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Só para assinantes Assine UOL Opinião Mais erros e lesões: a aposta da ciência para o calor de Brasil x Noruega Lúcia Helena Colunista de VivaBem 02/07/2026 16h58 Deixe seu comentário A disputa de tirar o fôlego entre Brasil e Japão Imagem: Troy Taormina/Reuters - 29/06/2026 Resumo Já está previsto: o clima da disputa entre "canarinhos" e "vikings" nas oitavas de final da Copa do Mundo será dos mais quentes no próximo domingo (5). Até porque o MetLife Stadium, em Nova Jersey, é a céu aberto, permitindo que atletas e torcida sintam o calorão previsto para as 16h de lá: de 32°C a 34°C. Fichinha para quem veste a nossa camisa? Então saiba que o tempo abafado pela altíssima umidade do ar promete uma sensação térmica em torno dos 42°C. Tudo bem que a meteorologia também é uma caixinha de surpresas, mas desta vez dificilmente a previsão do tempo baterá na trave. Pense comigo que Erling Haaland é um animal. Ele e todo mundo em campo, no banco e nas arquibancadas. Digo, somos animais homeotérmicos, isto é, nosso organismo faz de tudo para manter a temperatura interna constante. A regra é clara: se ela não estiver perto dos 37ºC, milhares de reações químicas fundamentais não ocorrerão direito. Para não dar zebra, existem mecanismos de termorregulação e o principal deles é a produção de suor. O líquido evapora e, desse jeito, provoca um resfriamento. Aliás, é a única saída para o corpo perder calor se a temperatura externa é igual ou maior que a dele próprio. Milly Lacombe O pranto da torcida e a maldição dos 86 minutos Mauro Cezar Monstros dos gols no caminho do Brasil Sakamoto Fiesp ataca fim da 6x1 para garantir a manicure em dia Alexandre Borges Direita woke é o principal inimigo de Flávio Bolsonaro Suando em bicas, eu despencaria jogando pebolim. Mas atletas de alta performance não parecem sofrer tanto. Em geral, caem na grama por falta ou por catimba. Poucas pessoas entendem disso tão bem quanto o fisiologista do esporte Orlando Laitano, brasileiro que há uma década leciona na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, onde chefia um laboratório que conduz estudos sobre as respostas de atletas à temperatura ambiente. Por que os jogadores toleram o calor mais que nós? "Porque eles fazem cargas muito altas de exercício diariamente", responde o professor Laitano. Claro, a tática da adaptação ao calor também envolve cuidados com a alimentação, com o sono e com tudo mais que fisiologistas como ele recomendam para o corpo aguentar tanto treino. "Qualquer indivíduo já é, ele próprio, uma usina de calor", diz ele. "Afinal, o corpo humano é ineficiente para transformar toda a energia que obtém em energia mecânica, isto é, em movimento." Lembra-se da famosa molécula de ATP, a bateria que guarda a energia do que comemos? "Ela é a moeda corrente no músculo, que tem um orçamento fechado: ele quebra ATP, libera energia e, depois, com as calorias dos alimentos, ressintetiza o ATP", compara o fisiologista. Nós, que damos palpite, mas não chutamos a bola, usamos no máximo 25% da energia dessa quebra para os músculos se contraírem. O resto? Vira calor. Já a musculatura de um atleta aproveita entre 25% e 30%. Ou seja, sobra muito calor com os treinos pesados. Isso, dia após dia, adapta seu organismo para tolerá-lo. Eles suam a camisa primeiro Pode apostar que jogadores como Neymar, Vini Jr., Endrick e, do lado adversário, Nusa, Sørloth e outros nomes impronunciáveis não só têm um organismo mais eficiente para gerar calor: eles perdem calor com maior eficiência também. Continua após a publicidade Segundo o professor Laitano, se um desses jogadores for correr em uma esteira, começará a suar não apenas em maior quantidade, mas muito mais cedo que alguém ao seu lado que só faz exercício de forma reacional. "O atleta já começa o exercício com o ar-condicionado do seu corpo ligado", brinca o fisiologista, "enquanto a pessoa que não é condicionada acumula calor e, só aí, aciona esse sistema". A sudorese ligeira é mais um sinal de adaptação para não ultrapassar uma faixa estreita de temperatura interna. "Se isso acontece, vem a fadiga e as cãibras, subindo o risco de lesões", explica o fisiologista. "Já reparou na quantidade de jogadores que se lesionaram desde que a Copa começou?" Suar é dar o sangue pela vitória Se, por um lado, o suor derramado desde os primeiros minutos do primeiro tempo ajuda quem já está produzindo muito calor a enfrentar o mormaço à sua volta, por outro surge um desafio. "É que a matéria-prima do suor é o sangue", diz Orlando Laitano. "Ele só não escorre vermelho porque a filtração das glândulas sudoríparas impede a passagem da hemoglobina, responsável por essa cor." Com menos volume, a corrente sanguínea não entrega tanto oxigênio para a musculatura, que precisa mais que nunca desse gás na hora do contra-ataque e para dar ripas na chulipa. Essa é uma das causas por que a temperatura acima do normal, exigindo mais da sudorese, tem sua parcela de culpa pelas lesões no gramado. A musculatura fica sobrecarregada. Xixi? Só no vestiário Se você desse uma garrafa de água para o atacante Gabriel Martinelli beber enquanto ele estivesse sentado no vestiário, o líquido reidrataria seu corpo e o excesso iria embora como xixi. Aliás, no banco de reserva ninguém mata a sede desse jeito. Vá que, bem na hora em que Carlo Ancelotti resolver mandá-lo para o ataque de