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Rafael Lopes comenta vitória de Lewis Hamilton no GP de Barcelona-Catalunha de Fórmula 1 Quanto custa um sonho? Para crianças que almejam fazer carreira na F1 e seguir os passos de ídolos como Lewis Hamilton e Max Verstappen, as cifras não são pequenas: podem beirar 6 milhões de libras, equivalente a até R$ 43 milhões . Por isso, os multicampeões não pouparam as críticas a esse cenário, endossados pelo colega de grid Esteban Ocon. 1 de 6
Max Verstappen e Lewis Hamilton no GP do Canadá da F1 2026 — Foto: Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto via Getty Images Max Verstappen e Lewis Hamilton no GP do Canadá da F1 2026 — Foto: Marcel van Dorst/EYE4IMAGES/NurPhoto via Getty Images - Não dediquei tempo para analisar isso a fundo, porque, na minha opinião, é algo que está sempre indo na direção errada. Não há prestação de contas por parte das pessoas que administram esses esportes. Precisa haver alguma maneira de tornar isso acessível, é ridículo: conheço alguém que tem um filho de oito anos e que gasta mais de um milhão de dólares por ano - disse Hamilton, acrescentando: - Quando comecei, meu pai gastou 20 mil libras no primeiro ano, e para isso foi preciso hipotecar a casa de novo e estourar o limite dos cartões de crédito. Hoje em dia é altamente improvável, se não impossível, que alguém de origem humilde consiga chegar a um nível em que possa competir com quem está gastando 1 milhão. Isso não deveria ser permitido. Poucos pilotos entendem, como Hamilton, os custos desse sonho. Pai do heptacampeão da Ferrari, Anthony Hamilton chegou a trabalhar simultaneamente em três empregos - incluindo lavador de louças e técnico em T.I - para manter o filho no kart. 2 de 6
Lewis Hamilton capacete vermelho no kart — Foto: Reprodução/Redes sociais Lewis Hamilton capacete vermelho no kart — Foto: Reprodução/Redes sociais Lewis estudou em escolas públicas e morou com o pai em um conjunto habitacional. Antes do apoio da McLaren, que viu no jovem inglês um futuro promissor na F1, ele competiu em karts usados e tinha o próprio genitor como mecânico. Em um levantamento feito pela britânica BBC em abril deste ano, o custo para uma criança competir no kart dos oito aos 13 anos beira 390 mil libras, equivalente a R$ 2,6 milhões. E, como o próprio Hamilton aponta, os valores só crescem enquanto a criança evolui no esporte: - À medida que você avança pelas outras categorias, fica cada vez mais caro. Em vez de quem tem mais talento se destacar, são as famílias com mais dinheiro que criam oportunidades para os jovens privilegiados. Infelizmente, no curto prazo, é isso que você vai ver nas próximas décadas. Depende da FIA (Federação Internacional do Automobilismo) e da Fórmula 1: elas precisam, de fato, fazer essas mudanças. 3 de 6
Aos 10 anos, Hamilton conquistou o primeiro título no kart e continuou acumulando troféus no ano seguinte — Foto: Karting Magazine Aos 10 anos, Hamilton conquistou o primeiro título no kart e continuou acumulando troféus no ano seguinte — Foto: Karting Magazine Uma temporada de estreia nos monopostos, com a Fórmula 4, pode exigir 520 mil libras do piloto. Cosiderando a Fórmula Regional Europeia (FRECA) como o passo seguinte, um campeonato completo pode custar um milhão de libras. Na Fórmula 3, os valores variam entre 1,3 e 1,6 milhão de libras e, na Fórmula 2, último degrau antes da F1, entre 2 e 2,3 milhões de libras. Ao todo, as contas chegam a até 5,8 milhões de libras, equivalente a R$ 43 milhões. E, caso os pilotos precisem de mais uma temporada nas respectivas categorias, os valores sobem - não é incomum que cheguem a 10 milhões de libras, mais