Conteúdo Original
Tite relembra derrota para a Croácia na Copa de 2022: "Criei uma expectativa muito grande" "Por que eu?" Com essa indagação sem respostas, durante longo período, Tite remoeu o sentimento de injustiça pela eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022. O ex-treinador da seleção brasileira entende que seu time jogou melhor do que a Croácia e que o trabalho de seis anos e meio merecia disputar pelo menos a semifinal. A derrota mais sentida da carreira culminou em reclusão. Um silêncio quebrado na semana passada, quando concedeu ao Abre Aspas, do ge, sua primeira entrevista exclusiva em mais de três anos e meio. Tite garante ter encontrado a cura. A expressão e a fala estão tranquilas sobre tudo o que envolve aquela partida, da qual carrega um único arrependimento: – Todas as críticas feitas a mim pelo Neymar não ter batido o primeiro pênalti estão corretas. Eu errei. Isso asseguraria a vitória? Não sei. Mas ele deveria ter sido o primeiro batedor. 1 de 7
Ao Abre Aspas, Tite falou pela primeira vez sobre a Copa de 2022 — Foto: Jhony Inácio Ao Abre Aspas, Tite falou pela primeira vez sobre a Copa de 2022 — Foto: Jhony Inácio Outra sequela daquela noite é um sentimento pouco frequente em sua longa e vitoriosa trajetória: o de ter sido enganado pelo campo. – Eu estava olhando o jogo, olhando o jogo... E assisti de novo ao jogo. Não teve nenhum lance de perigo maior da Croácia. Eu tenho o hábito de dizer que o campo fala, a bola fala. (Naquele dia) o jogo não falou. O jogo escondeu – relembrou sobre o empate croata, a quatro minutos do fim da prorrogação. Pela primeira vez, Tite mergulhou nos detalhes da última das 81 partidas em que comandou a Seleção. Falou sobre a ida ao vestiário tão logo o último pênalti foi batido, sem compartilhar a dor da queda com os atletas. Explicou as escolhas táticas e dos batedores na disputa final e as reações nos bastidores, nas derradeiras conversas com seu grupo. Orgulhoso, recordou-se também dos bons momentos, especialmente dos 30 jogos de invencibilidade nas Eliminatórias. Números que, em sua visão, dificilmente serão superados, e o credenciaram a ser procurado por todos os sucessores efetivos no cargo. Tite conversou com Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. Tanto tempo sem se abrir gerou uma conversa de três horas. Por isso, a publicação da entrevista será dividida em duas partes. Na primeira, o foco é a Seleção. Na segunda-feira, o ge levará ao ar o que Tite revelou sobre suas passagens recentes por Flamengo e Cruzeiro, as recusas ao Corinthians e as projeções para seu futuro como treinador. Ficha técnica: Nome: Adenor Leonardo Bachi (Tite) Nascimento: 25 de maio de 1961, 64 anos Profissão: treinador e ex-jogador de futebol Clubes como treinador: Guarany de Garibaldi, Caxias, Veranópolis, Ypiranga de Erechim, Juventude, Grêmio, São Caetano, Corinthians, Atlético-MG, Palmeiras, Al Ain (Emirados Árabes), Internacional, Al-Wahda (Emirados Árabes), Flamengo e Cruzeiro Na Seleção: campeão da Copa América (2019) e líder invicto nas duas Eliminatórias que disputo. No total, 81 jogos, com 60 vitórias, 15 empates e seis derrotas; eliminado nas quartas de final nas Copas de 2018 e 2022. Títulos como treinador: Mundial (2012), Libertadores (2012), Copa Sul-Americana (2008), Recopa Sul-Americana (2013), Brasileirão (2011 e 2015), Paulista (2013), Carioca (2024), Mineiro (2026), Gaúcho (2000, 2001 e 2009), entre outros. 2 de 7
Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio ge: Você nunca falou publicamente sobre a última Copa do Mundo. Aquela eliminação mexeu de uma maneira diferente de outras? Por que esse período até romper o silêncio? Tite: – Mexeu de uma maneira diferente. E eu senti bastante, mais do que o normal. Eu questionei: "por que eu?". A minha espiritualidade baixou e eu não conseguia entender. Eu dizia: "não é possível". Criei uma expectativa particular muito grande, porque pegou duas Eliminatórias invictas. Assumi a Seleção na sexta posição na primeira (Eliminatória) e estava jogando a minha carreira. Nós terminamos em primeiro. Faz uma segunda Eliminatória, a maior pontuação da história, com nível de aproveitamento e de ajustes, com opções importantes. Tinha um grupo. A comissão técnica conversava, e eu dizia: "pô, a gente tem muitas opções". Vini, Martinelli, Paquetá, bastante entre os lados. E jogadores ajustados a uma situação que veio numa evolução. Ela fez um 4 a 1 emblemático contra a Coreia, atropelando, fazendo gols de uma beleza... – Eu e o Matheus (Bachi, filho dele) conversamos, e ele disse assim: "pai, tu tens que procurar ter uma sintonia da linguagem, porque está pegando uma garotada jovem também". Tinha tido uma dança que era natural, não de (provocação), de menosprezo ao adversário. Era uma dança que eles faziam, legal. E eu chancelei. Disse: "é a nossa característica, vocês continuam fazendo assim, com respeito, e não na frente do adversário e nem na frente da torcida, mas comemorem. Até porque, se sair gol, eu vou fazer a dança do pombo também para vocês". Ave Maria. E aí dá o jogo, dá o gol, e eu lembrei: "bah, agora eu me ferrei". Quando eu olhei para o banco, está todo mundo vindo. Eu digo: "pô, agora eu vou ter que...". Claro que eu sabia que de alguma forma ia ser filmado. Eles conseguiram fechar, eu fiz umas duas, três vezes, e pá, fugi. Era uma forma, uma linguagem que eu tinha com a garotada, que também estava vindo pela