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Veja a análise do Grupo B da Copa do Mundo 2026 Se o plano desse certo, teriam sido executados muito além dos oito mil meninos e homens bósnios-muçulmanos que estavam em Srebrenica em julho de 1995. Se o plano desse certo, os pais da geração que está em campo representando o país pela segunda vez em uma Copa do Mundo não conheceriam a adolescência. Se o plano desse certo, Elmir Bajraktarevic, pai de Esmir Bajraktarevic, autor do pênalti que classificou a Bósnia contra a Itália na partida decisiva das Eliminatórias , estaria em uma vala comum. Mas não deu, apesar de todos os sobreviventes terem perdido alguém. Esmir Bajraktarevic nasceu 10 anos depois, em Appleton, Wisconsin, nos Estados Unidos, e não precisou percorrer quilômetros na mata do país para fugir do massacre orquestrado por forças sérvias. Ele sabe que um avô, dois tios e diversos parentes não tiveram a mesma sorte. O Massacre de Srebrenica fez parte da Guerra da Bósnia, que matou cerca de 100 mil pessoas e deslocou dois milhões — quase metade da população da época. O conflito de 1992 a 1995 era entre bósnios-muçulmanos (44% da população do país), bósnios-sérvios-ortodoxos (32%) e bósnios-croatas-católicos (17%), sendo os sérvios os principais autores das agressões. Os pais de Bajraktarevic conseguiram fugir da guerra e do massacre. Primeiro, para a Suíça e, em 2001, para os Estados Unidos, por meio de um programa do governo que recebia refugiados. Foi lá, em 2005, que o camisa 20 da Bósnia nasceu. Amante de futebol desde pequeno por influência do pai e dos irmãos, o meia tem vídeo quando criança marcando um gol com a camisa de Dzeko, ídolo e, agora, colega de seleção. Mas a decisão de ser bósnio não foi simples. + Calendário da Copa do Mundo 2026: veja datas e horários dos jogos + Simulador da Copa: veja os critérios e faça previsões Itália cai para a Bósnia e fica fora da Copa pela terceira vez seguida As origens no bairro Cria de Appleton, cidade de Wisconsin de cerca de 75 mil pessoas (quase o mesmo tamanho de Ouro Preto), não era fácil para o menino americano de ascedência bósnia chegar ao futebol profissional. Os times da MLS mais próximos de casa eram o Minnesota United e o Chicago Fire, que ficavam a três horas de carro. Esmir chegou a ir a Chicago várias vezes jogar como convidado no time de base, mas que isso fizesse parte do dia a dia era inviável. Até que enfrentou Liam Wascou em um dos muitos jogos de ligas locais que participou. O pai de Liam chegou a jogar futebol na Universidade Marquette e teve a experiência de pessoas com muito talento não conseguirem seguir no futebol por dificuldades financeiras. Ele não queria isso para o menino que acabou virando o melhor amigo do filho, cujos pais se alternavam nos turnos de 12 horas em que um ficava com as crianças (Esmir tem um irmão e uma irmã) enquanto o outro trabalhava. — Ele é um cara incrível. Nós o consideramos como um dos nossos filhos. Não achei que fosse diferente do que faríamos pelos nossos próprios filhos. Se fôssemos comprar sapatos para os nossos filhos, compraríamos sapatos para o Esmir. Consideramos os Bajraktarevic como nossa família e eles nos consideram da mesma forma. Eles são pessoas maravilhosas — disse Kevin, pai de Liam. — Sinceramente, ainda não sei por que fizeram isso. É uma verdadeira bênção tê-los na minha vida. Até hoje, converso com eles todos os dias. Liam continua sendo meu melhor amigo. Ainda falo com toda a família. Eles são quase como uma segunda família para mim. Sou muito grato por tudo que me deram — contou o jogador. Ambos os relatos foram feitos ao site americano "The Blazing Musquet", especializado em cobrir o futebol da região da Nova Inglaterra (nordeste dos Estados Unidos). Foi justamente lá onde Esmir Bajraktarevic surgiu para o futebol. As viagens com Liam e os pais para Milwaukee três vezes por semana resultaram em um período de testes com o New England Revolutions. Aos 16 anos ele deixou a casa dos pais e se tornou o primeiro jogador de fora da região a morar em uma das residências estudantis do clube. Com 17, se tornou jogador da base e cinco meses depois do aniversário, estreou na MLS. 1 de 2
