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Futebol Restrições de EUA e Fifa prejudicam Irã e ferem regulamento da Copa Guilherme Padin e Rodrigo Mattos Do UOL, em São Paulo e Rio de Janeiro 10/06/2026 05h30 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Seleção do Irã desembarca no México para disputar a Copa do Mundo Imagem: Divulgação/Federação Iraniana de Futebol A saga do Irã para assegurar a participação plena na Copa do Mundo de maneira equilibrada às outras seleções parece não terminar. Sob as tensões da guerra entre o país asiático e os Estados Unidos, que sediam 75% dos jogos do Mundial, o tratamento à delegação iraniana é diferente do recebido pelas outras 44 outras seleções visitantes - e desequilibrado, segundo especialistas ouvidos pelo UOL . Embora seja uma das primeiras equipes a se classificar à Copa - em 25 de março de 2025 -, a seleção iraniana obteve apenas parte de seus vistos em 5 de junho, ou seja, a uma semana do início da Copa. Juca Kfouri A capa de jornal que os Estados Unidos merecem Ricardo Kotscho Agora réu julga juiz, e Vorcaro inocenta Moraes Sakamoto Aberta temporada eleitoral da melancia no pescoço João Paulo Charleaux O esporte como arma nas mãos de Trump Porém, segundo acusou a embaixada do Irã na Turquia, os vistos foram negados a diversos membros da delegação, incluindo o presidente da federação, Mehdi Taj. Até o momento, Estados Unidos e Fifa não se posicionaram diretamente sobre as acusações. A entidade, quando procurada, diz não comentar o caso. E, por parte dos EUA, a resposta mais próxima ao tema insinua que os iranianos tentam infiltrar terroristas na delegação: "Os vistos necessários para o Irã competir na Copa do Mundo, incluindo atletas e o staff de apoio necessário, foram liberados. Não vamos permitir ao time iraniano abusar do sistema para infiltrar terroristas nos Estados Unidos sob falsos pretextos", escreveu o Departamento de Estado norte-americano ao UOL . O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, já havia se posicionado anteriormente no mesmo sentido: "Não permitiremos que incluam em sua delegação pessoas que sabemos não terem nada a ver com o esporte e que possuam vínculos com a Guarda Revolucionária ou algo dessa natureza." Por causa do contexto de tensão geopolítica, a delegação do Irã, que inicialmente ficaria sediada em Tucson, no Arizona, agora tem base em Tijuana, no México, mesmo com seus três jogos da fase de grupos acontecendo nos EUA - dois em Los Angeles e um em Seattle. O caso virou palco também para uma guerra de versões entre Teerã e Washington, uma vez que o embaixador do Irã no México havia dito que a seleção persa seria obrigada a entrar e sair dos EUA no mesmo dia de suas partidas. A informação foi negada pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA . Continua após a publicidade Regulamento não é cumprido à risca, diz advogado Ao analisar o regulamento da Copa do Mundo de 2026 e o Human Rights Framework, documento com instruções sobre direitos humanos emitido pela Fifa há dois anos, Rodrigo Marrubia, advogado especializado em direito desportivo, observa o não cumprimento dos preceitos de Fair Play impostos pela própria Fifa - "o regulamento da Copa não está sendo cumprido à risca em relação ao Irã", afirma. Segundo ele, a seleção iraniana foi privada de direitos expressamente garantidos pelo regulamento da Copa, e, além disso, os compromissos de não-discriminação e participação igualitária previstos no Human Rights Framework foram descumpridos. Marrubia cita principalmente o artigo 3.5 do regulamento da Copa, que prevê a responsabilidade da Fifa na organização, hospedagem e realização da Copa: Ao escolher os EUA como anfitrião sem obter garantias vinculantes de acesso igualitário a todas as delegações, comenta o advogado, inclusive às de países em conflito com o governo americano, "a Fifa incorreu em omissão institucional que permitiu a concretização dos prejuízos descritos". Além disso, com a aprovação da mudança de base do Irã para Tijuana, fundamentando-se no artigo 46 (sobre circunstâncias especiais), Marrubia considera que há um reconhecimento tácito por parte da Fifa acerca de uma circunstância especial no caso iraniano. Continua após a publicidade Porém, a mudança "não foi acompanhada de qualquer medida compensatória formal que restabelecesse a isonomia de preparação". Já o artigo 47, que delega à Fifa a decisão sobre matérias não previstas, prossegue Marrubia, foi utilizado de forma insuficiente: "A Fifa reconheceu o problema sem resolvê-lo estruturalmente. Essa lacuna expõe uma falha sistêmica do marco regulatório, que pressupõe a cooperação dos países anfitriões sem criação de mecanismos de aplicação de sanções e/ou reparação para casos de descumprimento." O advogado ainda cita o artigo 17.1, a respeito do direito de disputa de amistosos no país anfitrião. Como os últimos amistosos do Irã ocorreram na Turquia, a seleção também foi privada desse direito. "A responsabilidade institucional da entidade, nos termos do Art. 3.5 do regulamento, não pode ser afastada pelo fato de