primeira vez na seleção brasileira, com um peso extraordinário. Jogar Copa do Mundo é absurdo de pressão. É absurdo. – Eu só (vivi) uma situação igual no Mundial com o Corinthians contra o Chelsea. É absurdo. E eu lembro que uma vez nós estávamos conversando e tinham alguns jogadores que chegaram vindo do título da Champions. E aí eu lembro que Alisson, Casemiro, Thiago, Neymar, e com a garotada toda que estava vendo, eles falaram assim: "não tem nada parecido com o Mundial, hein? Não é ser campeão de Champions, não é jogar Champions". Até a mim surpreendeu, porque eu disse: "pô, a Champions tem um glamour danado". Eles falaram assim: “não tem nada como jogar Mundial. Não tem nada como entrar em campo e tu estar do outro lado com a pessoa que está defendendo o seu país". A magnitude disso, o sueco, o norueguês, o italiano, ele não quer saber quem está do outro lado. Eu quero defender o meu país, eu quero defender as pessoas que eu represento. É absurda essa pressão. Tite contra bastidores da dança do Pombo e comenta pressão na Copa do Mundo A sensação que eu tive no início da sua resposta é que no ciclo entre 2018 e 2022 você faz tudo que imaginava ser necessário para chegar bem à Copa. E que você entra nela achando tinha a situação ideal para ganhar. – Faço o complemento agora: dos sete jogos, nós tínhamos essa projeção. Inclusive falamos: "nós queremos fazer os sete jogos. E que seja a final. Mas vamos fazer esses cinco primeiros, depois a gente chega na semi para a busca da final". Então tu vais por etapas. Os passos fazem o caminho, o gaúcho Mario Quintana já falava. É assim que eu vejo a vida, é assim que eu transitei ao longo da minha vida. Eu nunca pensei em ser técnico. Eu vi até a entrevista do (Rafael) Guanaes com vocês, ele disse: "pô, eu busco isso, isso e aquilo". Eu nunca projetei isso na minha vida. Eu sempre projetei o próximo passo. Claro que quando eu chego próximo ao meu objetivo, é lógico. Bom, é o Campeonato Brasileiro? Bom, agora vamos buscar o Campeonato Brasileiro. – Então eu tinha essa expectativa muito alta. E quando a gente faz um jogo consistente contra a Croácia, fazendo 1 a 0, e aquilo que é a capacidade analítica do jogo. Eu estou olhando o segundo tempo, nós temos uma substituição a mais, e o Militão tinha pedido já a segunda vez para sair, que estava com câimbra. – Vocês cortam depois, eu posso falar (palavrões)? Faz favor, corta. Depois vocês cortam. Uma vez tinha dado câimbra em um atleta ofensivamente. E os caras falaram: "ah, tem que trocar o fulano que deu câimbra". Eu falei assim: "f..., por câimbra eu não tiro p... nenhuma”. E os caras do banco tudo (assustados). Eu disse: "câimbra eu não tiro. Pode falar para ele levantar". Era um atacante. Porém, eu estou com um defensor. E se o defensor vacila num momento, eu tomo o gol. Ele já tinha pedido uma vez. Militão, vamos, vamos, vamos. Aí vai, na segunda vez... Aí a troca do Militão. E invertem os laterais, né? – É. Vem para o natural dele, o Danilo, e vem o Alex Sandro também na dele, que também vinha voltando de lesão. E não tinha feito substituições de meio-campo para dar uma consistência maior. Na sequência, (entra) o Fred. E tem mais uma substituição. Estou olhando o jogo, estou olhando o jogo... Não teve nenhum, e eu assisti de novo ao jogo, lance de perigo maior da Croácia. Quando a bola transitava em posse, agora eu estou falando em termos táticos, era fora do bloco. Quando o Modric tocava a bola, era fora do bloco. Quando ele está fora do bloco, estou numa situação que não tem verticalidade. Tu estás protegendo a zona 14, a zona de finalização. E ela está circulando. – E aí o futebol... E aí o machucar. O futebol, às vezes, não fala. Eu tenho um hábito de dizer que a bola fala, o jogo fala. O jogo não falou, o jogo escondeu. E numa sequência de circunstâncias que aconteceram no jogo, a gente acabou tomando o gol. E dá o gol de empate. E eu senti bastante. Depois eu posso falar o porquê que eu não entrei no campo. Aí eu senti bastante. Porque a expectativa era de chegar à semifinal e à final. 3 de 7
Ao Abre Aspas, Tite admitiu que errou nos pênaltis contra a Croácia — Foto: Jhony Inácio Ao Abre Aspas, Tite admitiu que errou nos pênaltis contra a Croácia — Foto: Jhony Inácio O lance do gol da Croácia é cruel porque parece todo o oposto do que era a Seleção. Aquele time raramente era pego desordenado para defender, raramente se via exposto. Você tem um raio-x daquela jogada? – Foi uma série de circunstâncias. Eu não vou entrar em detalhes com nome (do jogador), porque isso dá uma conotação muito grande, e tenho que ter muito cuidado. Por quê? Porque, enquanto professor, enquanto educador, eu elogio de forma pública e corrijo de forma particular. Essa é a convicção. Se eu venho aqui e coloco, de alguma forma estou transferindo (a culpa) e não vou fazer isso. Não corto cabeça, é meu perfil de liderança, não cuspo para cima. Dentro do vestiário, eu faço, individualmente eu faço, na circunstância eu faço. – Há uma série, uma conjuntura, uma circunstância em que algumas coisas poderiam ser melhores, poderiam ter sido evitadas. Um conjunto disso. Inclusive um momento caótico que a Croácia fez, enfio dois atacantes, não retorno mais e deixo a equipe no vai e volta. Um pouquinho PSG x Bayern, em que ninguém controla ninguém, o domínio é sempre dos ataques, claro que com características diferentes, marcações individuais. Mas ficou um bloco lá, um bloco aqui