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Fátima Batista foi primeira mulher do Nordeste a presidir uma torcida organizada O futebol que conhecemos conta histórias de mulheres que ajudaram a transformar o esporte dentro e fora de campo. Uma das protagonistas no Nordeste é Maria de Fátima Batista, que acompanhou e ajudou nos primeiros passos da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF). 📲 Receba notícias do Fortaleza direto no seu WhatsApp. Clique aqui! Dona Fátima participou da elaboração do estatuto da organizada, integrou a diretoria e chegou à presidência em 1994, tornando-se a primeira mulher a presidir uma torcida organizada no Nordeste. Ela lembra que a TUF foi fundada nos corredores da Universidade Federal do Ceará (UFC), com os alunos do curso de Economia, Administração e Ciências Contábeis. E também que fez o hino da torcida. Conheça Fátima Batista, que foi presidente da TUF nos anos 90 — Eu fazia parte da diretoria, porque eu sempre procurei entender de tudo. Minha avó falava que a gente tinha que saber de tudo na vida. De dois em dois anos havia eleição. Na época, eu fiz questão de ser secretária. No segundo mandato do Paulo Figueiredo (ex-presidente), eu fui como vice. Acontece que o Paulo teve que se afastar da torcida e eu assumi - começa. - Assumi a TUF e fui para a frente da bateria junto com o Marquinhos, que era o diretor de bateria. Eu disse: “agora nós vamos ter que fazer tudo bem ao pé da letra”, porque, por eu ser mulher, poderia haver alguma discriminação, mas, graças a Deus, nunca houve. Ao contrário, eu sempre fui bem elogiada, bem tratada — contou dona Fátima, ao ge . 1 de 9
Dona Fátima, em 1994, com a Tuf, torcida uniformizada do Fortaleza — Foto: Arquivo pessoal Dona Fátima, em 1994, com a Tuf, torcida uniformizada do Fortaleza — Foto: Arquivo pessoal O início da trajetória de dona Fátima com o esporte expõe uma realidade antiga e triste. Naquela época, as mulheres não podiam jogar futebol. Por isso, ela conta que o handebol se tornou uma opção em decorrência do impedimento da presença feminina nos gramados. Vale lembrar que por 40 anos as brasileiras foram proibidas de jogar futebol, o que começou em 1941, no Estado Novo de Getúlio Vargas. Pai de Chico da Costa também jogou no Fortaleza, em 1993: "Coincidência bem bonita" — Não [joguei futebol], porque naquela época as mulheres não podiam. Não podia, não. Era proibido. A mulher não podia, naquele tempo era só handebol. Eu sempre achei um absurdo [mulheres serem proibidas de jogar futebol], porque eu sempre fui assim, evoluída para o meu tempo. Eu achava que mulher podia fazer sempre tudo. Não haveria barreiras. Eu achava, na minha cabeça de criança, de adolescente, que a gente podia tudo, mas não podia — relata dona Fátima. Dona Fátima, apesar dos impedimentos da presença da mulher no futebol, foi além. Encontrou uma brecha e atuou como pôde. Deu início a uma história que canta, literalmente, até os dias de hoje. 2 de 9
Dona Fátima com os mascotes do Fortaleza — Foto: João Moura/Fortleza EC Dona Fátima com os mascotes do Fortaleza — Foto: João Moura/Fortleza EC — A TUF foi fundada nos corredores da Universidade Federal do Ceará (UFC), com os alunos do curso de Economia, Administração e Ciências Contábeis . Eu participei dessa turma gente fina. A gente se juntou também no estádio: “vamos juntar todo mundo e vamos fundar uma torcida”, e assim foi fundada por pessoas altamente importantes para Tuf. As pessoas se juntavam e faziam camisas, e elas eram vendidas no estádio. E parte do que era vendido financiou as viagens — contou. Se dentro das quatro linhas ela não podia atuar, fora delas imperava o respeito. 3 de 9
