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Só para assinantes Assine UOL Opinião Na lágrima de uma criança ainda resta a esperança do futebol brasileiro Juca Kfouri Colunista do UOL 08/07/2026 17h00 Deixe seu comentário Marquinhos se lamenta após Brasil x Noruega, jogo da Copa do Mundo Imagem: Tom Weller/picture alliance via Getty Images Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× POR PEDRO ATHAYDE* A Copa do Mundo ainda não acabou. Mas talvez, como evento esportivo capaz de mobilizar paixões para além do espetáculo, ela tenha morrido há bastante tempo. Para nós brasileiros a competição também se encerrou precocemente, ao menos em relação às nossas expectativas, alimentadas por remanescências de um passado que insistimos em buscar no presente bem menos alvissareiro. Enquanto um professor e pesquisador da área da Educação Física, sempre tive claro que o futebol não poderia ser um objeto de estudo, pois adotá-lo nessa condição exigiria um estranhamento necessário ao fazer científico, e que provavelmente acabaria convertendo minha relação com o futebol em algo mais distante, cético e desacreditado. Nesse sentido, optei pela alienação consciente para manter alguma passionalidade em relação àquilo que talvez um dia tenha sido uma paixão nacional. Juca Kfouri O VAR seletivo e a proteção à Argentina PVC Fifa abriu a porta do inferno com o caso Balogun João Paulo Charleaux Flávio calcula errado, e estratégia sai pela culatra José Paulo Kupfer FMI está mais otimista com o Brasil que os brasileiros Sempre gostei de praticar e assistir futebol, se na juventude predominava a aproximação pela experiência prática, agora, já passando dos quarenta anos é cada vez mais comum me circunscrever à dimensão da fruição passiva. Herdei esse gosto pelo futebol não de meus pais, mas da experiência vivida nas ruas do meu bairro, algo cada vez mais raro hoje em dia. Lembro com saudades das partidas de golzinho, onde o par de chinelo era o gol, quem estava de próximo era o gandula, a rua o campo ou a quadra e a mãe era o árbitro que colocava fim à partida. Sem forçar a barra e em um contexto bem diferente, busquei - e ainda busco - passar a meus filhos esse gosto pelo esporte em geral e pelo futebol em particular. Parece que tenho tido algum sucesso e para essa medição a Copa foi luminar. Embora tenha cumprido minha promessa de não transformar o futebol em objeto de pesquisa, há fenômenos impossíveis de ignorar. A crescente mercantilização e espetacularização do esporte acabaram contaminando também a relação afetiva que muitos de nós construímos com o futebol. Aos poucos, aquilo que parecia paixão passou a se parecer cada vez mais com um produto. Nesse sentido, volto à Copa, pois me percebi nesta edição de 2026 muito menos envolvido do que em edições anteriores. A Copa do Catar em 2022, pela sua artificialidade e as várias denúncias que envolveram a preparação daquele país para sediar o evento, já tinha me mantido menos próximo, em 2026 esse afastamento tornou-se ainda mais evidente. O que me faz estar distante de algo que sempre me contagiou? Seria a falta de qualidade de nossa seleção? A falta de simbiose e de uma vinculação simbólica entre nossos jogadores (europeizados) e o povo brasileiro? O "sequestro da amarelinha", desta vez não pela FIFA e CBF, mas pelo extremismo de direita? O excesso de mercantilização agudizado pelo universo das bets? Talvez cada um desses fatores tenha contribuído para erguer um muro invisível entre mim e a seleção brasileira. E esse afastamento condicionou uma leitura cética da participação de nossa seleção. Sempre que entrava numa conversa sobre a Copa - e elas passaram a ser recorrentes nos últimos dias - afirmava com convicção "para mim será uma enorme surpresa se o Brasil for campeão". Embora, lá no fundo ainda reservasse um pequeno espaço para lembrar que o futebol é prolífico em nos proporcionar surpresas a despeito de todas as interferências externas que sofre. E assim foi até o último jogo do Brasil um misto de ceticismo e distanciamento, acompanhado por uma faísca de esperança. Infelizmente, estava correto e o Brasil não tinha uma equipe para ser campeã. Longe disso, não tínhamos time sequer para vencer a Noruega. Mas o apito final do jogo e a consumação da derrota e de nossa eliminação reservou a mim uma grata surpresa. Ao olhar para o lado, vi meu filho entristecido e com lágrimas nos olhos. Como poderia um pai se alegrar com o choro de um filho? Mas o que aquele choro me mostrou é que ainda há esperança para o futebol brasileiro. Enquanto ainda tivermos crianças capazes de se emocionar com a seleção, ainda há esperança de voltarmos a ser o que já fomos um dia. O país do futebol, o país onde se praticava um futebol reconhecido não apenas como esporte, mas também como expressão artística. Sim, estou sendo otimista demais. Tal mudança exigiria uma revolução que está longe de acontecer. Seria necessária uma profunda transformação: rever a formação de jogadores, reconstruir as instituições que dirigem o futebol brasileiro e recolocar o esporte acima dos interesses puramente mercantis. Continua após a publicidade Mas, enquanto ainda tivermos crianças que se emocionam com esse jogo e com a seleção brasileira, resta uma teimosa esperança de que tudo isso mude algum dia. Obrigado, meu filho, por me mostrar, com um gesto tão genuíno, que há afetos que escapam a qualquer tentativa de racionalização. Talvez seja justamente neles que ainda resida a esperança do futebol brasileiro. * Pedro Athayde é diretor da Faculdade de Educação da UnB. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Deolane escolheu dividir cela por sofrer de síndrome do pânico, diz MP-SP Pressão de Trump põe Fifa em encruzilhada e pode ajudar Claus na Copa Carioca, Tarcísio critica Marina e Tebet por se candidatarem em SP Irã relata explosões no sul do país; EUA confirmam ataque O VAR seletivo e a proteção à Argentina