defendendo, tomando bola. E numa primeira circunstância ela acabou acontecendo. Quando diz "o jogo escondeu", você quer dizer que aquilo não era o contexto do jogo, na história do jogo não era acontecer aquilo? – Não. Não. Não. Porque quando eu falo que não teve nenhum momento de uma defesa do Alisson, nenhum momento que eu disse assim: "cara, olha que lance perigoso". Não teve. Porque daí eu consigo dizer aquilo que o jogo fala e eu poder interagir, porque eu tinha uma substituição a mais. O jogo não falou. O futebol, às vezes, esconde. Há algumas circunstâncias, como é o placar, ele é muito diminuto, não é basquete, onde eu acumulo número de pontos. A característica do futebol é essa. Às vezes, uma expulsão, toma um gol de bola parada porque ela vai entrar onde tu estás posicionado. Estou falando do gol que nós (pelo Cruzeiro) tomamos, ganhando do Corinthians, tomamos o gol de empate porque o Willian foi expulso, deu escanteio e tomamos. A bola, às vezes, como diz o Muricy, te pune. O lance do gol, então, você nunca chegou a corrigir... – Não deu tempo. Você não tinha nem clareza do que tinha acontecido sem poder rever. – Tinha, e eu revi. Mas você já tinha naquele momento? – Mas eu não passei para os atletas. Mas eu não passei para os atletas. Também seria uma crueldade excessiva apontar o erro depois que o gol já tinha saído? – Claro. Ali estava terminando o ciclo. Eu sabia que estava terminando o ciclo. E aí, quando termina e vai para os pênaltis, e eu saio (de campo), porque senti demais, criei uma expectativa por tudo que nós tínhamos feito, de chegar no mínimo numa semifinal, numa final. Eu entendia que o trabalho merecia isso. As opções mereciam. Que o jogo merecia. Só que o futebol tem efetividade. Ele é um componente decisivo. Os gols de Brasil 1 x 1 Croácia, pelas quartas de final da Copa do Mundo 2022 Você disse que reviu esse jogo. Precisou de um tempo ou voltou para o Brasil e já colocou o VT para assistir? – No avião eu já peguei e disse: "quero ver todo o jogo e principalmente esses momentos finais". Então, na minha retina, eu pegava e voltava, pegava e voltava, voltava, voltava. Eu estou dando dados informativos de novo para quem está ouvindo. Estou dando a minha opinião e me posicionando. Que cada um, democraticamente, faça a sua análise. Porém, agora ele também está tendo um outro lado, uma informação mais precisa e não aleatória. – Assisti detalhadamente para que eu tivesse também... Continuava a lamentação. Vocês imaginam todos os nomes que vocês têm, todas as ofensas, nomes feios. Imaginem todos. Todos eles eu falei. De lamentação. "P... que pariu, que merda, p..., cacete". Mas por quê? Por que eu? Depois eu me acalmei dentro do vestiário, no segundo estágio. Primeiro veio um espírito de indignação. Depois eu chorei. Eu digo: "pá, terminou, cara". Depois eu fui fazer a minha oração. Eu lembro que as velas até tinham caído. Depois eu fui dar um abraço e passei a mensagem para todos os atletas, para toda a comissão técnica. Dei um abraço em cada um. Passei uma mensagem. A vida de vocês continua, cara. Estou terminando aqui o meu. Tenho muito orgulho da forma leal, digna, com que a gente dentro do nosso ambiente de trabalho falou na cara um para o outro. O quanto a gente se valorizou, o quanto a gente teve enquanto grupo. Siga o seu caminho, estou chateado, mas é da vida. Faz parte da vida. Por que, logo após a eliminação, você sai do campo e vai direto para o vestiário? – Primeiro, eu não gosto daquele clichê de "eu não me arrependo de nada da vida". Eu me arrependo de certas coisas, sim. Eu sou um ser humano, eu me arrependo. Mas não me arrependo de ter saído de campo. Sabe por quê? Olha o meu estilo de liderança e olha a forma com que eu me conduzo. E, desculpa, é o último campeão mundial do Brasil que está falando: eu tenho um "bunker" para falar para trás. Todos os títulos que um técnico pode ter, eu tenho. E falo isso com muito orgulho e com muita propriedade. – Ah, nesse último contra o Cruzeiro eu estava contente para caramba. Vocês me viram na foto na frente levantando a taça? Não é o meu perfil. Quando sou campeão gaúcho pelo Grêmio, eu estou num canto. Quando sou campeão mundial, na foto toda, eu estou num canto. Porque, cara, dá valor a um contexto, a um grupo todo de trabalho. Eu não sou babaca, não sou ingênuo e não sou burro para saber que o futebol se ganha, um jogo se faz num conjunto e num trabalho de equipe muito forte. Então eu me reservo. Sou um cara muito reservado. Espetacularização? Entro para dentro do campo, em termos hipotéticos. Eu dou um abraço num jogador, dou um abraço no outro, aí dou um abraço no jogador que fez o gol, tá? O que vai filmar? Não vai ser na hora que eu der um abraço em quem errou alguma coisa? Vai. Vocês não precisam falar. E aí o que acontece? Uma espetacularização da coisa. Eu vou fazer dentro do vestiário. Lá é sagrado. Ali a adrenalina sobe, a emoção aflora. É o olho no olho, o contato com o atleta. É muito difícil eu estar falando de uma forma natural com vocês todos e com as câmeras focando. – Vou dar um exemplo. Nós estamos subindo o elevador, voltando ao hotel, e há a coincidência de subir com o Marquinhos e um segurança. O Marquinhos está emocionado, chorando. Marquinhos, me perdoe, mas ela é bonita porque a grandeza... Tu é muito grande, cara. Eu dei um beijo no rosto dele, dei um abraço nele e disse: "Marquinhos, não te culpe". Porque a regra do jogo é de penalidade, que