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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A estúpida ideia de que o futebol vai acabar sem as bets Alicia Klein Colunista do UOL 18/09/2026 05h30 Deixe seu comentário 0:00 / 0:00 Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× O fim do futebol brasileiro. Este é o sutil título de uma nota publicada na noite de ontem (17) pela Federação Paulista de Futebol, clubes de São Paulo, do Rio de Janeiro, Sindicato dos Atletas e a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol, sobre a possível proibição das bets pelo governo por meio de uma medida provisória. A notícia foi reportada aqui no UOL . As entidades, que incluem gigantes como Palmeiras, Corinthians e Flamengo, reconhecem que "os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos. Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável." O tom, porém, é claro: sem bet, sem futebol. "A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência." A jogatina ilegal precisa ser combatida e os mais vulneráveis protegidos. E só. Deixem nossos patrocinadores em paz. O argumento seria cômico, não fosse trágico. O imenso futebol brasileiro — incluindo mídia, influenciadores e afins — sobreviveu por décadas sem o investimento das casas de apostas. A ideia de que a modalidade sustentada por dezenas de milhões de torcedores falecerá com o fim de uma categoria de patrocínio tem tanto lastro na realidade quanto a ideia de que a Fórmula 1 acabaria sem a propaganda de cigarros. Sem falar na ironia de ver os grandes gestores afirmando que secar uma parte de uma fonte de receita vai arruinar o negócio todo. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo Sim, os ricos do futebol vão ficar menos ricos. Que lástima. Atletas talvez precisem abrir mão de receber milhões por mês. Treinadores talvez deixem de receber polpudas multas rescisórias. Arenas talvez precisem voltar a ser estádios. Uniformes talvez precisem ficar limitados a duas versões. Dirigentes talvez não possam viajar tanto para se inspirar nos colegas europeus. Alguns clubes talvez caiam de divisão, outros talvez deixem de existir. A realidade será outra, sem a irresponsabilidade orçamentária e os números inflados de um mercado cheio de irregularidades. Parece um preço razoável a se pagar para preservar a vida dos brasileiros. As casas de apostas tiraram R$ 62,5 bilhões das nossas famílias em 2025, ou 0,68% da renda disponível no país. De acordo com o Ministério da Fazenda, brasileiros perderam R$ 37 bilhões no ano passado, montante que foi diretamente revertido em receita bruta das casas de apostas. Estima-se que o risco de suicídio entre pessoas que apostam seja 15 vezes maior, especialmente quando associado ao endividamento. Há uma relação direta entre problemas com bets e violência doméstica. Estamos falando de uma crise de saúde pública, que vai além de dinheiro. Tudo isso em um país no qual os jogos de azar são proibidos. Não pode bingo. Não pode cassino. Mas pode tigrinho no celular e divulgar odd em transmissão. Nada justifica a liberação das apostas. Nada que não sejam os interesses financeiros de uma minoria poderosa. Não à toa, a nota termina desviando a atenção desta minoria, em caixa alta, para reforçar o terrorismo barato: "O TORCEDOR NÃO PODE PAGAR ESSA CONTA. SE ACABAR COM O MERCADO REGULADO, AS APOSTAS NÃO ACABAM. O FUTEBOL É QUEM ACABA." Este grupo poderoso escolheu vender drogas para sustentar o próprio estilo de vida. Agora, está tentando convencer o público de que não há alternativa e que, na verdade, é tudo para o nosso bem. Continua após a publicidade Se este futebol só pode existir em cima do endividamento, da desgraça e até da morte dos brasileiros, inclusive de seus torcedores, é melhor que acabe mesmo. Que descanse em paz. Siga Alicia Klein no Instagram Se inscreva no canal de Alicia Klein e Milly Lacombe no YouTube Assine a newsletter da Alicia Klein Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. 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