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Opinião Futebol Vini Jr só usa o lado de fora do pé: e se a fraqueza for a arma? Antoine Morel Do UOL, em São Paulo* 05/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Vini Jr. faz jogada individual no segundo tempo contra o Japão, mas a bola bate na trave Imagem: Annegret Hilse/Reuters Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Passe forte de Rayan para a ponta. Vini Jr. domina e, no mesmo movimento com o lado de fora do pé direito, coloca a bola por baixo das pernas do defensor japonês. Cinco toques também com o lado de fora do pé direito e ele está dentro da área. Um balanço para cá, outro para lá, três marcadores fora do lance. O chute sai também com o lado de fora. Suzuki espalma, a bola toca a trave. E se ele tocasse de chapa? Seria o gol da Copa? Do ano? Essas dúvidas ficaram pairando no ar ao final do jogo. A resposta provável a essas perguntas é que o chute nem teria saído. Vale olhar no detalhe: o que faz um jogador de alto nível depender tanto de uma técnica. O futebol atual prefere jogadores universais. Academias formatadas por métricas de desempenho buscam formar atletas ambidestros, e o manual diz que um ponta-esquerda destro, como é o caso de Vini, ao chegar à linha de fundo, precisa cruzar ou de canhota ou virar o pé e corpo para dar com a parte de dentro do pé direito. Aline Sordili ChatGPT vê Brasil favorito, mas alerta para Haaland José Trajano Brasil fica em desvantagem no meio com Martinelli PVC Por que Martinelli deve ser titular contra a Noruega Michelle Prazeres Por que valorizamos mais remédios do que descanso Vini tem dependência quase absoluta do pé direito. E ainda mais do lado de fora. Na temporada europeia que terminou, em 2025/2026, o mapa de chutes mostra que 85 dos seus 101 saíram do pé direito — 84%, segundo o site FotMob. Dos 16 gols, um único veio da perna esquerda. A explicação para o suposto defeito de formação técnica virar recurso está na biomecânica. Ainda mais no lance do jogo contra o Japão, em Houston. Vini estava em velocidade alta — em outras vezes, ele já foi medido acima dos 35 km/h — com a bola dominada e a defesa japonesa em recuperação. Para chutar com a parte de dentro do pé direito, precisaria desacelerar, girar o quadril, abrir o ângulo do corpo para a direita e só então bater. O processo consome frações de segundo. É o tempo que o zagueiro usa para esticar a perna e o goleiro, para fechar o ângulo. Contra uma linha de cinco como a do Japão, esse tempo não existia. Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês A solução do camisa 7 foi transformar o lado de fora do pé direito em ferramenta principal de trabalho. Com ela, não gira o quadril nem freia a corrida. Estica um pouco mais a passada e bate com o exterior do pé, os "três dedos". A bola sai antes de o corpo denunciar a intenção, e o defensor, treinado para ler o movimento de quadril do atacante, reage tarde. Quando nem a trivela cabe, sobra o bico, outra finalização que dispensa armar a perna. As duas escolhas seguem a mesma lógica: velocidade de execução acima de tudo. A técnica tem um professor identificado, segundo procurei na internet. Em setembro de 2025, depois de abrir o placar de trivela na vitória do Real Madrid por 4 a 1 sobre o Levante — chute de três dedos, com curva, que ele classificou entre os mais bonitos da carreira —, Vini contou à Real Madrid TV de quem herdou o recurso. "Luka Modric? me ensinou a chutar assim. Sentimos falta dele", disse. O croata, provavelmente o melhor executor contemporâneo do passe de três dedos, sempre tratou o lado externo do pé como forma de cortar linhas defensivas, não como exibição. O aluno aprendeu. Depender tanto de um único recurso seria, em tese, uma fraqueza. Na prática, a previsibilidade só é problema quando o marcador consegue pará-la. O ex-atacante holandês Arjen Robben passou uma década recebendo na direita, cortando para a esquerda e chutando no ângulo. Todo mundo sabia o que ele ia fazer; quase ninguém impedia. Há, porém, uma diferença entre os dois casos. Robben aceitava o pedágio: cortava para o pé bom e pagava em previsibilidade. Vini eliminou o corte. O lado de fora do pé tirou da equação o tempo de armar o corpo. Continua após a publicidade O UOL conversou com integrantes do staff do atacante sobre a preferência por esse recurso. Eles veem que a questão se trata de decisões em campo tomadas em milímetros e milissegundos, mas que ainda assim Vini nunca deixará de fazer um gol por não usar uma parte do corpo. Lembram, inclusive, que gols importantíssimos do brasileiro em sua passagem pela Europa foram com o pé esquerdo. O que os manuais de formação chamariam de defeito virou, no caso de Vinícius Júnior, uma característica de jogo. Em Houston, por centímetros, a trave adiou a demonstração definitiva, a consagração. A perna esquerda segue quase de apoio. Até agora, ninguém sentiu falta. A ver se neste domingo, contra Noruega, continuará assim. * colaborou Paulo Vinícius Coelho, em Nova Jersey (EUA) Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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