eu acho que poderia encontrar uma forma melhor. Ali é uma fábrica de heróis e de vilões. Eu dei um abraço nele, foi o mesmo Marquinhos que fez o gol quando nós classificamos e, contra o Paraguai, e depois fomos campeões da Copa América. Foi o mesmo Marquinhos que bateu e foi campeão da medalha olímpica. E que tinha feito uma série de batidas com muita concentração, com o jogador muito lúcido, muito claro, muito concentrado. Só para fechar: imagina se aquele beijo que eu dei, aquele abraço, (acontece) dentro do campo. Além de não querer a espetacularização, você também estava abalado emocionalmente. – Eu, teatralmente, poderia fazer. Só que eu quero ser leal comigo mesmo. Teatralmente, eu poderia fazer. Por exemplo, eu não cumprimento pós-jogo nenhum técnico, ou muito poucos. Porque, se eu ganho, o outro lado vai estar p... da vida e eu não tenho sentimento. É a forma que tenho de respeito. E eu não gosto de receber também. Com exceção do (Óscar) Tabárez, acho que nem fui cumprimentá-lo quando nós vencemos, acho que de quatro, o Uruguai. Eu o tenho como exemplo de educador, que transcende o futebol. Ele dá mostras de que você pode ser competitivo, pode ser aguerrido, mas com limites de educação. É o meu estilo. Eu não quero confrontar os meus... Poderia? Poderia brincar de faz de conta? Sim. Mas aí o que chancela? Olha as minhas condutas todas. – Só para fechar: nós fomos campeões brasileiros e eu ia comemorar um momento numa vitória, num clássico, e ia passar na frente do banco. Eu falo com orgulho isso. Quando vi que ia passar na frente e era um placar dilatado, eu disse: "eu não vou passar ali na frente". Eu parei e voltei. Porque sei a dor do outro lado. Eu sei respeitar a dor do outro lado. É a forma que tenho e que respeito os meus sentimentos e a minha conduta. Essa é a minha conduta ética. 4 de 7
Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio Outra questão muito debatida na época foi a ordem dos batedores de pênaltis. Do Neymar não ter batido por não ter sido um dos primeiros. Como você vê essa discussão? – Todas as críticas que foram feitas ao Neymar não ser o primeiro estão corretas. Eu errei. Contextualizo essa situação: imaginava que pudesse, no último pênalti, ser a maior pressão e tê-lo como batedor. A gente fez toda uma preparação anterior, escolheu os melhores batedores, já sabíamos que estavam listados. Eu aceitei que fosse dessa forma. Deixei o Neymar por último. Poderia estar justificando assim: o Neymar foi o último na Olimpíada e fez o gol decisivo. Aí está legal. Mas não quero fazer isso. Estou externando, mas não quero. – Eu estou colocando agora: errei. Ele deveria ser o primeiro batedor. Hoje o que eu faria? Neymar primeiro. Determinaria que ele fosse o primeiro. Estão corretas (as críticas). Isso asseguraria vitória? Não. Mas que eu faria? Sim. Ou pelo menos o quarto batedor, uma mudança de rota ali no meio das penalidades? – Eu faço algumas anotações e, dentro de todas, tenho um bilhetinho que carrego comigo. E uma delas é me preparar para as diferentes situações do jogo. Inclusive essa. Só que eu não vou fazer essa (mea-culpa). O Marquinhos eu já tinha colocado para bater. Olha aí, hipoteticamente. Aí eu tiro o Marquinhos e boto o Neymar. O Neymar faz. Vamos falar em termos hipotéticos. Aí deixa o Marquinhos por último. Eu tirei o Marquinhos e botei o Neymar. O que eu tiro do Marquinhos? Confiança. – Exato. Um cara que bateu o pênalti contra o Paraguai e fez. Aí eu perco, o Marquinhos errando o último pênalti. Você está vendo? Não só errou, como tirou a confiança do cara. Tu treinou, é o cara. Na primeira, sim (errei). Nessa outra, não. O Neymar nunca pediu para ser o último batedor? Foi uma decisão da comissão? – Ela traz alguns componentes. Nós tínhamos a listagem dos melhores batedores. Eu digo: "pega a listagem que vocês têm". O Cleber (Xavier) conduzia juntamente com o Matheus, com o César (Sampaio). E eles dizem: "esses são os que estão melhor batendo". Então tá. Conversa com eles. Mas quem determina sou eu. A sequência quem determinou fui eu. 5 de 7
Neymar e Tite na seleção brasileira — Foto: Giuseppe CACACE / AFP Neymar e Tite na seleção brasileira — Foto: Giuseppe CACACE / AFP Mais dois temas desse jogo: você acha que, no primeiro tempo, teve uma descompensação na pressão pelo lado do Vini, que era por onde a Croácia saía quase sempre com o lateral? Isso era uma questão do jogo? E a outra: faltou mais um meio-campista para evitar que a Croácia trocasse passes e tirasse o ritmo do jogo? – Do lado do Vini, as compensações sempre aconteceram. Até quando o Neymar jogava ali, sempre havia um meio-campista que fazia essa sustentação, para deixar o Vini ou o Neymar (quando jogou nessa função nos dois períodos da Copa) de uma forma mais "fresh" para uma situação mais avançada, que é como está sendo utilizado agora, como o Ancelotti o utilizou muito tempo no Real. Então tem essa característica sempre de ter, do lado esquerdo, um jogador que é letal, que verticaliza, que no lance individual desequilibra. E uma compensação: você sai um pouquinho mais, faz uma compensação com o meio-campista, e depois de uma retomada tem o Vini. E aí é o outro lado. Então essa era a ideia. – Sobre ter mais um meio-campista, a gente de novo chega naquela ideia que o 10, o arco e flecha, era o Neymar. De ter um segundo meio-campista que faz uma ligação e de ter jogadores de lado que pudessem fazer essa transição, inclusive