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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O dia em que vimos Messi falar com Deus Milly Lacombe Colunista do UOL 08/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Lionel Messi se emociona após vitória da Argentina contra o Egito, na Copa do Mundo Imagem: Ian MacNicol via Getty Images Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Na coluna da minha amiga Luiza Oliveira , que estava dentro do estádio vendo Messi jogar contra o Egito, ela observou, com muita sensibilidade, que o camisa 10, atordoado com a própria atuação, olhou para o céu e, em seguida, "fez o estádio chorar". Quando li o texto de Luiza fui arrebatada para o que sentimos naquele jogo, mas foi só hoje pela manhã, indo comprar queijos na lojinha da cidade, que escutei de Jésus, meu amigo, corintiano e proprietário, o que havia acontecido: "A gente viu o Messi falar com Deus", ele me disse. O nome do proprietário é esse mesmo, o que me levou a considerar ainda mais o que me dizia. Acho que todos os que estavam assistindo ao jogo ficaram com essa sensação. Entramos, juntas e juntos, na dimensão do sagrado. Não importa muito se você acredita ou não na figura de um Deus, o que importa é reconhecer que há dias em que o mistério nos captura e esses são os momentos em que não podemos mais elaborar pensamentos; estamos entregues a sentir, a viver, a habitar o momento presente, que é onde Deus mora. Messi olhou para o céu e, seja lá o que escutou depois disso, voltou à terra e virou milagrosamente um jogo perdido. O que leva um homem a ter a capacidade de se sintonizar com a frequência dos deuses? Que jornada maluca é essa que trouxe Messi até aqui? Juca Kfouri O VAR seletivo e a proteção à Argentina PVC Fifa abriu a porta do inferno com o caso Balogun João Paulo Charleaux Flávio calcula errado, e estratégia sai pela culatra José Paulo Kupfer FMI está mais otimista com o Brasil que os brasileiros Messi passou a maior parte da vida profissional sentindo-se em dívida com seu país. Por algum tempo, por bastante tempo, parecia que o garoto que saiu da Argentina no começo da adolescência jamais levaria sua pátria a um título mundial. Quando trocou Rosario por Barcelona, aos 13 anos, Messi deixou para trás parte da construção de uma idolatria nacional. O garoto teve a chance de se naturalizar espanhol, mas recusou. Queria jogar pela Argentina, e fez isso - sem grandes e relevantes títulos - até 2021. Os anos passaram e Messi se transformou em um gênio da bola e ídolo máximo do time da Catalunha. Quanto mais se associava a Barcelona, mais perdia vínculo com o lugar onde nasceu. Quatro Copas do Mundo passariam e quatro fracassos ele acumularia em seu nome. Dividido entre Espanha e Argentina, Messi achou que não seria jamais capaz de realizar por seu país o que Maradona havia feito anos antes. Em 2016, depois de um vice campeonato na Copa América, avisou que estava se aposentado do time nacional. Magoado, criticado por sua torcida, avaliou que a pressão era grande demais e que precisaria deixar para trás o sonho de um título mundial. Messi não sabia que o melhor estava por vir. Não sabia que precisaria amadurecer para dar ao povo argentino o sonho de uma terceira estrela. Não sabia que precisaria sair de Barcelona para poder focar na seleção. Mas alguma coisa o fez desistir de desistir e ele voltou. Quantas derrotas fazem parte de uma vitória? Quantos fracassos se escondem dentro de uma grande conquista? Atletas de ponta sabem responder a essa pergunta. Depois do vice em 2014, na Copa realizada no Brasil, a Argentina chegou à Russia (2018) como uma das favoritas. E foi eliminada pela França. Na época, muitos acharam que Messi, outra vez, desistiria. Só que esse seria o ano em que o projeto de Lionel Scaloni começaria, e o camisa 10, ao lado de outro Lionel, renasceria. Continua após a publicidade Em 2021, um ano antes da Copa no Qatar, o craque trocaria Barcelona por Paris, protagonizando uma das despedidas mais comoventes da história do futebol. Saiu adorado, idolatrado e no colo da massa. Sua ida para o PSG inauguraria uma nova e imponente fase com a seleção - o oposto do que viveria o amigo Neymar. Durante a pandemia, com gosto de melancolia, veio uma Copa América. Parecia pouco, mas talvez Messi tenha entendido o título, seu primeiro com a seleção principal, como um aviso. Desistiu de vez de desistir da seleção e foi para o Qatar em 2022. A partir daí, nada seria como antes. Por que Messi precisou sair da Espanha para se reconciliar com a Argentina? Sair de Barcelona tirou dele alguma responsabilidade que o fez voar pela pátria? O PSG de Messi não foi um time histórico, mas o Messi do PSG foi aquele que fez o caminho de volta para casa. Seria Messi o último romântico do futebol, aquele capaz de se entregar a uma paixão por vez e nada mais? O PSG e ele nunca viveram um grande amor, como foi com o Barça. Viveram um romance de verão enquanto Messi flertava com a Argentina e voltava a sonhar. A Copa do Qatar foi a da redenção de Messi com a camisa argentina. Depois de quatro fracassos, o êxtase, a glória, a idolatria inconteste. Liderou o time em uma campanha heróica e, contra a França, levantou a taça. Em 2023, se mudou para Miami e parecia estar satisfeito com o que havia conquistado. Mas, outra vez, quis renascer. No meio do caminho mostrou um lado pouco conhecido: sua face profana. Foi beijar os pés de Donald Trump, um dos líderes mais perversos, cruéis, autoritários e totalitários que já existiram. A gente que lute para lidar com essas contradições. Se Messi sabe falar com Deus, ele também sabe se curvar ao diabo. Continua após a publicidade Na Copa dos Estados Unidos, de forma apoteótica, o camisa 10 está comandando vitórias milagrosas, correndo como um menino, acabando com jogos motivado apenas pela paixão a uma nação. O pranto ao final do jogo contra o Egito, quando chutou a fronteira do impossível para a Lua, durou mais de 15 minutos. Ele não precisaria fazer o que está fazendo. É sua sexta Copa do Mundo, 39 anos recém completados, já considerado um entre três maiores da história, vida resolvida, família para sempre financeiramente cuidada. O que leva Messi a jogar como está jogando? O que leva ele a se entregar nesses termos? A recusar uma eliminação? A correr mesmo sem pernas, sem forças, sem pulmões? Só Messi pode responder. O que estamos vendo acontecer não cabe em palavras. Tentar compreender com adjetivos ou números nos fará fracassar. Estamos na dimensão do sagrado e aqui dentro nada contém lógica. Ou, melhor colocado: a lógica aqui é a do afeto e nada mais. Damas e Caballeros, é de mi agrado informarles que estamos diante do último romântico do futebol. Canceriano, emotivo, apaixonado, monogâmico e em linha direta com Deus. O que falta ainda acontecer? Saberemos em breve. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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