novo, ele esteja no mictório? Brincadeira à parte, não é só por isso. Líquido demais, durante a partida, é gol contra. Continua após a publicidade O corpo do jogador tem, mais ou menos, cinco litros de sangue. "Ora, ninguém leva uma mochila de sangue nas costas porque vai botar os músculos para fazer esforço", observa Orlando Laitano. Para driblar a diminuição do volume da circulação, já que a musculatura em campo exige cerca de dez vezes mais sangue do que pedia no banco, há uma redistribuição. E os rins é que vão para a reserva. "O fluxo sanguíneo para eles fica praticamente zerado", conta o fisiologista. Logo, eles param de produzir urina. A consequência para quem der um golinho a mais será acumular líquido. "Por isso, precisamos elaborar uma estratégia que não deixe o atleta desidratar, nem hiperdratar. Em campo, o excesso de líquido é tão problemático quanto a falta", ensina Laitano. Uma das possíveis consequências seria o desconforto gastrointestinal, com diarreias e vômitos. Sem contar que a membrana dos músculos precisa de uma certa concentração de eletrólitos no sangue para seus impulsos elétricos. A diluição faria com que eles não desempenhassem tão bem. Três minutos para dar um chapéu no cérebro Orlando Laitano implica com o nome "pausa para hidratação". Para ele, deveria ser "pausa para resfriamento". Os jogadores, de fato, desidratam muito depressa. Na seleção brasileira, que ele mesmo avaliou antes de começarem os jogos, a taxa de sudorese gira entre 2,5 a 3 litros por hora. "A gente não conseguiria repor tudo isso nem se a tal pausa durasse uma hora!". Daí que os três minutos servem muito mais para enganar o cérebro. Para isso, alguns jogadores vestem coletes recheados de gelo. Outros colocam toalhas geladas no pescoço, onde há uma enorme quantidade de receptores de temperatura. "Se você colocasse um termômetro no atleta, veria que sua temperatura baixa muito pouco. Mas o cérebro tem a percepção de que houve um resfriamento." Iludido, ele preserva suas reservas de energia, como glicogênio, para o corpo fazer mais esforço. A mesma função tem o bochecho de carboidrato, logo cuspido no gramado. Por uns instantes decisivos, o sistema nervoso deixa de reclamar de cansaço, achando que o corpo foi reabastecido de açúcar. E segue o jogo. Continua após a publicidade Como o calorão pode interferir Ainda que a gente conte com tudo isso, a umidade prevista para o domingo deverá atrapalhar mais que a temperatura, em si. O suor deixa de resfriar no tempo úmido, não evaporando tão bem. "Mas comissão técnica não está preocupada só com o efeito agudo da onda de calor neste domingo. Até porque os nossos jogadores já estão treinando em uma temperatura semelhante", revela Orlando Laitano, que cuidou da seleção na Copa de 2014. "O risco é que os atletas vêm de outros jogos, sofrendo estresse físico e psicológico, além de térmico. É como uma pessoa em férias que começa a postar foto, podendo esvaziar a bateria do celular antes de chegar ao seu destino. Eu diria que, na fisiologia, a bateria da termorregulação descarrega muito depressa". Se a gente compara a distância total percorrida por jogador em um dia escaldante e em uma tarde mais amena, ela é quase a mesma. O que muda são os lances de maior intensidade, o número de tiros e arrancadas, a maneira como o atleta corre. O jogo parece amarrado. Os erros de passes tendem a aumentar porque o cérebro é o primeiro a se ressentir. "O árbitro também desidrata e ele precisa tomar decisões o tempo inteiro", lembra Laitano. Pode isso, Arnaldo, explicar muita coisa? "Por fim, devemos ter mais substituições, porque precisaremos de jogadores com a 'bateria' menos arriada", aposta o fisiologista. O deus Sol é brasileiro Como a esperança só derrete quando o árbitro apita fim de jogo, vale lembrar que os noruegueses, mesmo com uma excelente comissão técnica, podem não entrar tão bem no clima das oitavas. Continua após a publicidade Como em muitos países do Hemisfério Norte, eles cresceram com ar-condicionado em dias quentes — talvez, nunca tão quentes como o próximo domingo — e calefação em longos invernos, sem ensinar desde cedo o corpo a lidar com mudanças de temperatura. Em um estudo de pesquisadores israelenses, com o qual Laitano colabora, notou-se que, assim como existe uma memória muscular — quem já treinou muito recupera músculos e condicionamento mais rápido depois de um tempo parado —, há uma memória de aclimatação ao calor. "Ela faz com que quem foi muito exposto a altas temperaturas no passado, mesmo morando uma longa temporada na neve, se adapte melhor ao clima quente depois", resume Laitano. Esta é a sua aposta. Ele estará voando para dar uma aula na Suíça bem na hora do jogo. Mas confia tanto nessa adaptação dos genes dos brasileiros que já avisou a esposa, Gi, com quem emenda férias na sequência. A volta foi marcada para o horário da final da Copa e, se der Brasil, o voo será adiado. Faça chuva ou faça sol. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Lúcia Helena por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Erling Haaland e Harry Kane: monstros dos gols no caminho do Brasil Jornal: iraniano processa Fifa em R$ 5,2 bi por gol anulado e eliminação Engolir vidro pode matar? Entenda riscos após caso de professora em SP Viih Tube publica novo episódio de reality criticando escala 6x1 Tenente da Rota baleado na cabeça foi monitorado por 97 dias, diz TV