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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Entre lixo e violência, Haiti vive a mais pura desesperança Julio Gomes Colunista do UOL 22/06/2026 09h52 Deixe seu comentário Resumo Lixo é todo depositado na orla da cidade que teria tudo para ser mais uma pérola do Caribe Imagem: Julio Gomes / Colunista do UOL A frase me foi dita por uma funcionária da embaixada, na noite do jogo entre Brasil e Haiti. "Olha, por menos tempo que você tenha ficado aqui, saiba desde já que ninguém vai embora igual do Haiti". O choro de um menino de dez anos, corpinho de sete, por perder um jogo de futebol. O enxame de crianças em torno de mim porque eu estava distribuindo alguns chaveirinhos de bola de futebol com as cores do Brasil. O conformismo de uma mulher que fala quatro idiomas, cuida de uma pequena biblioteca e não tem nenhuma perspectiva de conhecer outro país ou mesmo outra cidade, pois a dela está sitiada. O lixo. Lixo e mais lixo e mais lixo. Tudo na rua, na orla, parte integrante da paisagem. Realmente, há imagens do Haiti que serão difíceis de descolar na retina. Ficarão marcadas, como fica marcada a cobertura histórica aqui no UOL. Jornalismo é mais do que emitir opiniões ou fazer entrevistas banais com torcedores. Josias de Souza Lula fica sitiado por vizinhos de direita Alicia Klein Invicto, Cabo Verde confirma recado à Uefa Casagrande Brasil ainda não teve a intensidade de Cabo Verde Pedro Rossi A lógica da meritocracia e o salário de Neymar Ninguém sai igual de nenhum país em que pisa. A convivência e observação de culturas e pessoas diferentes nos fazem melhores e mais empáticos. Só que há lugares e lugares. Impactos e impactos. E o Haiti, realmente, é um lugar muito intenso. Esta viagem foi planejada com muito cuidado nos últimos seis meses, desde o sorteio que colocou Brasil e Haiti no mesmo grupo da Copa do Mundo. Não era somente uma aventura exótica. Era uma aventura bastante cara, porque chegar a Porto Príncipe hoje em dia se faz exclusivamente por uma companhia aérea haitiana desconhecida - a Sunrise -, que tem cobrado preços abusivos para voos de curtíssima duração. O aeroporto internacional está fechado por causa da violência, mas a pista utilizada atualmente é... a mesma. Apenas o terminal para embarque e desembarque é diferente. A quem interessa manter a capital "fechada"? Não tenho resposta, é parte do Haiti complexo. Lixo na rua em Porto Príncipe, capital do Haiti Imagem: Julio Gomes / Colunista do UOL Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês Uma aventura cara e perigosa. Porque Porto Príncipe é uma cidade sitiada, dividida entre territórios de poder de um ou outro grupo armado e territórios dominados pela polícia local com a ajuda dos cidadãos, porque a força pública não dá conta. É um negócio difuso, como sempre foi na história do Haiti independente. A Revolução Haitiana, promovida por escravizados e na esteira da Declaração dos Direitos do Homem na França, já foi marcada por conflitos internos, entre os próprios comandantes, desde o início. A realidade é que o país está há mais de 200 anos lidando com conflitos e formações de milícias - grupos militares ou paramilitares - para que o líder da vez seja protegido. Até não ser mais. Um círculo vicioso de desconfiança, falta de pacto social e violência. Em Porto Príncipe e Cabo Haitiano, o trânsito revela muito sobre o Haiti. Não há semáforos ou qualquer tipo de sinalização. Não há regras. É um enorme "cada um por si" ao som de buzinas. Os carros e motos disputam espaço com os pedestres, com um onipresente comércio de rua, pessoas indo e vindo e estudantes vestidos à moda antiga, todos e todas arrumadinhos, de forma impecável. O que também é revelador sobre o Haiti, um país ainda apegado a algumas formalidades. Nos dois dias em Porto Príncipe, passei boa parte do tempo entre a embaixada do Brasil e o Centro Cultural Brasil, dois locais seguros. Conheci pessoas incríveis, que realmente de uma forma ou de outra contribuem para que o país seja um lugar melhor. Ninguém ousa por aqui pensar em grandes planos de transformação, porque isso parece impossível no Haiti. É um passo por vez. Um grão de areia de cada vez. Mas calma, porque em outro lugar há grandes planos e já falarei deles. Continua após a publicidade José Antonio González é um peruano que está há 30 anos no Haiti e administra a Viva Rio, atuante em todas as áreas do país. Quantas vidas a Viva Rio salvou por aqui? Uma eu conheci na noite do jogo. J. M., capoeirista, era um menino-soldado. Nós conhecemos esta realidade no Brasil, como o crime e grupos armados