que o agente direto das restrições foi o governo americano. O caso iraniano expõe, de forma inédita, a ausência de mecanismos efetivos de proteção das delegações participantes contra atos de governos anfitriões, uma lacuna que os próprios documentos da Fifa não contemplam nem remediam", conclui. Por fim, Rodrigo Marrubia aponta que o regulamento da Fifa não prevê de maneira explícita um mecanismo de proteção contra atos de um governo anfitrião a uma delegação: "Uma lacuna que o caso iraniano expõe com nitidez, e que dificilmente será ignorada em futuras edições do torneio." Continua após a publicidade A reportagem procurou a Fifa para comentar as ponderações acerca do regulamento da Copa. A entidade não respondeu aos questionamentos. Para Carlos Ambiel, professor de direito da Faap e doutor pela USP, é complexo argumentar a respeito de um descumprimento do regulamento por parte da Fifa, pois a discussão trata-se de uma imposição do governo dos EUA e suas forças de segurança e imigração ao Irã. Porém, Ambiel avalia que as limitações de ingresso à delegação "evidentemente podem causar prejuízos desportivos para os iranianos que, na melhor das hipóteses, já sofrerão com uma logística de ida e retorno aos jogos bem mais complexa e desgastante que as outras seleções". Tratamento desequilibrado Embora os EUA tenham a prerrogativa de controlar suas fronteiras e negar vistos de quem chega ao país quando identificam riscos, como ponderam especialistas em relações internacionais ouvidos pelo UOL , há uma ressalva essencial quando uma nação é anfitriã de competições desse porte: assegurar que as delegações tenham condições equilibradas. "A concessão tardia de vistos e a imposição de restrições específicas a integrantes de uma delegação geram insegurança e comprometem um dos princípios fundamentais dos megaeventos esportivos: a garantia de acesso e participação em condições de igualdade de direitos para atletas, dirigentes, jornalistas e torcedores", afirma Ricardo Uvinha, professor titular da USP e especialista em turismo esportivo. Continua após a publicidade Quando autoridades associam uma delegação a potenciais ameaças, como fez o Departamento de Estado dos EUA, comenta Uvinha, o debate ultrapassa a esfera administrativa e fomenta questionamentos sobre preconceito, estigmatização e tratamento desigual entre nações: "Isso pode afetar não apenas a imagem do megaevento esportivo, mas também a percepção internacional sobre a hospitalidade, o intercâmbio cultural e a mobilidade turística no país-sede." Alexandre Coelho, professor da Faap e doutor em Relações Internacionais pela USP, faz apontamentos no mesmo sentido, e complementa: "O ponto delicado é que, no caso do Irã, qualquer decisão consular ocorre dentro de uma relação bilateral extremamente tensionada. Por isso, mesmo uma decisão juridicamente amparada pode produzir efeitos políticos, diplomáticos e simbólicos importantes", completa Coelho. A insinuação dos EUA de que o Irã vai 'infiltrar terrorista' é a parte mais problemática do trato dos EUA no caso, na avaliação da professora e antropóloga Francirosy Campos, da USP. "Essa fala transforma iranianos em suspeitos coletivos, não em indivíduos, reforça estigmas contra povos do Oriente Médio e associa uma identidade nacional à ameaça. Países-sede assumem também a obrigação política de garantir participação justa das seleções. Negar ou atrasar vistos a uma delegação pode gerar pressão diplomática e tratamento desigual", afirma a professora especialista em islamismo. Continua após a publicidade Situação atípica A saga vivida pela delegação iraniana foge aos padrões da Copa do Mundo. Nesta edição, por exemplo, ocorreram duas situações similares: a África do Sul, que, devido a questões burocráticas, teve a liberação de parte dos vistos atrasada, mas ainda assim viajou antes do Irã, e o caso de um único atleta da Suíça. No caso suíço, o episódio envolveu apenas o atacante Breel Embolo, que não embarcou com a seleção por ter sido condenado em 2023 por uma briga na qual se envolveu na Basileia, em 2018. Porém, resolvido o imbróglio, o titular também teve o visto liberado e pôde viajar aos EUA. Em ambos os casos, porém, os problemas foram resolvidos e as duas seleções já se encontram em suas sedes. Com o Irã, porém, a situação ainda não foi plenamente resolvida. O que vive a delegação iraniana em 2026 é atípico para o país: nas últimas Copas em que participou, o Irã foi a primeira delegação a chegar à Rússia , em 2018, e a segunda a chegar ao Brasil, em 2014. Continua após a publicidade Na Alemanha, em 2006, e no Qatar, em 2022, mesmo com o país sob protestos, a presença da seleção persa nos Mundiais se deu também sem maiores intercorrências. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Brasileiras jogam mal e perdem com recorde de público Marta dispara contra arbitragem após derrota do Brasil: 'Uma palhaçada' Filha perde a mãe no dia do casamento em SP: 'Era o amor da minha vida' 5 apostas de GO, MG, MT, PR e SP acertam Lotofácil e levam R$ 341 mil cada A capa de jornal que os Estados Unidos merecem