dar essa consistência, para que tivéssemos (desequilíbrio) na frente. A ideia era sempre o ponto de equilíbrio. Você diz assim: o que você busca nas suas equipes? Um equilíbrio. Por que eu falo em 4-4-2 que a gente fez? Porque eu entendo que isso é uma forma mais equilibrada de marcação, construção, criação e finalização. Quando você consegue estabelecer, que é muito difícil, esse equilíbrio. Talvez ele seja até utópico, porém, é uma ideia. – Tu preferes trabalhar com três volantes? Eu não. Eu acho que me mandaram embora do Rio Grande do Sul porque o Rio Grande do Sul tem um pouquinho da pecha de jogar com muitos volantes. Eu fui campeão gaúcho com o Caxias com um. E para marcar o Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. Então eu gosto de articulação, gosto de criação. Tu gostas de cinco atacantes? Não. Eu procuro ter uma equipe equilibrada. E ela é por função, não por posicionamento, 4-4-2. A Copa do Mundo é daqui a um mês. Você acompanhou o ciclo? Como avalia a Seleção? – Acompanhei, sim. É inevitável o acompanhamento. Claro que com filtros maiores ou menores, mas é inevitável. Ela é muito abrangente, tem muitos aspectos. São três trocas de técnico, mais um interino. O que eu posso dizer, e me permito, é que na minha saída, chamado pela direção da época, coloquei para eles: que tenham luz para a escolha, estou saindo, mas mantenham a estrutura básica da Seleção até escolherem o técnico. Na hora que escolherem o técnico, ele vai buscar informações dessa equipe de trabalho que está definida, com análise de desempenho, performance, contatos, você tem uma série de informações ricas. E eu disse: "não tenho nenhuma sugestão de nome". Não pergunte, e eu não quero. Nacional, não. Internacional, sim. Se vocês escolherem um dos três, vocês vão acertar, porque era unanimidade, os três maiores naquele momento. Todo mundo sabe. Guardiola, Klopp e Ancelotti. – Eu disse: "nacional não falo". Tem grandes profissionais, como acabou acontecendo. Mas segura, e depois deixa o profissional que vem aqui, e vocês analisem, deixem buscar informações, depois ele vai selecionar as pessoas, mas tenha a informação verdadeira dos fatos. Foi a única sugestão que eu coloquei em relação a isso. Depois, eu não estou dentro para saber como é que foi a sequência do Diniz, a sequência do Dorival Júnior, anteriormente nos três jogos que foi com o Ramon. Seria hipocrisia, leviandade fazer algum comentário a respeito. Dos três treinadores que foram contratados depois, você se dá bem com todos, inclusive o Ancelotti. Você visitou o Real Madrid em 2014 e depois estreitou laços com ele também por conta do trabalho na Seleção. Estes técnicos te procuraram, tiraram dúvidas, pediram conselhos? – Conversei com o Diniz, no meu apartamento. Conversei com o Paulo Angioni, que havia sido convidado também. A iniciativa partiu deles, não vou restringir informação. É absolutamente aberto. Foi uma iniciativa deles. Para mim, inteligente. Não vou colocar nem como respeitosa, mas inteligentes, para buscar informações. O Dorival, nós conversamos, acho que foi por informação, o Matheus tem boa relação com o Lucas (Silvestre, filho e auxiliar do Dorival). Com o Ancelotti também. Não eu propondo, mas dentro daquilo que era requisitado, estava aberto a poder dar informações que eu entendia serem verdadeiras e a minha opinião a respeito dos fatos, ou até não dar a opinião se eu entendesse que, eticamente, não era legal. Diniz, Dorival e Ancelotti: Tite revela contato com sucessores na Seleção O Ancelotti, então, quando ele vem para a Seleção, te procura atrás de informações? – Nós fomos assistir a jogos do Real. Eu fui assistir Championship, Premier League, Campeonato Italiano, Campeonato Espanhol. Porque tu não tens só que assistir jogo, tu tens que sentir o jogo. São duas situações. Fomos recebidos pelo Ancelotti, nós conversamos, ele foi super legal. Já havia alguma (especulação), pairava no ar a possibilidade. A gente conversou um pouquinho. Depois, veio o mais significativo, a gente conversou por telefone e estavam ele, o Rodrigo Caetano, o Taffarel, e nós ficamos conversando um certo tempo. O Bruno Baquete também (estava), ele tinha feito contato antes. Até no final a gente ficou assim: "vamos comer uma massa". Eu disse: "se a gente esperar que o Taffarel pague essa massa, nós vamos esperar até...". Moral da história, estamos esperando até hoje (risos). A gente conversou dentro daquilo que eles procuravam de informação. 6 de 7
Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio O que você acha que deixou de principal legado na seleção brasileira para estes técnicos? – Honestidade profissional. Lealdade pessoal. Os resultados de campo, fora os Mundiais, são difíceis de serem batidos. Sem fingir a modéstia, é muito difícil de fazer 29 jogos de Eliminatórias invictos. Isso é um orgulho para caramba que eu trago. São duas Copas América, uma campeã, com o Neymar machucando no jogo (amistoso) contra o Catar, e a equipe toda se reajustando, se remontando, fazendo uma remontada e sendo consistente. Então o legado é de deixar o sarrafo alto? – O sarrafo vocês é que determinam, mas os números e os detalhes... O maior aproveitamento que um técnico teve ao longo de toda a história. São mais de 82% de aproveitamento, 81% e alguma coisa. Mais em jogos oficiais do que em jogos amistosos. Duas Copas Américas na final. A final da outra também foi dura de engolir, com uma arbitragem que... Mas