cooptam crianças para fazer parte do trabalho deles. É das coisas mais cruéis que podem ser feitas. Sugar o futuro e condenar desde tão cedo uma pessoa à morte prematura. Dizem que 70% a 80% dos grupos criminosos são formados por crianças e adolescentes, pessoas que seriam os agentes transformadores do país. J. M. já foi duas vezes ao Brasil, uma alegria que nunca tiveram Kemberlen ou Sterling. Mulheres brilhantes que trabalham no Centro Cultural Brasil, mas não têm a menor condição de sair do Haiti no momento pelos preços praticados e também pelo fato de o passaporte haitiano não ser o melhor do mundo, no momento, para garantir acesso aos quatro cantos do planeta. "Eu quero muito conhecer a Amazônia e participar de grupos de convívio com indígenas", me conta a primeira, apaixonada pela cultura brasileira. Entre tantas pessoas sem escolha, me chamou demais a atenção o Werner, apelidado de Neno. Ele chegou ao Haiti um dia antes do megaterremoto de 2010, para fazer um trabalho de pesquisa de campo - na época, era estudante da Unicamp. Ia encontrar um professor para a entrevista, mas o sujeito tinha sido assassinado horas antes do terremoto. Neno e algumas outras centenas que protestavam contra o crime tiveram as vidas poupadas exatamente porque estavam na praça, a céu aberto. "Demorou para entender o que estava acontecendo. Parecia que o chão estava tremendo por causa do protesto. Mas aí as janelas de um prédio explodiram. E aí caiu a fachada do cinema em cima de uma pessoa. Existe um tempo de absorção para entender o que está acontecendo." Claro, depois de um professor assassinado e um terremoto que arrebenta com a cidade, você tem duas opções. A primeira é nunca mais querer voltar ao Haiti; ou a segunda, voltar dois anos depois e lá viver desde então. Adivinhem qual foi a escolhida. "Porto Príncipe não existe mais. Virou um campo de batalha. Onde você esteve, Petionville, era um bairro afastado na montanha. Agora a cidade subiu para fugir das gangues. E milhares de pessoas estão vindo para Cap, por isso a cidade está ficando desse jeito". Agora já estou conversando com Jean-Patrick e estamos na cidade de Cabo Haitiano - era Cap Français e virou Cap Haitien no dia seguinte à independência. Aqui todos chamam de "Le Cap". Essa era a porta de entrada dos franceses e, daqui, tentavam governar Saint Domingue (Santo Domingo), como era chamada a colônia. Parênteses: Haiti era como a população nativa, indígena, chamava o local e estes já haviam sumido do mapa por conta da chegada dos espanhóis na era dos descobrimentos, antes mesmo de a ilha ter ido parar nas mãos dos franceses. Quando os ex-escravos tomaram finalmente o poder, batizaram a nova república com o nome "nativo". Continua após a publicidade Le Cap era o principal local do país e foi a última a ser tomada, na Batalha de Vertières, aquela imagem que a Fifa mandou tirar da camisa do Haiti de forma escandalosa. Napoleão Bonaparte mandou a maior esquadra já enviada pela França (à época), 40 mil homens, para reconquistar Saint Domingue. Seria só uma escala protocolar. O plano era depois estabelecer, a partir do Haiti e da Louisiana, o domínio total do que chamamos hoje de Golfo do México. A Louisiana (que leva esse nome em homenagem ao rei Luís 14) ia de Nova Orleans, onde está efetivamente o estado hoje, até lá em cima, onde hoje é Minnesota, toda a extensão do rio Mississippi, o principal dos Estados Unidos atuais. Atenção, pois. Foi a queda da França no Haiti que fez com que Napoleão vendesse a Louisiana para os americanos a preço de banana, e aquilo significou basicamente que os EUA dobrassem de tamanho e começassem uma grande expansão para o oeste. O monumento de Vertières está bem preservado, considerando tudo o que vi no Haiti. Existe uma enorme grade o separando de uma espécie de estrada meio de asfalto meio de terra, com poeira por todos os lados sendo levantada pelos triciclos que tomam conta de Cabo Haitiano. Com a fuga de tanta gente de Porto Príncipe, a cidade do norte, que tinha 500 mil habitantes, já estaria com 1 milhão, segundo alguns, e até 3 milhões, segundo outros - logicamente, não há dados oficiais. Não parece haver nada oficial, na verdade. No Haiti, você não vê lojas, bancos, caixas eletrônicos, escritórios. Eu entrei em um supermercado (chamaríamos assim), havia dois guardas com metralhadoras na porta. É difícil compreender como as pessoas vivem, como a economia gira. Mas elas vivem. Elas estão lá e elas produzem lixo, muito lixo. Em Cabo Haitiano, uma cidade que teria tudo para ser mais uma pérola do Caribe, um destino turístico como tantos outros, o lixo da cidade é todo