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Os tempos são estranhos. A vitória passou a ser exigência máxima. Queremos o Hexa. Não falamos em resgatar nossa cultura em campo. Falamos em trazer o hexa. Até o experiente Ancelotti caiu nessa. Todas as conversas giram em torno de vencer. Numa sociedade que se divide entre vencedores e perdedores, e que nomeia o perdedor como "loser" em qualquer aspecto da vida, essas são as regras. O Flamengo, do alto de seu equilíbrio econômico e de sua potência de popularidade, agora joga para estrangular os menores. Nenhuma noção de coletividade ficará de pé. O tecido social foi rasgado e engolido pelo neoliberalismo. Tchau, SUS, Previdência, CLT. Quem se esforça, consegue. Quem não se esforça, padece. Do mesmo jeito que o bilionário não se fez sozinho, mas amparado em um tecido social, o Flamengo não se fez sozinho. Existe uma sociedade em volta e o Flamengo não habita um mundo suspenso. Estamos todos nesse lugar, e nos afetamos a todo o instante. O projeto é dessensibilizar tudo o que existe. Gaza vive nesse lugar da dessensibilização. Não nos importamos, então eles seguirão operando nas mesas bases. Os próximos seremos nós mesmos. Cada um a seu tempo. Uma sociedade atomizada, individualizada, gananciosa, arrogante, desapaixonada, dividida, separada. E chegamos a Yuri Alberto e ao seu erro infantil. Que ideia absolutamente inacreditável cavar diante de Rossi. Tirou com a cara de todas e de todos os que estavam diante dos monitores, ou no estádio, torcendo pelo Corinthians. Mas Yuri Alberto optou por dizer "eu errei" da forma mais humilde. E, aos prantos, pediu desculpas. O que queremos dos outros? Talvez esse tipo de postura. Erraremos. É o que nos torna humanos. Erramos mais do que acertamos. E só podemos pedir perdão se compreendermos todas as dimensões dos erros que cometemos. O truque é que só podemos compreendê-las se nos enxergarmos em relação. Yuri cavou porque, se fizesse, sairia bem na foto. Mas a torcida não se importa com a estética: quer a bola na rede. O camisa 9 só compreendeu o que fez quando se implicou de forma relacional olhando no olho da torcida e vendo o sentimento que havia causado. Por sua vez, a torcida não escolheu vaiá-lo, o que sempre abre caminhos para o reencontro. E o reencontro se deu depois de alguns minutos, com o gol, o pedido de desculpas e o choro sincero. Yuri Alberto recebeu uma lição importante. E nos deu outra. O resultado foi a derrota porque o Corinthians é um time em ruínas e o Flamengo é o melhor do Brasil. Absolutamente normal. Eu fico com o pranto. Foi o momento mais bonito e humano da rodada.