deixa quieto, sem transferir a responsabilidade, fomos segundos (contra a Argentina). Quartas de final (nas Copas) que foi abaixo da expectativa, de ter buscado mais, o que me deixou chateado, o que me deixou frustrado. Entre o fim da Copa e a sua assinatura contra o Flamengo você praticamente não foi visto, parecia uma pessoa reclusa. – Não só parecia, era. Isso teve a ver de você precisar de um tempo para se reconstruir ou da forma como o Brasil trata quem não vence a Copa do Mundo? – A mais significativa, para mim, foi comigo mesmo. Mas não desconsiderando essas duas. Só que um percentual maior, minha para comigo mesmo. Aí eu perguntei: "por que eu, não é possível, a gente fez tanto trabalho". Muitos amigos e muitas pessoas queriam que eu me manifestasse. Até um certo ponto em que eu digo: "eu só pergunto por que não cheguei à final do Mundial, mas por que eu saí de São Brás e fui atleta profissional? Por que eu saí de Caxias e fui técnico durante quase sete anos da seleção brasileira?". Em que os outros técnicos olhavam assim: como é que tu aguenta a pressão? Diversas vezes, pelo amor que eu tenho e pelo respeito que tenho à atividade das outras pessoas, aos torcedores. Por que eu fui campeão mundial? Eu tenho que olhar o outro lado também. E aí eu consegui me equilibrar, absorver, retomar a minha fé. A minha família foi pródiga nisso. – Eu fazia caminhadas constantes, eu e a minha esposa, ou na praia ou na frente (do condomínio), conversando a esse respeito. E fiquei recluso. Eu sabia que é um massacre muito grande. É a relação do herói ou culpado. E o técnico carrega. Por quê? Porque o sistema é assim. Eu quero lutar contra essa forma de falar, de dizer assim: tenha um pouco mais de bom senso, é uma atividade profissional que também requer que tu tenha discernimento, serenidade, informações corretas, opiniões, evolução. Dá para ser, mesmo que ela mexa com tanta emoção. Não dá para normalizar agressividade. Não dá para normalizar isso. Não dá para normalizar ir para campo de futebol e falar: aqui pode tudo. Não dá para normalizar isso. Eu posso chamar o técnico e cuspir nele? Não dá. É uma questão de educação, de formação. Como era a sua rotina nesse período? – Eu viajei e ficava bastante com a família. Muita leitura, gosto bastante de leitura. Atividade física é imprescindível. Caminhada, corrida, elíptico. Assistia a todos vocês. Alguns com áudio, outros sem áudio. Mas, então, também não foi um afastamento total do futebol. – Continuei consumindo. Alguns com áudio, outros sem áudio. Mas você mudou o horário que ia caminhar para evitar contato com as pessoas? – Eu vou te dizer assim... Foi surpreendente, no Rio de Janeiro, o respeito que eu tive. Demorei um pouquinho para ir caminhar. Agora a gente vai sempre às sete horas da manhã. Às vezes antes? Seis, seis e meia. Depois eu fazia sempre um pouquinho de natação com os netos. Mas sempre um pouquinho mais fechado. E as pessoas sabiam onde me encontrar. – Lavar a louça eu já tinha aprendido na pandemia. Mas aí eu também aprendi a varrer. E mais ajudar a fazer bem-feito, arrumar a cama bem-feito, ser parceiro também, viajar para ver os familiares, ver os meus irmãos. A gente não vê o quanto as famílias, todas as pessoas próximas, os amigos, eles sentem. As pessoas com quem eu (me relaciono), de alguma forma, pelo meu estilo, se sentem em mim representadas, Sabe o quanto elas... E de encontrá-las e da amizade, de conversar. 7 de 7
Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio Técnico Tite em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Jhony Inácio Você falou que assistiu ao jogo contra a Croácia e imagino que tenha assistido aos outros. O balanço que faz daquela Copa do Mundo em termos de desempenho, das suas escolhas, você saiu... – Em paz. Satisfeito ? – Satisfeito não, porque eu queria chegar à final. Mas, em parte, se mais não fiz, é porque mais não tinha. Se eu pudesse voltar, aí é o condicionante, né? Eu colocaria o Neymar como o primeiro batedor. E não é ele, é a minha responsabilidade de determinar essa sequência. Isso ia acarretar (na vitória)? Até onde a gente ia? Será que nós íamos vencer? Não sei. Mas naquele jogo seu principal arrependimento é a questão dos pênaltis ou também tem algo em relação a substituições e outras escolhas? – Só dos pênaltis. Respeitando opiniões contrárias. Você avalia, nas duas eliminações, que o Brasil jogou melhor do que os adversários? – Sim. Uma delas, contra a Bélgica, o Fernandinho... Eu tenho a camisa do De Bruyne, e o De Bruyne deu uma entrevista, e eu pedi (a camisa) para o Fernandinho. O Fernandinho é uma extraordinária pessoa, extraordinário caráter, e como diria o César Sampaio, é um carro que tem todos os acessórios, que tem todas as virtudes e qualidades técnicas, inclusive em termos de equipe, de ficar fora e ser um elemento agregador. – O De Bruyne falou assim: "o Brasil foi melhor do que a gente. Nós só fomos efetivos no momento decisivo, a gente machucou no momento decisivo". Eu disse: "pergunta para ele se é realmente ou se é fake isso daí". Ele (Fernandinho) disse: "Tite, ele é um cara muito sério, realmente, entende dessa forma". Aí eu disse para o Fernandinho: "me dá uma camisa tua do City e uma camisa dele". Eu tenho as duas camisas em casa. A outra, que foi do Courtois, que ele fez um comentário com um atleta do Real. Ele disse: "aquele jogo foi top 3 da minha carreira". Quando o atleta me contou, eu disse