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Com show de Bad Bunny no intervalo, Seahawks vencem o Super Bowl Sim, é verdade: Bad Bunny foi o claro vencedor do Super Bowl LX. O campeão oficial foi o Seattle Seahawks, mas um jogo que só tomou corpo no último quarto acabou ofuscado por um show energético, contagiante e com uma mensagem direta: a América não se resume aos Estados Unidos. Ver as bandeiras de 35 países (e mais alguns territórios dependentes) das três Américas entrando juntas em campo, com alegria e imposição, foi empoderador. Feito o aparte: esta ainda é uma página de esportes. Você vai ler análises muito mais detalhadas do show nas editorias de cultura. Aqui, o assunto é o jogo no Levi’s Stadium no domingo (8). Um jogo que, apesar dos pesares, teve jogadas empolgantes, duelo tático e, principalmente, uma lição parecida à do show do intervalo, que precisa ser lembrada de tempos em tempos: o futebol americano é muito mais do que um duelo de quarterbacks. 1 de 6
Defensores dos Seahawks comemoram fumble após sack em Drake Maye — Foto: Scott Strazzante/San Francisco Chronicle via Getty Images Defensores dos Seahawks comemoram fumble após sack em Drake Maye — Foto: Scott Strazzante/San Francisco Chronicle via Getty Images O mito do quarterback Olha, aqui eu faço uma mea-culpa da minha classe. A imprensa trabalha com narrativas — calcadas em fatos, dados, apuração — porque são elas que ajudam o público a se conectar e entender o que acontece. E, em um mundo em que o culto à personalidade é parte do nosso comportamento de massa, colocar o foco no quarterback ao falar de futebol americano é um movimento natural. É dele a responsabilidade de comandar o ataque, decifrar defesas em tempo real e mover a bola até a endzone. São os “generais” na lógica militarista do esporte. 2 de 6
Quarterback Drake Maye no Super Bowl LX, entre Patriots e Seahawks — Foto: Carlos Barria/Reuters Quarterback Drake Maye no Super Bowl LX, entre Patriots e Seahawks — Foto: Carlos Barria/Reuters Mas há um porém. Diferente de outros esportes coletivos, nos quais uma estrela pode jogar o tempo inteiro e participar tanto do ataque quanto da defesa, o quarterback atua em apenas uma fase do futebol americano: o ataque. E, mesmo ali, depende — muito — dos outros 10 jogadores de sua unidade. Nem o melhor quarterback do mundo rende sem boas opções de passe, sem um jogo terrestre complementar, sem leitura tática da comissão técnica que force o erro adversário e, sobretudo, sem uma linha ofensiva que ofereça proteção razoável . Seattle Seahawks 29 x 13 New England Patriots | Melhores Momentos | Super Bowl LX | NFL Como Seattle venceu Tudo isso para lembrar uma verdade incômoda: não é essencial ter um quarterback de elite para vencer um Super Bowl, e uma má atuação no jogo do ano não transforma ninguém em lixo ou farsante. Por praticamente todas as métricas, Drake Maye , do New England Patriots, foi um quarterback melhor em 2025 do que Sam Darnold , do Seattle Seahawks. Ainda assim, Darnold fez uma pós-temporada melhor executando o básico — e saiu campeão graças a um esforço coletivo que incluiu ataque, defesa e times especiais. Nada disso desmerece Darnold. No Super Bowl, ele foi seguro, não entregou a bola, leu com precisão o que a defesa lhe mostrava e conectou um belo passe sob pressão para touchdown. Foi gigantesco também na final de conferência contra o Los Angeles Rams, com números de quarterback de elite. 3 de 6