Hino da TUF — Foto: Reprodução Hino da TUF — Foto: Reprodução — Eu não tenho do que reclamar, de nada. Eu sempre fui respeitada no estádio desde aquela época. Eu fiz o hino da TUF . É muito emocionante [ouvir a torcida cantar o hino da TUF]. Mas o que me faz muito chorar é quando cantam o “Batismo Tricolor”, aquela música da TUF, e a do Cassiano. Aí eu choro no estádio. É emocionante. E a TUF faz a diferença. Quantas vezes, em épocas difíceis, nós mudamos o placar do jogo, no grito. Aquele incentivo, aquele estádio, aquele caldeirão. E quando era no PV era que o negócio era arrochado. A gente virava o jogo mesmo. Era muito gostoso. Sempre foi — narrou. 4 de 9
Dona Fátima com a Tuf, torcida uniformizada do Fortaleza, em 1994 — Foto: Arquivo pessoal Dona Fátima com a Tuf, torcida uniformizada do Fortaleza, em 1994 — Foto: Arquivo pessoal Antes de assumir o comando das arquibancadas, Fatinha era da diretoria da torcida organizada. A história foi contada inspirada na curiosidade. — Fui muito bem recebida na arquibancada e elogiada, porque eles me achavam uma mulher de muita fibra. A TUF já estava grande, e eu fui para a frente sem temor, nem nada. Ainda mais que estava no meio do campeonato, aí era que tinha que ir para a frente mesmo. Naquela época, eu fazia a chamada dos meninos tudinhos. Eram mais de 500, tinha que chegar no estádio cedo. Os meninos me ajudaram — completou. 5 de 9
Dona Fátima com integrantes da Tuf, torcida uniformizada do Fortaleza, em 1994 - Fatinha é a única mulher na imagem — Foto: Arquivo pessoal Dona Fátima com integrantes da Tuf, torcida uniformizada do Fortaleza, em 1994 - Fatinha é a única mulher na imagem — Foto: Arquivo pessoal Fatinha acrescenta ainda à sua história a criação do estatuto da torcida organizada, feito em um lugar inusitado. — A gente fez o estatuto, inclusive foi feito lá na minha casa, no jardim da minha casa. O Éberson colocou quatro itens no estatuto. O estatuto tem mais de 40. Coloquei lá no artigo dois que a TUF não poderia ter discriminação de raça, nem de sexo, nem de cor e nem de religião . Está lá no segundo artigo. Eu escrevi. Eu não gosto de discriminação. Nunca gostei, sempre fui assim — recorda Fatinha. Fátima e futebol feminino Uma das lutas de Dona Fátima foi levar as mulheres a um lugar que nunca pertenceu a elas, a um ambiente que as acolhe nos dias atuais, mesmo que ainda enfrentem muitas dificuldades. Dona Fátima integrou a geração que fundou o futebol feminino no Fortaleza . 6 de 9
Dona Fátima no vestiário em um jogo do futebol feminino, em 2010 — Foto: Arquivo pessoal Dona Fátima no vestiário em um jogo do futebol feminino, em 2010 — Foto: Arquivo pessoal — O futebol feminino foi na gestão do presidente Lúcio Bonfim. Era um sonho que eu tinha. Em 2008 foi implantado o futebol feminino aqui. Com o presidente Renan Vieira, nós ganhamos o primeiro campeonato em 2010. Nós fomos campeões, ganhamos do nosso rival o primeiro campeonato, depois ganhamos em 2020, 2022 e, com o Erandir, nós ganhamos a Copa Maria Bonita, o Campeonato Cearense e o acesso à elite do Brasileiro, mas infelizmente, devido ao que ocorreu (rebaixamento do time masculino), nós tivemos que dar um tempinho — narrou Fatinha. 7 de 9