assim: "manda ele para lá de onde você está imaginando com o top 3 da carreira dele". O Casemiro conta que o Modric também fala: "eu nem sei como a gente conseguiu ganhar aquele jogo de vocês". – Eu não quis falar, mas foi o Casemiro também que falou. E o futebol, ele tem… Por que eu? Aí quando fui campeão mundial, e nós neutralizamos o Lampard, o Hazard… Aí está bom, né? Tem o outro lado também. A bola tem o outro lado. Duro, mas é o outro lado. Quando a gente olha para toda a minha história, as cicatrizes que tem, as marcas, elas também são hereditárias. A pergunta mais feita no Brasil de uns tempos para cá é: você levaria o Neymar para a Copa do Mundo de 2026? É óbvio que vamos fazer essa pergunta. – É lógico que o Luciano (Signorini, assessor de imprensa) me pautou essa pergunta. Essa era óbvia, né? – Porém, de todas as conversas que eu e o Luciano tivemos, sempre tem um norte. O norte é ser leal comigo mesmo, ter a verdade do fato, princípios éticos e, se eu não quiser responder, dizer não. Feita essa introdução, eu não tenho condição de dizer se levaria, porque essa análise é da decisão final do técnico. O que eu posso dizer, e isso eu posso, é que no período em que ele trabalhou comigo, e entre os outros atletas que trabalharam em todos os clubes por onde eu passei... Eu peguei o Ronaldo Fenômeno, era uma etapa final profissional dele. Trabalhei com o Ronaldinho Gaúcho, era o momento em que ele estava saindo para o PSG. Trabalhei com Renato Augusto e Jadson no meio-campo, trabalhei com Valdivia no Palmeiras... Matheus Pereira, Arrascaeta, Pedro, D’Alessandro, tu traz um nível alto. – A fase, o momento, a etapa, o capítulo Neymar comigo foi o maior atleta, com maiores atributos técnicos, que eu vi e que trabalhou comigo. – Ele fez coisas impressionantes. A capacidade criativa... Acho que usei uma vez o termo de arco e flecha que ele desenvolveu. Ambidestro, visão panorâmica. A gente fala que a coruja tem quase 360 graus (no pescoço), ela tem uma visão de 270 graus. Ele (Neymar) tem isso. Ele escaneia tudo à volta e, de repente, te deixa na cara do gol. Ele é diferente, ele é diferente. "Ah, o momento que está, o que ele fez". Isso não compete a mim. "Em termos físicos". Tem todo um departamento. O maior atleta na fase com quem eu trabalhei foi ele. Levaria Neymar para a Copa? Tite rasga elogios ao atacante: "O maior que trabalhou comigo" Como espectador, o desempenho dele hoje parece de um jogador com dificuldade de repetir o que já fez? – Não sei. Preciso me inteirar mais, não tenho todas as informações e não tenho o contato com ele também. Eu tinha esse contato, essa conversa com ele. Você acha que o que o Brasil pode fazer na Copa é muito diferente com ou sem ele? – Primeiro que eu vi que quando você chega a um Mundial existe um hiato entre o último jogo das Eliminatórias e a competição. Os atletas vão para os clubes, daqui a pouco se machucam, estão sem a melhor condição, confiança baixa e não é o mesmo retrato para a competição. Depois que saí da Seleção, eu busquei muito o acompanhamento prioritário do Brasil e dos clubes brasileiros. Antes eu tinha o macro, acompanhava os outros. É claro que vai acompanhar Champions, principalmente nesse momento, mas não é com toda a atenção devida. (Estou) Acompanhando os jogos, acompanhando algumas seleções. Falando de 10, quando tu vês o Odegaard jogar é fascinante... – Fechando: eu não sei os momentos que as seleções vão estar individualmente, de como elas estão. Eu não tenho essa (capacidade) para falar qual é o nível do Brasil. (Estará) Seguramente na ponta, seguramente. A sua compreensão do que é um camisa 10 hoje é diferente do que você entendia ser no passado? – O 10 que eu concebo é o 10 de lá atrás. O que eu vejo? Conceito particular. Articulador. Visionário. Diferente. Que trabalha na zona 14, que pode flutuar. A zona 14 é a zona mais próxima ao gol possível numa faixa central. Porque ali é o mais difícil. E tu vais errar o maior número de vezes ali, porém, em uma, duas jogadas que tu faças, vai fazer a diferença no jogo. Esse jogador que tem a capacidade da finalização de média distância, da assistência, de esconder o passe. É muito difícil esconder o passe, porque a percepção do atleta concentrado vai antecipar jogadas. O 10 tem essa capacidade. Tite vê camisas 10 mais raros no futebol brasileiro Esse 10 está mais raro hoje no Brasil? – Sim. Eu não sei por quê. Os "wingers", o externo, os pontas, chama como que quiser, hoje estão mais em evidência. E a gente tem, já ao longo do tempo, criado bastante jogador de lado, de velocidade, de um contra um, de finta, mas de 10, pensador, articulador, visionário, criativo, inesperado (não). O Matheus (Pereira) me surpreendeu, ele tem sempre uma jogada que pode surpreender. Ele é difícil. – Eu não queria confrontar, mas ele tem... E a evolução teve, para comigo, o Neymar. O Neymar evoluiu de externo para 10. O 10 que eu concebo é esse. Pode ser um 10 meia-atacante? Pode. Pode ser o Matheus? Pode. Mais um jogador de condução... O Alex (Meschini, hoje comentarista) era um 10 meia-atacante. Ele era menos construtor, menos articulador, mais finalizador e infiltrador. Pode ter? Pode. Com outras características, pode. Pode ter tripé com um primeiro meio-campista e dois articuladores, dois jogadores de mobilidade do lado, pode. Para trabalhar especialmente nessa zona 14, que você menciona, hoje há muito menos tempo e menos espaço para tomar uma