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Os esportes radicais são conhecidos por suas manobras ousadas e também pelo visível ambiente de união e respeito entre os competidores.
Essa questão ficou ainda mais evidente com os X-Games ou quando o skate entrou nas Olimpíadas, em Tóquio, e milhões de pessoas no mundo viram os participantes comemorando as medalhas de seus adversários e lamentando suas quedas.
Na patinação, esse senso de comunidade não é diferente. A brasileira Nicoly Machado foi protagonista de uma cena marcante em maio deste ano, durante a Fise Blading Cup, na França. A catarinense de 17 anos liderava a final quando arriscou uma manobra e acabou fraturando a fíbula. Então, suas rivais abriram mão de tentar as manobras finais e deixaram o título com Nicoly.
"Eu estava no local de primeiros socorros quando todas as meninas chegaram com o prêmio para me entregar. Eu não entendia nada. Elas me explicaram que abriram mão do best trick para que a pontuação justa prevalecesse. Foi um misto de dor física e emoção que eu nunca vou esquecer.”
“Agora já estou muito melhor, 100% recuperada. Foi muito tempo de fisioterapia e uma cirurgia também. Esse campeonato me trouxe muito aprendizado e vai ser um momento muito especial que eu vou levar para sempre na minha carreira”, contou Nicoly Machado em entrevista exclusiva para a ESPN .
Com o susto, o aprendizado e a conquista, Nicoly conseguiu se recuperar a tempo para a disputa do World Skate Games de Assunção 2026, realizado na capital do Paraguai de 2 a 18 de outubro, organizado pela federação internacional de esportes sobre rodinhas, como o skate, patins, patinete e afins.
A brasileria compete nos Jogos Mundiais de Skate na disciplina de roller freestyle, na prova do street, cujas semifinais serão realizadas nesta quarta-feira (7) e a grande final nesta quinta-feira (8) a partir das 18h (de Brasília).
“A expectativa está muito alta e eu estou muito animada. Vai ser um grande prazer representar o nosso país.“
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Apesar da pouca idade, Nicoly Machado já foi campeã mundial de patinação no evento bowl e vice-campeã no street no World Skate Games de 2024 em Roma. O sucesso e o sorriso no rosto de Nicoly se tornam ainda mais impressionantes pelo motivo que ela começou no esporte.
“Eu comecei com 11 anos porque eu tinha muita crise de ansiedade na minha infância. A gente foi procurar um médico para me ajudar nessa situação e ele me recomendou praticar um esporte, porque eu era muito nova para tomar medicamentos.”
“Eu lembrei que tinha um patins guardado dentro de casa que eu não usava fazia um bom tempo. Comecei a patinar dentro de casa e, como a gente já está na era da internet, comecei a pesquisar tudo sobre patinação no YouTube.”
Os patins se tornaram um remédio natural muito efetivo para melhorar a vida da jovem catarinense.
“Com certeza foi a melhor decisão da minha vida, porque transformou completamente a minha vida. Sou muito menos ansiosa, então foi algo que me ajudou muito no meu crescimento pessoal.”
O que começou com um tratamento para as crises de ansiedade logo se tornou uma paixão e uma profissão.
“Tudo o que construí ao longo do tempo foi muito importante para eu estar no nível em que estou agora. Todo o trabalho que fiz ao longo dos anos é o que estou colhendo agora. Sempre gostei muito de me dedicar às manobras. Eu focava muito nos meus treinos, tanto que ficava a noite inteira em um treino só, fazendo aquela manobra que eu queria acertar.”
“Eu sempre fui muito destemida na patinação, sempre me dediquei ao máximo, e por isso que eu falo que foi algo natural. Eu não fiquei pensando que queria trabalhar com aquilo, mas como me dediquei tanto àquilo, naturalmente se tornou o meu trabalho. Me dediquei às redes sociais mostrando os meus treinos de forma muito autêntica e orgânica. Tudo o que produzo nas redes sociais é consequência do que eu já vivo.”
Com mais de 500 mil seguidores* no Instagram, Nicoly também lançou sua marca de roupas e segue mostrando sua rotina na patinação, também inspirada pelo seu treinador Felipe Zambardino.
“Todo esse flow de aparecer nas redes sociais também foi uma grande inspiração através do meu técnico Zumba. Ali eu senti vontade de compartilhar também as minhas produções, os meus conteúdos. Pouco a pouco, fui postando os meus treinos. As redes sociais são uma consequência da minha vida.”
