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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Limitar estrangeiros não garante mais espaço e melhores jovens brasileiros Mauro Cezar Pereira Colunista do UOL 22/09/2026 05h30 Deixe seu comentário Bukayo Saka e Phil Foden: revelações da Inglaterra, nascidos durante a Era Premier League Imagem: Marc Atkins/Getty Images Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× A decisão de reduzir gradualmente o limite de estrangeiros relacionados no Campeonato Brasileiro — dos atuais nove para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030 — parte de uma realidade, mas não necessariamente aponta para uma saída comprovada. O estudo apresentado pela CBF mostra que os brasileiros sub-23 ocupam apenas 11,5% dos minutos da Série A. Contando também os estrangeiros jovens, chegam a 13,8%. Na França, os sub-23 ocupam 38% dos minutos; na Inglaterra, 32%; na Espanha, 31%; e na Alemanha e na Itália, 28%. Vale considerar ainda que, em muitos países europeus, atletas nascidos no exterior adquirem cidadania local e deixam de aparecer nas estatísticas como estrangeiros, embora tenham vindo de fora. Também é verdade que a participação de estrangeiros acima de 23 anos no Brasileirão cresceu de 7,8% dos minutos em 2020 para 25% em 2026. Sakamoto Flávio deu dinheiro à milícia do caso Marielle Daniela Lima As três opções de Lula contra as bets Helio de La Peña Além do Brasileirão, STF também entrou na Data Fifa Matheus Pichonelli Ex-BBB atira para puxar votos na propaganda da TV Há uma correlação evidente entre os dois movimentos. O problema está em eventuais conclusões equivocadas. Tirar estrangeiros não significa que as vagas abertas serão ocupadas por bons jovens brasileiros. Elas podem simplesmente ficar com brasileiros mais velhos e de nível técnico inferior. E há contraexemplos à tese de que muitos estrangeiros necessariamente sufocam a formação de jogadores locais. Na Inglaterra, o melhor deles. Na temporada 2025/26, cerca de 71% dos jogadores da Premier League eram estrangeiros, a maior proporção entre as cinco grandes ligas europeias. Na Serie A italiana 67%, na Ligue 1 francesa 65%, na Bundesliga 61% e em LaLiga 43%, segundo levantamento do diário espanhol AS. Contudo, mesmo com sete de cada dez jogadores da Premier League vindos de fora, o país vive uma das melhores fases de formação de sua história. Os ingleses foram campeões mundiais sub-20 e sub-17 em 2017 — Phil Foden eleito o melhor jogador do Sub-17 — e conquistaram duas Eurocopas sub-21 consecutivas, em 2023 e 2025. No profissional, após décadas de resultados modestos, a seleção chegou às semifinais das Copas do Mundo de 2018 e 2026, além de ser vice-campeã das Eurocopas de 2020 e 2024. Tal modelo coexistiu com o surgimento de uma forte geração de jogadores locais. A Espanha oferece outro ângulo para a discussão. LaLiga é menos internacionalizada que a Premier League, mas ainda tem aproximadamente 43% de estrangeiros, proporção muito superior à brasileira. E alguns de seus clubes mais poderosos estão muito acima dessa média. Continua após a publicidade O elenco mais rico, do Real Madrid de 2025/2026 tinha 20 estrangeiros em um grupo de 30 jogadores, ou 66,7%. Isso não impediu o país de produzir Lamine Yamal, Pedri, Gavi, Nico Williams, Pau Cubarsí e outros jovens de altíssimo nível. A Espanha ganhou a Nations League de 2023, a Euro de 2024 e, agora, a Copa do Mundo de 2026, tornando-se novamente campeã mundial. O Real Madrid, por sua vez, segue entre os clubes de maior desempenho internacional apesar de montar elencos majoritariamente estrangeiros. Ou seja, ter muitos jogadores de fora e revelar talentos nacionais não são fenômenos incompatíveis. Aliás, os números europeus ajudam a mostrar por que a questão é bem mais complexa. Estrangeiros e minutos para jogadores sub-23 Liga - Estrangeiros - Minutos para sub-23: Inglaterra/Premier League: 71% - 32% Itália/Serie A: 67% - 28% França/Ligue 1: 65% - 38% Alemanha/Bundesliga: 61% - 28% Espanha/LaLiga: 43% - 31% Fonte: Diario AS e estudo apresentado pela CBF. Não existe aí uma relação linear segundo a qual quanto menos estrangeiros, mais jovens aparecem. A França, por exemplo, consegue combinar aproximadamente dois terços de atletas de fora com a maior utilização de sub-23 entre as grandes ligas: 38%. Continua após a publicidade A Inglaterra, com a maior presença de jogadores do exterior, dá aos jovens mais que o dobro da participação que eles têm no Brasileirão. E são justamente essas ligas internacionalizadas que formam o núcleo mais competitivo do futebol mundial de clubes. No coeficiente de cinco anos da Uefa, Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha e França ocupam as cinco primeiras posições. Talvez o dado mais importante do estudo da própria CBF esteja em outro lugar: o Brasileirão envelheceu. A idade média passou de 27,3 anos em 2021 para 28,5 em 2026, acima de Espanha (27), Inglaterra (26,4), Alemanha (26,3), Itália (26,1) e França (26). As contratações feitas pelos clubes do Brasil é elevada: 26,3 anos. Portanto, o problema não é simplesmente o passaporte. Um argentino de 20 anos contratado pelo Palmeiras ou um uruguaio de 21 levado pelo Flamengo concorre por espaço, mas também rejuvenesce e potencialmente qualifica a competição. Já substituir um estrangeiro de 27 anos por um brasileiro de 30 não produz um minuto sequer a mais para a formação de jovens. Há ainda uma peculiaridade econômica: de 2016 a 2025, jogadores de até 20 anos responderam por 50,1% das receitas brasileiras com transferências para o exterior. A experiência internacional não demonstra que estabelecer uma reserva de mercado para jogadores nacionais, isoladamente, produzirá melhores gerações. Formação depende da qualidade das categorias de base, de treinadores preparados, calendário adequado, equipes B ou competições de transição. E ainda, coragem dos técnicos para escalar jovens, capacidade financeira para mantê-los e um ambiente competitivo no qual possam se desenvolver. Estrangeiros de qualidade podem, inclusive, elevar a exigência enfrentada por esses garotos. Continua após a publicidade Siga Mauro Cezar no X Siga Mauro Cezar no Instagram Siga Mauro Cezar no Facebook Inscreva-se no Canal Mauro Cezar no YouTube Siga Mauro Cezar no Threads Siga Mauro Cezar no BlueSky Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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