depositado na orla. Sim, na praia. É um enorme lixão que se mistura com a cidade, com gente passando, os triciclos, poeira subindo e buzinas e buzinas e mais buzinas. O lugar mais triste e pobre que eu havia visitado até hoje era o Zimbábue. Mas a imagem de Le Cap e do lixo é realmente impressionante. É um horror. Essa região foi um dia o centro colonial, mas não sobrou praticamente nada, porque Le Cap foi transformada em cinzas mais de uma vez durante o período de revolução (de 1793 a 1803). Essa é uma tática que já virou tradição haitiana. Quando um exército ou grupo está a ponto de perder a localidade, bota fogo, destrói tudo, é o "presente" para quem vem a seguir. A tática é a mesma hoje, 200 anos depois, no tão citado conflito entre gangues na capital - os territórios são constantemente destruídos, conquistados, perdidos, destruídos. Não sobra nada e a população tem que se mandar para outro lugar. E quem ganha não poupa os derrotados - aliás, Dessalines, o capitão que declarou a independência haitiana, promoveu o genocídio da população branca após a guerra, o que precisa ser citado, já que fez parte do contexto de boicote das potências ao país. Continua após a publicidade De volta a Cabo Haitiano, Jean-Patrick trabalha com Mahalia Metayer, uma mulher que transmite força. Nas suas origens, avô alemão de um lado, jamaicano de outro. Ela é a presidente do Matana, um clube de futebol local que trabalha com formação, mas que vai muito além disso, tirando meninos-soldado das mãos das gangues e exercendo um papel social importante. Não sei quais são os acordos com os governantes locais, mas ela parece ser uma das pessoas mais influentes de Cabo Haitiano e tem acesso direto a ministros do atual "Estado". O Matana tem três centros e campos em lugares diferentes em volta da cidade. No ano passado, ela colocou 14 meninos em um avião e levou para Porto Alegre. Apresentou-se ao Grêmio e ao Inter. O Grêmio ficou com três jogadores para trabalhar e enviou uma comitiva para o Haiti em dezembro. Foi firmado um acordo para "intercâmbio de atletas, desenvolvimento social e formação de talentos", segundo conta o próprio Grêmio em comunicado. Eu havia dito que tem gente, sim, com planos maiores no Haiti. É Mahalia Metayer. Ela e sua equipe já trabalham em uma enorme porção de terra a leste de Cabo Haitiano, já nas proximidades com a fronteira com a República Dominicana. "Nós vamos desenvolver todo o norte", fala, com confiança. Os planos são para lá de ousados. A construção de uma zona portuária para desfazer a dependência de Porto Príncipe e dos vizinhos dominicanos; um resort, que seria um destino turístico caribenho; um enorme centro de treinamentos do Matana em conjunto com o Grêmio; e um estádio de futebol, daqueles bem modernos mesmo. Eu perguntei quem iria jogar lá e se a seleção do Haiti voltaria ao país. "Daremos um jeito", falou o Jean-Patrick. Dei a humilde sugestão para que eles construíssem uma cidade com algum planejamento e dessem dignidade para as milhares de pessoas que acabarão trabalhando nisso. Poderia ser uma cidade modelo para o Haiti. Ele não deu muita atenção a essa parte. E eu fiquei pensando que, dado o histórico do país, eles precisarão de uma bela proteção armada para o que pretendem fazer. Deixo o Haiti com a sensação de ter visto um país absolutamente desgovernado, com iniciativas privadas para fazer algumas coisas aconteceram. Não há unidade para nada. O dinheiro está nas mãos de poucos, pouquíssimos, e estes grupos, financiados sabe-se lá como e por quem, criam pequenos exércitos para defender seus interesses. Gente que está nos Estados Unidos mexe pauzinhos. Na capital, a coisa perdeu o controle. É uma população tratada como lixo, que vive no meio do lixo e da brutalidade. A independência foi conquistada com glórias, o Haiti foi, sim, boicotado e prejudicado pelas grandes potências, mas é também preciso constatar que nunca conseguiram se organizar minimamente como uma sociedade funcional e que a violência inerente extrapola qualquer limite. Continua após a publicidade Ninguém sai de um lugar assim sem ser impactado. Há poucos lugares piores no planeta. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Julio Gomes por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora São Paulo planeja reintegrar Arboleda e Maik após demissão de Rui Costa Esposa de Richarlison mostra antes e depois de harmonização glútea e facial Brasil poderia enfrentar França nas oitavas com a situação de hoje na Copa Palmeiras rescinde contrato de zagueiro devolvido por clube português Brasil de Lula ficou sitiado por vizinhos chefiados pela direita