Fortaleza na final do Campeonato Cearense feminino de 2019 | Dona Fátima está do lado esquerdo da foto e é a terceira em pé do lado esquerdo — Foto: Arquivo pessoal Fortaleza na final do Campeonato Cearense feminino de 2019 | Dona Fátima está do lado esquerdo da foto e é a terceira em pé do lado esquerdo — Foto: Arquivo pessoal Atualmente, o Fortaleza não tem mais a categoria em decorrência do rebaixamento da equipe principal masculina para a Série B do Campeonato Brasileiro. No entanto, a rotina de Dona Fátima nos dias de hoje está diretamente associada à memória de quando ainda lutava pela fundação da modalidade. Fortaleza é campeão do Cearense Feminino em 2025 — Estamos prontos para tudo, para ir ao estádio, para trabalhar, para vivenciar, para curtir, lutar e vencer. E nós vamos subir (para a Série A). Eu começaria tudo de novo, feliz, feliz da vida. Eu sou tão feliz com o Fortaleza. Fortaleza é minha vida, minha paixão — declarou dona Fátima, ao ge. Reconhecimento duradouro José Rolim Machado, atual presidente do Fortaleza, destacou a importância de Dona Fátima no dia a dia do clube e exaltou o pioneirismo à frente da TUF. Além disso, o trabalho exercido junto aos outros ex-presidentes do Fortaleza. - Falar da Fatinha é falar de uma mulher extraordinária. Ela é uma lenda no Fortaleza, é uma mulher aguerrida, vibrante, guerreira e forte. Quando falamos da história do Fortaleza, não podemos deixar de falar dela. Ela vem há muitos anos trabalhando no clube, fazendo um trabalho junto com todos os ex-presidentes e agora comigo . Fez parte de secretaria do Conselho Deliberativo. Tinha todos os arquivos muito bem feitos. Hoje ela ainda estuda, batalha. Faz com que as coisas no Fortaleza andem quando dependem dela. Consegue bater metas rapidamente. Todos os ex-presidentes adoram a Fatinha . Ela ama o Fortaleza, a torcida - afirma, em entrevista ao ge . 8 de 9
Presidente do Fortaleza, Rolim Machado — Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC Presidente do Fortaleza, Rolim Machado — Foto: Mateus Lotif/Fortaleza EC Parceria com Jackson de Carvalho, autor do hino do clube Pedro Netto, historiador do clube, é o autor de "O Fortaleza em Campeonatos Brasileiros". A parceria foi com David Barboza, outro pesquisador do Leão. Pedro lembra que vivenciou o ano de 94 na TUF, com Dona Fátima no comando. - Falar de Fátima Batista é falar de protagonismo, porque ela está desde as origens dos Leões da TUF, em 1991, quando a torcida organizada é fundada oficialmente, ao lado de Robertão, Pedro, Éberson. Ela está desde o primeiro núcleo. Muito animadora, dedicada, quebrou barreiras desde 91. Ela foi presidenta em 1994. Primeiro presidente foi Éberson, depois veio Paulo Figueiredo, ele não deu continuidade e ela assumiu. É um momento em que quase nenhuma mulher assumia organizada no Brasil e ela inseriu a mulher nesse espaço de gestão. Imagina aí... - conta, ao ge . E comenta a parceria de Dona Fátima com Jackson de Carvalho, que também fez o hino do clube, na composição para a TUF. - Ela teve protagonismo. Eu ia para a TUF nessa época, no fim de 1994. A gente via como ela comandava, organizava e a dedicação com os instrumentos. Ela fez o hino da TUF junto com o Jackson de Carvalho, que é autor do hino do Fortaleza. Ela fez a composição no início dos anos 90. Ela prova isso também dentro do clube. As atitudes dela quebram as barreiras do machismo que impera dentro do futebol. 9 de 9
Dona Fátima, do Fortaleza — Foto: Arquivo Pessoal Dona Fátima, do Fortaleza — Foto: Arquivo Pessoal