Bajraktarevic cumprimenta Dzeko na estreia pela Bósnia — Foto: Reprodução/Instagram Bajraktarevic cumprimenta Dzeko na estreia pela Bósnia — Foto: Reprodução/Instagram Ascensão e recusa à seleção dos Estados Unidos O garoto começou a ter mais espaço na temporada seguinte, em 2023, quando marcou o primeiro gol pela equipe em 16 jogos. Em 2024, assumiu a titularidade no New England, marcou quatro gols e deu quatro assistências em 37 jogos e recebeu a primeira convocação para a seleção dos Estados Unidos. Esmir já havia sido chamado para a base americana, mas a primeira vez pela equipe principal foi em um amistoso contra a Eslovênia. Bajraktarevic sempre mostrou carinho pela terra onde nasceu e que recebeu os pais refugiados e, inicialmente, aceitou o convite para defender o país. — Nasci aqui, cresci aqui. O inglês provavelmente é minha primeira língua. Estou cercada por americanos e todos os meus amigos são americanos, então obviamente é ótimo crescer aqui e sou muito grato por isso. Obviamente, minha família construiu uma nova vida aqui e tudo mais, então tenho muito orgulho de ser americano, assim como bósnio — mas também não negava a identidade bósnia, já que estava prestes a receber o passaporte do país, tanto que dava indicativos da escolha que faria. — Ser bósnio é obviamente uma parte enorme de quem eu sou. Meu nome é Esmir Bajraktarevic, então é isso que eu sou. Quando as pessoas me perguntam de onde eu sou, eu digo, obviamente, que sou bósnio. Então, isso é algo que faz parte de mim. Eu cresci em uma família bósnia. Falo bósnio todos os dias com meus pais. É uma parte enorme de quem eu sou. É meu sangue, são minhas raízes. Então, tenho muito orgulho de ser de lá. Bósnia como seleção e PSV como time 2 de 2
Esmir Bajraktarevic converteu o pênalti que classificou a Bósnia para a Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Matteo Ciambelli/File Photo Esmir Bajraktarevic converteu o pênalti que classificou a Bósnia para a Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Matteo Ciambelli/File Photo O destaque no New England Revolutions fez o canhoto chamar a atenção do PSV, tradicional time da Holanda. Ao mesmo tempo, a Bósnia o convidava para jogar pelos "Dragões", como é conhecida a seleção. Se atuou em janeiro pela seleção principal americana, em setembro ele vestiu a camisa do país de seus antepassados e foi uma das boas notícias na estreia, já que deu uma assistência para Dzeko no primeiro toque na bola, apesar da derrota para a Holanda por 5 a 2, na Liga das Nações. Na primeira temporada pelo PSV, jogou apenas cinco vezes no time principal e nove no time B, onde marcou um gol, mas terminou com o título holandês. Em 2025/2026, deslanchou de vez. Pelo clube, foram sete gols e quatro assistências nos 36 jogos que resultaram no bicampeonato nacional. Na seleção, marcou pela primeira vez ao fazer o gol da virada no confronto direto com a Romênia, na penúltima rodada das Eliminatórias. Depois disso, só balançou as redes mais uma vez: virando o rosto na cobrança de pênalti que resultou na construção deste perfil. Segundos antes de isso acontecer, um membro da comissão técnica rezava com o Santo Rosário dos ortodoxos, um jogador cristão fazia o sinal da cruz e os muçulmanos rezavam ajoelhados. Juntos, como antes da guerra. No detalhe, o bósnio Bajraktarevic vira a cara ao cobrar o pênalti decisivo Agenda da Bósnia na Copa do Mundo 1ª rodada: Canadá x Bósnia, 12 de junho, às 16h, no Toronto Field 2ª rodada: Suíça x Bósnia, 18 de junho, às 16h, em Los Angeles 3ª rodada: Bósnia x Catar, 24 de junho, às 16h, no Seattle Field