amigos por três horas para o jogo de hoje à noite não é, necessariamente, se suspender da realidade para sempre. É só mais um tempo dentro do tempo em que, juntos, a gente se faz como gente, se emociona, se diverte, se constrói e se transforma. E, transformado, depois retorna ao caminho para ser, mas ser diferente de antes. Sabe aquele filme que a gente não esquece? Ou uma viagem para a praia que você e seus melhores amigos fizeram, que tem muita memória boa? É algo parecido com aquela experiência, só que de outro jeito. Então, segundo tem isso. E por último tem os rituais. Rituais são tecnologias culturais que ajudam a produzir pertencimento. Dão forma ao tempo e profundidade à nossa experiência humana. Em outras palavras, a gente lembra dos dias de Natal na casa da nossa avó, aos 8 anos, porque aquilo nos marca afetivamente, constrói memórias. Nos lembra como pode ser bom, no caso das experiências positivas, repetir aqueles dias de novo e de novo, mesmo 70 anos depois. A gente não faz pelo costume, a gente faz para não largar a mão daquele dia. Para não largar a mão de como aquela criança, que éramos, se sentiu naquele dia, aos 8 anos. Se você perguntar a quem ama futebol o que estava fazendo no exato momento em que o Roberto Baggio perdeu aquele pênalti, na Copa do Mundo de 1994, ela te contará até a cor da roupa que usava, quem estava sentado do seu lado esquerdo do sofá. É verdade, a gente tem tanto problema para resolver, tanta coisa importante para fazer. Problemas que, de tão grandes, não conseguem ser resolvidos em 3 horas. Coisas que, de tão importantes, nem cabem neste tempo. Nem deveriam, já que são tão importantes assim. Porque, o que é importante atravessa a vida, não o instante. Então, acho que está tudo bem você poder fazer o caminho do meio. Continua após a publicidade Entre isso ou aquilo, escolher a encruzilhada. Ver um jogo aqui, outro ali, enquanto não esquece nada, nem ninguém pelo caminho. Este é o grande lance do jogo. Sem culpa para si mesma e para os outros. Para a gente ser saudável, a gente precisa ser em muitas direções. Em uma delas, a gente se reúne com os melhores amigos ainda hoje de noite e assiste à Copa. Ou não. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Tony Marlon por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Arnaldo: Ancelotti só põe Rayan se tiver descartado Luiz Henrique para Copa Bolsonaro disse que não podia ficar desarmado: 'Tinha 3 mulheres em casa' Reserva da Alemanha bate Messi, Mbappé e Haaland em ranking da Fifa na Copa Longe da TV, Cabeção de 'Malhação' cobra R$ 500 por vídeos a fãs Juca: Se precisar, Ancelotti pedirá a Neymar para ser salvador da pátria