Kenneth Walker III, dos Seahawks, em ação contra os Patriots no Super Bowl LX — Foto: Mark J. Rebilas/Reuters Kenneth Walker III, dos Seahawks, em ação contra os Patriots no Super Bowl LX — Foto: Mark J. Rebilas/Reuters Mas ele não teria essas chances sem uma defesa que, no domingo, limitou os Patriots a menos de 80 jardas e zero pontos nos três primeiros quartos — e que, durante a temporada, cedeu apenas 17,2 pontos por jogo . Nem sem um jogo corrido que alternou com sucesso corridas pelos flancos e pelo meio, rendendo a Kenneth Walker III 135 jardas terrestres e o prêmio de MVP da partida. Muito menos sem os chutes certeiros do kicker Jason Myers , que bateu o recorde de field goals convertidos em um Super Bowl (cinco acertos) , e sem o punter Michael Dickson , que repetidamente colocou New England com as costas na própria endzone. Território, relógio e o tabuleiro invisível Futebol americano é um jogo de conquista de território. É necessário chegar ao fim do campo adversário para marcar o touchdown, ou se aproximar o suficiente para chutar o field goal. Posição de campo e tempo de posse importam tanto quanto pontuar. Foi exatamente o que defesa, times especiais e jogo terrestre entregaram a Seattle: New England começou campanhas em posições difíceis, teve dificuldade para avançar e tampouco impediu que os Seahawks chegassem próximo o suficiente para, no mínimo, somar três pontos. 4 de 6
Myers, kicker dos Seahawks, acertou cinco field goals no Super Bowl LX — Foto: Carlos Barria/Reuters Myers, kicker dos Seahawks, acertou cinco field goals no Super Bowl LX — Foto: Carlos Barria/Reuters Por que Maye falhou — e o que isso não diz sobre ele Não vou passar pano: Drake Maye jogou mal . Ficou confuso diante de uma defesa famosa por disfarçar suas intenções pré-snap, segurou demais a bola, errou passes e usou pouco uma das suas melhores armas: a corrida. Seis sacks. Três turnovers. Isso conta uma história. Além disso, se falamos em três fases do jogo, é justo dizer: a defesa dos Patriots não foi mal. Limitou Seattle a field goals e manteve o placar em duas posses de diferença até o último quarto. E os times especiais frearam Rasheed Shaheed , um dos melhores retornadores da liga. O ponto central, porém, é outro: proteção . Maye foi pressionado 19 vezes e atingido 11 . Mesmo sem blitz, só enviando quatro jogadores ou menos atrás do quarterback, Seattle gerou pressão em 48% dos dropbacks. Os recebedores tiveram dificuldade para criar separação; quando Maye acertou a mão, DeMario Douglas deixou ao menos duas bolas recebíveis caírem. Stefon Diggs apareceu menos no jogo do que sua namorada, Cardi B , no show do intervalo — e ela era apenas figurante . No chão, Rhamondre Stevenson e TreVeyon Henderson somaram 42 jardas em 13 corridas (3,2 por tentativa), um retrato da dificuldade da linha ofensiva contra uma defesa talhada para travar o jogo terrestre. Não há quarterback que sobreviva. 5 de 6
Drake Maye sofre tackle de defensor dos Seahawks no Super Bowl — Foto: Jevone Moore/Icon Sportswire via Getty Images Drake Maye sofre tackle de defensor dos Seahawks no Super Bowl — Foto: Jevone Moore/Icon Sportswire via Getty Images Lições do Super Bowl LX Foi apenas a segunda temporada de Maye na NFL. Ele tem caminho para evoluir, compensar deficiências da linha, ler melhor defesas e atacar seus pontos fracos. E é verdade sim que ter um grande quarterback é a forma mais sustentável de vencer de maneira consistente — que o digam o Kansas City Chiefs de Patrick Mahomes , o Buffalo Bills de Josh Allen e tantos outros times do presente e passado. 6 de 6
Sam Darnold, quarterback dos Seahawks, após conquistar o Super Bowl LX — Foto: AFP Sam Darnold, quarterback dos Seahawks, após conquistar o Super Bowl LX — Foto: AFP Mas que o título do Seattle Seahawks sirva para novatos e veteranos do esporte entenderem: não subestimem as demais peças do jogo. Se o show do intervalo lembrou que a América é maior do que os Estados Unidos , o Super Bowl lembrou que o futebol americano é maior do que o quarterback . O jogo tem três fases e cada elenco conta com 53 jogadores . Como já diz o ditado: uma andorinha só não faz verão .