Zambardino é um dos grandes nomes da patinação brasileira e encontrou nas redes sociais o canal para divulgar seu trabalho e o esporte.
“Eu sou profissional desde 2003 e gravava pelo Brasil todo. Pensa na logística e todo o corre que tinha que acontecer. Como sou patinador profissional há muitos anos, estou aí surfando nessa quarta onda de plataformas e de maneiras de divulgar o nosso esporte. Sem dúvida nenhuma, nesse exato momento é o melhor momento. Você grava com o seu próprio celular uma dica de um minuto, posta na internet e isso pode impactar milhões de pessoas. Então, com certeza, eu posso afirmar que um cara como eu, já veterano de 42 anos, tenho minha carreira internacional baseada nas plataformas e nas redes sociais.”
O presente da patinação e dos esportes radicais passa pelas redes sociais e algumas modalidades "irmãs" também cresceram muito nos últimos anos com a entrada nas Olimpíadas. O skate e o surfe, por exemplo, entraram no programa olímpico nos Jogos de Tóquio e estão garantidos na edição de Los Angeles em 2028.
O técnico e patinador Felipe Zambardino acredita que a patinação pode entrar nos Jogos Olímpicos de verão no futuro pelo trabalho realizado pela federação internacional.
“Todos os trâmites que têm que ser feitos para o nosso esporte estar na Olimpíada já estão feitos. Tem número de adeptos e os eventos em todos os continentes para dar oportunidade para todas as seleções. Isso já está estruturado. Então, a próxima Olimpíada, em Los Angeles, é onde o nosso esporte nasceu. É o nosso berço, mas não vai entrar já na próxima Olimpíada. Vamos ter algumas apresentações. Então, nós vamos ter um case muito bom para que um aceite no futuro.”
Dentro do guarda-chuva da World Skate, apenas o skate está no programa olímpico de verão. Para ser um esporte disputado nos Jogos Olímpicos, a modalidade precisa ser aprovada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que no começo do ano publicou uma nova agenda chamada “Preparada para o futuro” ( Fit for the Future , em inglês), que coloca uma avaliação baseada na disciplina em si (não na federação internacional) como critério para a adesão do evento nos Jogos.
Nesta nova agenda, o comitê organizador pode propor no máximo quatro disciplinas adicionais por edição de Jogos do verão, que serão avaliadas de acordo com o apelo global, custo e complexidade da operação e representação de atletas. A decisão final será do COI, do comitê organizador dos Jogos e das federações internacionais.
Mesmo que a chance de entrar nas Olimpíadas de Brisbane em 2032 seja pequena, Nicoly demonstra muito entusiasmo ao falar da evolução da modalidade.
“Quando comecei a patinar, com 11 anos de idade, o esporte não estava tão grande como está sendo agora. Quando comecei a patinar, não tinha tantas crianças como está tendo agora. O nosso esporte está tendo uma grande renovação agora com as crianças. Eu posso dizer que eu patinava com três ou quatro crianças e depois de um tempo elas pararam, e aí eu fiquei sozinha.
Mas agora está tendo muitas crianças, muitos jovens. Por exemplo, crianças de seis anos de idade fazendo manobras muito difíceis. E aí, com certeza, a gente vai ter um grande impacto.
Agora, eu me sinto muito feliz e honrada de saber que o nosso esporte está chegando nesse nível das Olimpíadas.”
Enquanto a patinação não chega nos Jogos Olímpicos, Nicoly vai representar o Brasil nas finais dos Jogos Mundiais de Skate patins freestyle , no evento street, e espera trazer mais uma medalha para casa e deixar a família ainda mais orgulhosa.
“Toda a minha família me incentiva muito e eles já estão acostumados com as quedas, com os acertos e com as derrotas. Meu pai sempre me incentivou demais a fazer esportes radicais. Minha mãe é mais comedida e um pouco mais preocupada. Então, quando eu tentava uma manobra e acabava caindo, ela ficava preocupada comigo. Porém, com o tempo, depois de tantos anos patinando, ela já se acostumou.”
Com seis anos de carreira e um grande futuro pela frente, a família e os amigos de Nicoly já estão acostumados com as conquistas, as quedas e as medalhas.