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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte O vôlei brasileiro declara guerra a todas as mulheres Milly Lacombe Colunista do UOL 15/08/2026 11h29 Deixe seu comentário 0:00 / 0:00 Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Quem diz o que é ser mulher? A Confederação Brasileira de Vôlei acha que é ela. A partir de agora é a CBV que vai determinar quem se qualifica para o sexo feminino. Um teste será feito em todas as atletas para dizer quem é e quem não é mulher "biológica". O que seria ser uma mulher biológica? Ter a genitália apropriada? Cromossomos XX? Uma carga hormonal adequada ao sexo? Nada disso é tão simples. Há combinações que escapam do XX e XY. Temos XXY, XYY, XXX etc. E a carga hormonal? Igualmente bastante variada. Assim como as genitálias: quase 2% da população é intersexo. Você sabe quais as suas composições? Se você, um homem, for fazer o teste e descobrir que tem algumas dessas características você vai abrir mão de dizer que é homem? Pessoas trans passam por ajustes hormonais para se adaptar ao novo sexo. Os estudos mais aprofundados já realizados sobre o tema de pessoas trans no esporte não encontraram vantagens específicas que esse grupo levaria sobre os demais. O esporte lida com situações de mais ou menos vantagem. Força, altura, rapidez, habilidade, treino. Tudo entra na conta. Nenhuma mulher cisgênero está sendo prejudicada pela entrada de mulheres trans no esporte. O que prejudica mulheres - cis e trans - são instituições querendo controlar nossos corpos. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo O que nos prejudica é a falta de investimento, a premiação diferente da dos homens, os constantes assédios de dirigentes e treinadores. O controle sobre corpos trans é o controle sobre todos os corpos. Mas o que é ser mulher? É ter cabelo comprido? Unha feita? Andar de saias? Ter útero? Brincar de boneca? Ter filho? Esses significados sobre o que é ser mulher não fomos nós que demos. E eles variam de tempos em tempos. Mulheres cis são perseguidas e agredidas se deixam de preencher esses requisitos. Mulheres trans são perseguidas por preencherem esses requisitos. Não temos como ganhar. O jogo é manipulado. "Ninguém nasce mulher". A frase é conhecida por todo mundo, mesmo quem não leu Beauvoir. Mas o que isso quer dizer? Nós, mulheres, temos uma ideia mesmo que não tenhamos lido Simone. A gente se torna mulher todas as vezes que sobrevivemos a uma agressão, a um ataque, a uma interrupção. A gente se torna mulher quando ganha a tabuinha de passar roupa, o estojinho de maquiagem, o aventalzinho, o bebezinho de plástico. A gente se torna mulher no olhar umas das outras. Se torna mulher sempre que alguém pergunta se não teremos filhos. Onde está nosso marido. Que roupa é essa? Onde vai sozinha a essa hora? A gente se torna mulher a cada repressão e a cada ato de resistência numa jornada contínua. Eu me sinto mais mulher hoje do que antes. Continua após a publicidade Não existe um ato único que funda gênero. Gênero só existe na prática. Não somos mulheres porque temos cromossomos XX (muitas de nós, mulheres cis, não temos). Não somos mulheres por causa de um conjunto hormonal específico, nem por termos vaginas e úteros (muitas de nós não temos, aliás, úteros). Somos uma construção. Vivemos dentro do regime binário da diferença sexual que traça destinos quando alguém diz dentro de uma maternidade: é menino ou é menina. Tornar-se homem e tornar-se mulher são atos que precisam ser repetidos diariamente, como explica a socióloga Berenice Bento Tem um grupo de palavras que não descrevem a realidade: elas produzem a realidade. "Homem" e "Mulher", "menino" e "menina" são palavras que produzem realidades. Quem diz o que é e o que não é uma mulher? Quem determina o que somos? A medicina? O sistema jurídico? O Estado? Pessoas trans existem desde sempre. Há registros dos jesuítas sobre pessoas trans - sem esse nome, claro - no Brasil em 1500. O Brasil não é o país com o maior PIB do mundo, nem é o país com o maior IDH do mundo, mas é o país com o maior número de pessoas trans assassinadas no planeta há 17 seguidos anos, segundo o "Dossiê: Registro Nacional de Mortes de Pessoas Trans no Brasil em 2024, divulgado pela Agência Brasil, agência de notícias do governo Federal. A decisão da CBV colabora para o aumento dessas estatísticas.. O senso comum diz que mulheres trans têm vantagem nos esportes femininos. Essa premissa não pode ser cientificamente provada. Em janeiro, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos se reuniu para julgar os recursos de dois estados que baniram mulheres trans de competições esportivas, os argumentos das procuradorias de Idaho e Virgínia Ocidental, assim como o do representante do governo Trump, era de que haveria uma vantagem inerente das mulheres trans sobre as mulheres cis nos esportes. Por isso, banir as mulheres trans dos torneios seria uma forma de "proteger o esporte feminino". Continua após a publicidade Esse argumento, bastante enraizado no senso comum e que vem sendo reproduzido também no Brasil, acaba de ser refutado pela maior revisão sistemática já publicada sobre o assunto - um artigo de pesquisadores da USP relata os resultados do estudo: "O desempenho esportivo envolve condição física, técnica, tática, psicologia, experiência e contexto da modalidade. Não existe um único marcador que capture tudo. Então, a gente usa marcadores gerais de desempenho. Capacidade física é um marcador de desempenho. Força de membros inferiores, força de membros superiores, o consumo máximo de oxigênio, são indicativos. Não necessariamente quem tem esses atributos vai ganhar. Ainda mais quando a gente pensa em um esporte como, por exemplo, futebol, basquete ou vôlei, que envolve um talento inato do sujeito também, habilidades específicas, desempenho coletivo e contingências de uma partida. Isso é muito difícil de mensurar em estudos científicos". O trabalho é assinado por um grupo de pesquisadores brasileiros liderados pelo professor Bruno Gualano, da Faculdade de Medicina (FM) da USP. O conjunto de estudos contém dados sobre desempenho fisico e composição corporal de 6.485 participantes, sendo 2.943 mulheres trans, 2.309 homens trans, 568 mulheres cis e 665 homens cis, com idades entre 14 e 41 anos "Quando a gente olha para esses dois dados combinados, baixa qualidade metodológica, que se reflete em incertezas na literatura, com a ausência de diferenças para a capacidade física entre mulheres trans e mulheres cis, a gente conclui o seguinte: que a crença na vantagem competitiva, automática e universal de mulheres trans versus cis não se sustenta em boas evidências empíricas. Está muito claro isso. Primeiro, porque as evidências são frágeis e, segundo, porque, na média, elas não apontam isso, ao contrário do que muitas pessoas acham". Atacar a comunidade trans é atacar todas as mulheres na medida em que o ataque reduz tudo o que é da ordem do feminino à nada e coloca na mão de homens o veredito sobre o quem pode e quem não pode se declarar mulher. Quem faz isso ridiculariza, invisibiliza, debocha, confina e se apropria de tudo o que é da ordem do feminino. Com a medida autoritária e misógina, a CBV declara guerra a todas nós, cis e trans, e não podemos nos calar diante disso. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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