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Esta terça-feira (6) será palco de um dos dias mais marcantes da história do futebol: o fim da trajetória de Lionel Messi com a Argentina . Após uma trajetória verdadeiramente digna de cinema, o atacante enfrenta o Benim , às 20h, e se aposenta em definitivo da seleção. Para um país tricampeão, esta -- claro -- não é a primeira vez que a nação de despede de um ídolo. Diego Maradona teve um fim muito diferente de La Pulga . Ainda assim, pode-se aprender muito com o que o futuro reserva para a AFA.
É difícil que na vida exista algo como um final feliz. É um conceito reservado, na verdade, à literatura ou ao cinema, onde, às vezes, os acontecimentos se sucedem de maneira tão perfeita que o leitor ou o espectador acredita que, pelo menos uma vez, o universo se encaixou. No futebol, isso é ainda mais difícil, porque mesmo quando se encerra um ciclo de sucesso, a alegria se mistura com a nostalgia por não ser possível alcançar mais conquistas no futuro. No caso de Diego Maradona, tudo se multiplicou em um processo traumático pelo qual o futebol argentino pagou durante muitos anos.
Vale ressaltar que a carreira daquele número 10 não chegou ao fim por decisão própria. Primeiro, porque ele foi excluído da Copa do Mundo de 1994 devido ao caso de doping após a vitória por 2 a 1 contra a Nigéria , que acabou sendo sua última partida pela Albiceleste . Depois, porque as circunstâncias dessa exclusão definiram o rumo da Seleção no complicado processo que se seguiu.
A Argentina havia começado a Copa do Mundo nos Estados Unidos jogando como candidata ao título. As sólidas vitórias por 4 a 0 contra a Grécia e, em seguida, contra os africanos geraram um otimismo talvez exagerado, mas que se baseava no alto nível da equipe. Como era de se esperar, após a expulsão de Maradona tudo desmoronou, as duas partidas seguintes foram perdidas e a equipe voltou para casa antes do previsto.
Foi o momento, como costuma acontecer após as derrotas no futebol, de buscar culpados. E, nesse caso, não se apontou apenas o dedo para Diego e para o técnico, Alfio Basile, mas estigmatizou-se todo o processo com um único conceito: anarquia. Falou-se da falta de autoridade da comissão técnica em relação aos jogadores, que eram questionados, entre outras coisas, pelo uso de bonés com publicidade para obter um ganho financeiro. Mas havia uma acusação que ia além e que Julio Grondona, chefe da AFA naquela época, percebeu na hora de definir a sucessão do treinador.
O escolhido foi Daniel Passarella. Se tivessem levado em conta apenas os resultados esportivos, teria sido uma decisão absolutamente lógica. O Kaiser não era apenas — como continua sendo — o único jogador bicampeão mundial pela Argentina, graças aos títulos de 1978 e 1986. Como técnico, ele havia conseguido montar um River Plate hegemônico e conquistado, desde sua chegada em 1990, três títulos nacionais. E embora esse currículo justificasse plenamente sua ascensão à seleção, o que se buscava acima de tudo era um perfil que fosse absolutamente contrário ao processo anterior.
Passarella deixou claros os termos que pretendia para seu mandato em uma das primeiras entrevistas concedidas após assumir o cargo, no programa argentino “Fútbol de Primera”. Lá, ele reiterou a linha que já havia adotado durante sua passagem pelo River: os jogadores não podiam usar cabelo comprido, por considerar que isso poderia incomodá-los, nem brincos, sob a alegação de que corriam o risco de se machucar. Mas então surgiu um elemento que também ia no sentido de uma disciplina férrea e que não havia sido mencionado antes: os convocados para a Seleção passariam por uma rinoscopia para detectar se haviam consumido drogas como cocaína.
Foi óbvia a alusão, sem mencioná-lo, a Diego, que havia sido preso em 1991 por posse de entorpecentes. “É uma coisa vergonhosa. A rinoscopia, o cabelo curto. Passarella se identifica muito mais com os militares do que com a democracia”, disparou Diego, que, de quebra, mirou em um ex-companheiro que havia se mostrado totalmente adaptado aos novos tempos: “Batistuta é um bajulador. Cortar o cabelo a pedido de Passarella é coisa de bajulador, porque Bati marcou 300 gols com o cabelo comprido”.
A decisão de Grondona surtiu o efeito desejado. Passarella, distante de Diego desde antes mesmo de 1986, quando jogaram juntos, manteve-se firme na decisão — nunca confessada abertamente — de não convocá-lo durante seu mandato. Não hesitou nem mesmo depois de vê-lo em boa forma em seu retorno ao Boca Juniors em 1995 e 1996, quando ele por pouco não conquistou dois títulos nacionais. A porta estava definitivamente fechada.
Na primeira Copa do Mundo pós-Maradona, Ariel Ortega foi um herdeiro muito digno da camisa 10. De qualquer forma, a equipe não conseguiu avançar além das quartas de final, quando perdeu por 2 a 1 para a Holanda , com a expulsão do sucessor de Maradona, que agrediu o goleiro Edwin van der Sar. Mantendo distância da imprensa, que o elenco escolheu como inimiga, com disciplina tática e sem brincos nem cabelos compridos, a Argentina se despediu quase em silêncio.
Quatro anos depois, a história acabou sendo ainda pior: apesar de contar com jogadores excelentes e da orientação de Marcelo Bielsa, a Argentina sofreu sua primeira eliminação na fase de grupos desde 1974. Ainda faltavam quatro anos para que Lionel Messi assumisse o bastão da genialidade de Diego e desse início a uma nova era na Seleção.
Nenhuma época é igual a outra, e nenhuma despedida será igual à anterior. É incomparável a despedida de Messi — em um ambiente extremamente controlado, com a Argentina como vice-campeã mundial e em bom nível — àquela dor que um país sofreu ao ver ser arrancada de suas mãos a possibilidade de ver Maradona novamente com a camisa que ele mais amava.
O próprio Messi deu motivos para o otimismo em maio deste ano, quando a grande atuação da equipe de Lionel Scaloni na Copa do Mundo, com a chegada a uma nova final, ainda nem havia se concretizado. “Vai sobrar um grupo grande e forte quando essa etapa terminar e outra começar. Embora haja alguns jogadores que vão se aposentar, a grande maioria vai continuar. Continuam surgindo e ainda há muitos jovens que vêm de baixo com muita vontade e muita força”, comentou.
Certamente haverá uma renovação esperada daqueles que já trouxeram muitas alegrias. Mas, atrás de Leo, estarão Enzo Fernández, Cristian Romero, Julián Álvarez, Lautaro Martínez e aqueles ainda mais jovens, como Nico Paz ou Franco Mastantuono.
Com novo técnico ou não, a Argentina continuará tendo um time de estrelas. Mas, como a vida não é um filme, também é preciso admitir que os torcedores sentirão falta daquele jogador que conseguia decidir uma partida em um segundo e desatar situações que estavam muito complicadas. Porque finais perfeitos na vida real não existem, embora alguns possam ser mais felizes do que outros. Ou, pelo menos, um pouco menos tristes.