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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Copa se despede do México, o país que viveu, vibrou e esteve à altura dela Julio Gomes Colunista do UOL 06/07/2026 16h43 Deixe seu comentário Torcedores mexicanos na Copa do Mundo 2026 Imagem: Foto de Gerardo Vieyra/NurPhoto via Getty Images Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× A Copa do Mundo acabou no México. No domingo, a derrota da seleção da casa para a Inglaterra marcou o último dos 13 jogos disputados em solo mexicano. Deveriam ter sido mais. Na real, a Copa inteira poderia ter sido disputada no México. Foi aqui que houve a Copa de verdade, com ambiente nos estádios e o que resta de futebol raiz em torno deles. O que presenciei no estádio Azteca ontem foi algo muito especial. Sim, eu sei que muitos torcedores dos clubes brasileiros vão dizer que sua torcida é a melhor que tem, que empurra o time 90 minutos, que não vaia, etc, etc, etc. Pode até ter acontecido um dia no passado. Hoje em dia, certamente não acontece mais. E na Europa também não. Esta é minha sétima Copa do Mundo e em quase todas as outras eu acompanhei jogos de mata-mata das seleções anfitriãs - Rússia em 2018, Brasil em 2014, África do Sul em 2010, Alemanha em 2006... Nunca houve nada nem parecido com o ambiente do Azteca ontem. Foram 80 mil pessoas ensandecidas. Entre gritos de "Mé-rrrrrri-co", "Sí, se puede", "Y si sí?", sonoras vaias quando a Inglaterra encostava na bola, a pressão em cima de cada decisão do árbitro, o apoio em cada dividida, bola ganha, escanteio. O México realmente jogou em casa, como acontecia nos velhos tempos em vários lugares do mundo e não acontece mais, com a transformação do esporte em produto e entretenimento. PVC Principal problema do Brasil não é falta de jogador Mauro Cezar Espanha avança e joga melhor do que no início João Paulo Charleaux Trump vira a mesa e dá um golpe no futebol Helton Gomes Altman e Trump arquitetam dividir riqueza da IA Claro que houve aqui no México, também, a discussão sobre preços dos ingressos e o perfil do público dentro do estádio, que não era essencialmente o público popular que vai todo domingo ver o América, o Cruz Azul, o Chivas, os Rayados, etc. No jogo de inauguração da Copa, e eu relatei isso aqui, houve até vaias para o time, mesmo com a vitória. Era um país mais mal humorado um mês atrás, com a greve de professores tomando conta do noticiário, aquele climão de "não vai ter Copa", um filme muito parecido com o que vimos em 2014. Quando a bola rolou, o foco foi todo para o futebol. No fim, o México perdeu de forma dramática. Mas não há notícias de tretas com ingleses, de gente quebrando tudo pelo país. Foram para as ruas novamente celebrar na avenida Reforma da capital e em outras cidades. "Faz tempo que o México não vive dias tão felizes", me contou uma amiga. Falei aqui do ambiente do Azteca, mas não foi só aqui. Em todos os jogos de Guadalajara e Monterrey, o ambiente de futebol esteve presente. Mais notadamente no jogo já de mata-mata entre Marrocos e Holanda, quando os mexicanos escolheram os marroquinos para torcer e transformaram o ambiente em uma panela de pressão. Os jogos disputados nos Estados Unidos não tiveram, não têm e não terão nada nem parecido com isso. No Canadá, que receberá 13 jogos (falta um), também não. É cultural. Claro que houve focos de tentativa de criação de ambiente - como nos jogos do Brasil com o Movimento Verde-Amarelo ou, claro, nas partidas da Argentina. Tivemos alguns estádios pintados de amarelo em partidas da Colômbia e do Equador, os colombianos estão animados. Importante notar também que a maior parte do público presente nos estádios americanos é de... mexicanos. As estatísticas da Fifa vão mostrar que o país que mais comprou ingressos serão os Estados Unidos, mas lembrem-se dos milhões de estrangeiros que vivem nos Estados Unidos. Americano "raiz" mesmo é muito difícil encontrar na Copa do Mundo. Nos jogos da Argentina e de Portugal, é nítido que a maioria das pessoas estão lá para ver Messi e Cristiano Ronaldo, não Argentina e Portugal. E isso por si só já cria um outro clima. Falei de ambiente de estádio, mas o principal mesmo é o entorno dos estádios e o que aconteceu nas cidades que recebem a Copa. Continua após a publicidade Nos Estados Unidos, não há nada. É apenas mais um evento. São raros os bares e restaurantes com bandeirinhas, são inexistentes praças públicas ou locais em que as pessoas se reúnem para assistir ao futebol nas cidades. Nas fan fests, quase só há estrangeiros. Nas ruas em volta dos estádios não tem absolutamente nada, nenhuma referência, nenhuma interação - em geral os estádios estão no meio de um monte de rodovias. Uma hora, uma hora e meia depois das partidas, expulsam todo mundo que está do lado de fora do estádio, nas áreas de ações de patrocinadores e comercialização de bebidas e comidas. Quando digo "expulsam", é literalmente, OK? Deu a hora ali, a polícia começa a mandar todo mundo embora. Geralmente, aos gritos, com atitude autoritária e nada amigável. Esta é uma marca da Copa do Mundo nos Estados Unidos e, creio, da sociedade americana de hoje em dia. A agressividade. Os policiais e seguranças xingam todo mundo, não há diálogo, não há "can I help you?". E isso se estende para tudo, quase tudo - exceto, talvez e às vezes, não sempre, locais em que a pessoa com que você interage espera uma caixinha pelo serviço prestado. No México, o ambiente foi muito parecido com o que presenciei em todas as outras Copas: Coreia, Japão, Alemanha, África do Sul, nosso Brasil, na Rússia ou no Qatar. Em todos estes lugares, você via a imensa maioria das pessoas lidando com o público e com estrangeiros de forma amável, agradável, sempre tentando ajudar e receber bem. Tua credencial no peito ou camiseta de alguma seleção era quase um passe para ser bem tratado. Na Cidade do México, a Copa estava por todos os lados Outdoors, bares, restaurantes, no mercado informal de venda de camisetas piratas e uma imensidão de produtos relacionados ao Mundial. Em volta do Azteca, a "área Fifa", do estádio, não fecha rápido e nem expulsam as pessoas que ficam lá comendo, bebendo, conversando sobre o jogo. Fora desta área, os bares em volta do estádio funcionaram como em um jogo qualquer de liga mexicana. Um montão de barracas vendendo comida, música alta, pessoas dançando com roupas típicas, fantasiadas de Chapolin, curtindo o universo do futebol, mesmo que não tenham tido dinheiro para estar no estádio. O México se foi da Copa do Mundo e isso importa. É uma tristeza que a Copa do Mundo se vá daqui também. Aqui, não foi um favor receber a Copa. Foi um prazer. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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