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Só para assinantes Assine UOL Reportagem Esporte 'Futebol virou a coisa que une o país', diz embaixador brasileiro no Haiti Julio Gomes Colunista do UOL, em Porto Príncipe (Haiti) 19/06/2026 10h09 Deixe seu comentário Torcedores acompanham jogo contra a Escócia na Copa do Mundo, em Porto Príncipe, no Haiti, Imagem: Clarens SIFFROY / AFP Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× "A União Faz a Força", diz o lema da bandeira do Haiti na sala da Embaixada do Brasil em Porto Príncipe. "Irônico que esteja justamente a palavra 'união' na bandeira, não é mesmo?", observa Luis Guilherme Nascentes da Silva, 52 anos, um diplomata carioca que há duas décadas estuda o pais mais pobre das Américas. No Haiti, a união nunca fez a força. Em 222 anos de independência, o país sempre esteve dividido e alternando entre déspotas e líderes que sucumbiram rapidamente às armas ou traições. Luís Guilherme foi aprovado há um ano para assumir, pela primeira vez na carreira diplomática, o posto de embaixador. Veio logo para um país que está fervendo e conflagrado em violência. A mulher ficou no México. E o dia a dia não tem nenhum glamour em uma capital sitiada e com o aeroporto internacional fechado. José Fucs Não é de esquerda? Frases de Lula que o desmentem Juca Kfouri O 4º jogo entre as seleções do Brasil e do Haiti Casagrande Um gol do Haiti dá lampejo de paz para povo sofrido Aline Sordili Copa do Mundo de 2026 leva o futebol à era da IA É uma vida limitada. Não temos liberdade para nos deslocar para qualquer lugar ou em qualquer horário. Luis Guilherme Nascentes da Silva, embaixador do Brasil no Haiti Luis Guilherme Nascentes da Silva (ao centro), embaixador do Brasil no Haiti Imagem: Divulgação / Expo CAMACOL 2024 A violência só dá uma trégua em tempos de Copa do Mundo e o futebol meio que virou a única coisa que une uma sociedade despedaçada. "Representa esse espírito de orgulho nacional e também uma possibilidade de ascensão social para muitas pessoas. Mas, acima de tudo, simboliza a ideia de união. Para vencer, é preciso jogar em equipe. Essa é uma metáfora muito interessante para os desafios do Haiti." Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês Veja os trechos da entrevista completa dada ao UOL : Pergunta: O Brasil liderou por muitos anos a missão de paz da ONU no Haiti. Ela acabou, mas hoje o Brasil continua sendo, de alguma forma, o principal país envolvido na tentativa de melhorar a vida da sociedade haitiana? O Brasil foi líder na área militar durante o período da Missão de Paz e também um importante parceiro na área de desenvolvimento e cooperação com o Haiti. Continuamos sendo parceiros, mas somos um entre vários. Hoje o Brasil não é o maior contribuinte em termos de cooperação, mas continua sendo um país pelo qual os haitianos têm um carinho especial — e nós também temos um carinho especial pelo Haiti. Continua após a publicidade Pergunta: É possível explicar o que acontece hoje no Haiti? Quem briga com quem? É muito difícil entender o Haiti. É um país complexo e muita gente tende a simplificar a situação. O Haiti é resultado de muitas décadas de disfunções internas e de pressões externas. Hoje vemos uma espécie de federação de gangues que atua contra a sociedade e contra a polícia. Ao mesmo tempo, essas gangues também brigam entre si. Elas têm objetivos essencialmente criminosos, mas também existem relações históricas com grupos políticos e empresários. É uma situação muito complexa, que não pode ser simplificada. Pergunta: Porto Príncipe é uma cidade sitiada hoje? Sim. É uma cidade em que boa parte do espaço público está fora do alcance das pessoas. Precisamos tomar cuidados redobrados. Contamos com a proteção dos fuzileiros navais brasileiros, que acompanham os representantes da embaixada nos deslocamentos. Isso nos permite circular com relativa segurança, mas é uma vida limitada. Não temos liberdade para nos deslocar para qualquer lugar ou em qualquer horário. É uma experiência muito diferente daquilo a que estamos acostumados. Pergunta: Essa realidade afeta apenas os estrangeiros ou também a população local? A população local é muito afetada pela violência. As pessoas impõem restrições a si mesmas, evitam determinados trajetos e horários, principalmente depois do pôr do sol. Toda a cidade sofre com essa situação, sobretudo os haitianos. Nós somos uma minoria que vive numa parte relativamente segura da cidade, enquanto a grande maioria da população está exposta aos riscos da violência diariamente. Continua após a publicidade Pergunta: Dentro desse cenário de caos dos últimos anos, a Copa do Mundo mudou um pouco o humor do país? Com certeza. O futebol é um vetor de transformação social e também um tema que une toda a sociedade. Ele transcende a dimensão esportiva e se tornou um elemento de união nacional, acima das diferenças sociais e políticas. É uma experiência nova para o Haiti, que não disputava uma Copa do Mundo havia 52 anos. Além disso, o Haiti foi o primeiro país a se classificar para uma Copa sem disputar nenhuma partida em seu próprio território, o que demonstra ainda mais o orgulho da população. O futebol é um elemento de união nacional e também um instrumento em favor da paz e de valores compartilhados por todos os haitianos. Pergunta: Pensando nas crianças e nas futuras gerações, o futebol pode ser um fio de esperança para um país que precisará se reconstruir? Acho que o futebol representa esse espírito de orgulho nacional e também uma possibilidade de ascensão social para muitas pessoas. Mas, acima de tudo, simboliza a ideia de união. Para vencer, é preciso jogar em equipe. Essa é uma metáfora muito interessante para os desafios do Haiti. Os haitianos se identificam com isso. Todos superam dificuldades, torcem juntos, sofrem juntos. Esse sentimento reflete a esperança de um país melhor. Pergunta: Os haitianos sempre tiveram uma relação muito forte com a seleção brasileira. Muitos cresceram torcendo pelo Brasil. Como eles tratam os brasileiros que vivem aqui agora que as duas seleções disputam a Copa? O que falam do jogo? Acho que o Haiti está dividido, e esse é um sentimento novo. Como faz 52 anos que o país não disputava uma Copa do Mundo, normalmente a maioria dos haitianos torcia pelo Brasil desde o início do torneio. A impressão que tenho é que eles querem ver o Haiti avançar, mas também desejam que o Brasil vá o mais longe possível. E, se fosse possível, gostariam até de ver uma final entre Brasil e Haiti. O sentimento é de querer ganhar juntos. Continua após a publicidade Pergunta: O Centro Cultural Brasil virou uma espécie de centro cultural mundial em Porto Príncipe? Por causa da violência, várias localidades antes abertas ao público acabaram ficando fora do alcance das pessoas. O Centro Cultural se tornou um dos poucos lugares que ainda podem ser frequentados por brasileiros, haitianos, outras embaixadas e representantes de organizações internacionais. Por isso, ele acabou se convertendo numa casa de todos. É um espaço onde as pessoas se encontram e promovem a cultura. Virou, de certa forma, um grande reservatório da cultura. Reportagem Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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