decisão. Por isso a pergunta sobre o que é um 10 hoje e o que era um 10 nos anos 1990. Não era no sentido da criatividade, da capacidade de construir, isso permanece. – Essa contextualização desse modelo, desses ajustes, sim (concordo), não existe um certo e errado, mas tu podes ajustar com o externo/meia que flutua para essa função 14. Tu podes utilizar um meia de infiltração sem ser um meia criativo. Tu tens um segundo meio-campista que faz box-to-box. Faz um primeiro meio-campista que fica mais posicional. Se tu tiveres os dois que fazem box-to-box, melhor ainda. Então essa composição que é o grande desafio do técnico. Não é tu ter na mente: eu concebo uma equipe assim e ela vai jogar assim. Eu tenho que ter a percepção das virtudes, e isso demanda tempo também, é a necessidade de superar momentos de instabilidade de resultado para a gente ter o melhor, ter uma evolução. – Eu posso falar isso de cadeira. Indo para trás, no 3-5-2 e 3-6-1 do Grêmio, eram três zagueiros. No 4-2-3-1, no 4-4-2, nas diferentes formas das equipes com que eu trabalhei. Eu digo para as pessoas que trabalham comigo: "a gente tem o grande desafio, quanto comissão técnica, de potencializar o que os atletas têm de qualidade". Exemplo mais específico: (Corinthians de) 2011 era uma equipe mais dura, mais consistente, mas não era de uma plasticidade maior. Eu queria que ela tivesse velocidade maior e mais posse, mas não era. Ela foi o Corinthians em 2015. Ela foi a seleção brasileira no último jogo que foi marcante, por exemplo, contra o Paraguai, 3 a 0, com uma mobilidade, com uma equipe ajustada. Tite explica ajustes táticos na Seleção para Copas de 2018 e 2022 Esse jogo contra o Paraguai é marcante porque vimos Neymar e Coutinho se aproximando do mesmo lado do campo e construindo. Lembro de você falar sobre uma preocupação que aquela seleção enfrentaria times mais fechados. A sensação que ficou é que, na virada de 2017 para 2018, você começa a perseguir um modelo mais posicional. Houve uma guinada sobre a forma de atacar? – Vamos trazer a realidade daquele momento. O Coutinho tinha liberdade de ser um externo/meia, com liberdade de flutuação, inclusive na zona 14, para gerar superioridade numérica, uma paralela cheia ofensiva. Você descoordena a marcação do adversário, gera superioridade e, em toque, passes curtos e criatividade, acabam acontecendo. Eu acho que é do Marcelo que ele cava. Na sequência, aí está o detalhe: às vezes o árbitro não dá uma falta, segue o lance, há uma retomada de posse de bola e acontece o gol. A falta que a arbitragem não deu acabou gerando. Às vezes é uma circunstância que dá um desvio, e muda os diferentes jogos dentro do jogo. – Você joga com a confiança. Daqui a pouco cresce em algum momento que faz uma jogada boa e tem essa possibilidade. Naquele momento machucou o Renato Augusto. E aquela articulação do meio campo com Neymar, Renato Augusto, Paulinho, Casemiro e Coutinho se perdeu um pouco. Aí veio o Willian... É um baita jogador, mas com uma característica diferente, mais posicional, e ali tinha um corredor para a Dani Alves passar toda hora. Quando vem o Willian, essa engrenagem (muda). Trouxe o Coutinho para dentro, para ter dois articuladores, porém, sem a mesma movimentação, mas a qualidade e o momento do Willian. – Nós buscamos ajustar essa situação toda, e ela evoluiu. Porém, ideias de ataque, onde tu tenhas, independentemente de ser um ataque posicional ou não, amplitude máxima e alguém que te dê ataque à profundidade, infiltração, chame como quiser, conforme as nomenclaturas... Resumindo, a modificação e o machucar do Renato Augusto trouxeram esse reajuste da equipe que estava num momento muito alto. Em 2022, você tinha quatro atacantes "puros", com o Neymar fazendo o papel de meio-campista. Mesmo as opções de banco eram principalmente atacantes. As circunstâncias fizeram você realizar ajustes que fogem um pouco do que está mais familiarizado, com mais posse e controle? – Eu tenho que me adaptar aos atletas. Se eu pudesse colocar um nome, tem que ser camaleão. Já nessa época muitos externos de velocidade, de um contra um, estavam surgindo. E o 10? Eu buscando, buscando. A não ser o Neymar. Procuramos em alguns momentos com o Paquetá, mas ele é um externo/meia também, que gosta de trabalhar para o lado direito. No Flamengo ele fez isso, com a passagem deixando o corredor para o lado ou como segundo meio-campista, que é como jogou na Seleção, como no Flamengo vem atuando. De costas não é como retira o melhor dele. Então, quais os jogadores que tinha para essa função? Não tem. Mas eu tenho lado, então vou aproveitar lado. – O que a Seleção hoje faz? Ela tem externos de velocidade, muitas opções de lado, poucas opções de 10. Não estou falando do Ancelotti, estou falando da geração. Ela não tem 10, ela tem 8 e 5, ela tem 9 com características diferentes. Eu digo que o Matheus Cunha é um 9 e meio, ele transita como um segundo atacante, mas não é o articulador. O que o Neymar é, que é o que o Matheus Pereira é. Ou que outros jogadores são, o Arrascaeta. Respondendo mais especificamente: eu tenho que adaptar. Se eu gostaria de ter um 10? Sim! Porque entendo que ter um 10 nessa zona e ter um flutador... Tu tens quatro jogadores que ditam o ritmo para daqui a pouco ser vertical ou ser posicional. Desacelerar ou acelerar conforme as circunstâncias. Aí você modula melhor. Eu vejo como isso é o projeto ideal da equipe, mas nem sempre dá.