de R$ 70 milhões. - Todos aprendemos muito no kart, o problema é que os custos estão disparando. As pessoas estão pagando de 10 a 12 mil por uma volta na categoria mini. É uma loucura. Isso acaba limitando talentos reais que não têm apoio financeiro. Por isso que acho importante explorar outras opções; já vejo muitas crianças que ainda andam de kart, mas também correm em simuladores e estão aprendendo a pilotar carros de F4 ou de GT. Com a precisão dos simuladores, você já pode estar dez passos à frente em termos de preparação antes mesmo de entrar em um carro de Fórmula - sugeriu Verstappen, que é dono de uma equipe de corridas virtuais: a Verstappen.com Racing/Team Verstappen. 4 de 6
Max Verstappen no kart, em 2012 — Foto: CRG Team Max Verstappen no kart, em 2012 — Foto: CRG Team Hoje, as Academias de Pilotos financiadas pelas equipes ganharam cada vez mais relevância no cenário. A Ferrari, por exemplo, apoia o brasileiro Rafael Câmara - que hoje está na Fórmula 2. O próprio Verstappen, filho do ex-F1 Jos Verstappen, também teve suporte da Academia da Red Bull. Ainda assim, as barreiras financeiras ainda são um problema no esporte a motor e ganham ainda mais peso ao se considerar fatores sociais, geográficos e étnicos, motivo pelos quais nos Estados Unidos, a NASCAR e a IndyCar lançaram programas de diversidade para pilotos e funcionários das equipes (em 2004 e 2020, respectivamente). Outro piloto do grid da F1 que veio de uma família da classe trabalhadora foi Esteban Ocon. O pai do francês era mecânico, e para manter o filho no kart, vendeu a casa em que viviam; eles passaram a morar em um motorhome. 5 de 6
Esteban Ocon durante o GP de Miami de F1 — Foto: Bradley Collyer/PA Images via Getty Images Esteban Ocon durante o GP de Miami de F1 — Foto: Bradley Collyer/PA Images via Getty Images Apesar das conquistas no kart, ele ficou sem condições de financiar a promoção para monopostos, até ser alcançado pela Mercedes - cujo apoio fez dele campeão da GP3 Series, antecessora da Fórmula 3, em 2015. - Se eu tivesse que recomeçar minha carreira, não estaria aqui, considerando o preço que uma corrida na categoria mini (kart) custa hoje em dia. É uma loucura o quanto isso é caro. Talvez 70% de simulador e 30% de pilotagem real seja um caminho a seguir, mas é preciso que os jovens pilotos tenham acesso a carros de verdade a um preço acessível - declarou Ocon. 6 de 6
Max Verstappen, filho do ex-F1 Jos Verstappen, andava de kart ainda na infância — Foto: Arquivo pessoal Max Verstappen, filho do ex-F1 Jos Verstappen, andava de kart ainda na infância — Foto: Arquivo pessoal Em abril, um porta-voz da Federação Internacional do Automobilismo (FIA) declarou que "melhorar a acessibilidade financeira em toda a pirâmide do automobilismo" é prioridade para a entidade, mas ressaltou que "muitos dos custos associados à participação em competições, incluindo viagens, logística e operações das equipes, estão fora do controle direto do órgão regulador". - Esses custos também têm sido afetados por fatores econômicos mais amplos ao longo do tempo. Dentro de sua competência, a FIA tomou medidas significativas para controlar os custos, promovendo a padronização, limitando áreas de desenvolvimento técnico e fortalecendo percursos estruturados, como a Fórmula 4 e a Fórmula Regional, que oferecem pontos de entrada com custos mais controlados para as corridas de monolugares - declarou a federação. A FIA lembra que, em 2024, criou um plano global de kart, cuja implementação iniciada em 2025 se daria ao longo de três anos para capacitar jovens pilotos, disponibilizar premiações e fornecer oportunidades de competição do tipo "chegar e pilotar".