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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Nós não conhecemos nossos pais Milly Lacombe Colunista do UOL 09/08/2026 11h55 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Meu pai e eu nas escadarias do Corcovado: Rio de Janeiro, abril de 1968 Imagem: Arquivo pessoal Em a "Odisseia", jornada épica escrita há três mil anos, a história que acontece paralelamente a do herói Odisseu é a de seu filho Telemaco. Telemaco não conhece seu pai porque Odisseu (Ulisses) saiu de casa para ir lutar em Troia quando ele era muito pequeno. Foram dez anos na guerra e mais dez anos tentando voltar para casa batalhando contra vaidades e outros monstros. Enquanto Ulisses busca o caminho de casa, Telemaco sai a sua procura. Quem é meu pai? A busca pelo pai é tema recorrente em estruturas narrativas clássicas. Símbolos importam. Quem são nossos pais? Não falo aqui dos que abandonaram o lar, dos que nunca assumiram a paternidade, dos que veem seus filhos uma vez por ano, dos que acham que têm guarda compartilhada mas não percebem o uniforme da escola encolher, não lembram o nome da professora de português nem onde está o cartão de vacinação. Esses não são pais embora eu tenha a certeza que aceitam congratulações no dia de hoje. Falo dos pais que tentam exercer a paternidade, dos que assumem suas contradições, dos que todos os dias procuram ser melhores, dos que abrem mão de exercer a autoridade tóxica dada de bandeja a eles pelo mandado da masculinidade. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo Falo dos que se permitem quebrar na frente dos filhos, falo dos que sabem responder "eu não sei" para perguntas complicadas, falo dos que têm medo e não escondem que temem, falo dos que se desculpam sem usar um "mas" logo depois de dizerem "me desculpe". Falo dos que se envergonham dos homens que já foram, falo dos que estão nos grupos de mensagem da escola e participam ativamente das trocas, falo dos que sabem que não existe paternidade plena sem ser marido ou ex-marido exemplar. Falo dos que tratam suas filhas com a mesma liberdade com que tratam seus filhos, dos que jogam bola com elas e brincam de boneca com eles, dos que têm a ousadia de dizer "me sinto sozinho". Falo dos que sabem escutar seus filhos e filhas, falo dos que se arriscam abrindo seus corações, falo dos que não tentam culpar os outros por seus erros, dos que veem a pia suja, a roupa para lavar, o banheiro carente de limpeza. Falo dos que caminham pelo deserto do autoconhecimento, dos que tentam elaborar sentimentos, dos que lutam bravamente contra a pratica de micro-violências e de macroviolências. Quem são nossos pais para além da carcaça de super-homem? Quem são eles quando estão amedrontados, quando acham que não vão dar conta, quando se sentem pequenos, quando precisam de ajuda, quando querem apenas deitar e chorar? Quem são eles sem a pressão da masculinidade impenetrável? Meu pai foi um pai excepcional. Dele, herdei os olhos verdes e o amor pelo futebol e pelo Fluminense. Com ele aprendi a ler e a escrever. Era ele que coçava minhas costas sem reclamar, era com ele que eu passava os fins de semana escutando jogos no radinho de pilha, era com ele que eu falava da vida e da morte. Era em seu pescoço que eu me pendurava para me espreguiçar, era dele o abraço mais gostoso do mundo. Continua após a publicidade Eu achava que conhecia meu pai até ler os diários de minha mãe, há alguns anos. Tive que me reconciliar com o super-herói que era apenas um homem falho, machista e misógino. Um pai ausente para minhas irmãs e para meu irmão. Um pai abusivo com minha mãe. Um pai que nunca vi chorar exceto pelo dia em que o Fluminense foi eliminado pelo Corinthians no Maracanã. Um pai que quando contrariado ficava em silêncio por dias e que naturalizou em mim esse costume apequenado, covarde, violento. Um pai que quando acuado exercia sua autoridade tóxica sem problema algum. Quem foi meu pai? Quem foi meu pai com todas as suas complexidades? Quem é o homem que eu amo e em quem penso (às vezes com raiva, outras com amor, sempre com saudade) todos os dias até hoje? A mais recente tradução da "Odisseia" para o inglês foi a primeira feita por uma mulher. Emily Wilson escolheu começar o poema dizendo que Odisseu era um homem complicado. Ninguém antes dela fez isso. Escolheram "homem sábio" e "homem de voltas e reviravoltas". Wilson optou por "complicado": difícil, complexo, enigmático, indecifrável, emaranhado. Não são todos assim? O que sobra quando tiramos de nossos pais a masculinidade que os adoenta? O que sobra quando buscamos, como Telemaco, conhecer os homens por trás dos super-heróis? Quem são nossos pais? Dedico esse texto a meu pai, que me deixou há 27 anos, a meu irmão, que exerce a paternidade da forma mais dedicada e bonita que já testemunhei, e a meus sobrinhos Paulo e Antonio, pais de primeira viagem e homens dispostos a mergulhar nesse oceano de complexidades, voltas e reviravoltas sem medo de levantar as mãos e dizer: estou perdido. Exatamente como Ulisses e Telemaco. Aos pais que tentam e estão presentes todas as horas de todos os dias, feliz dia dos pais. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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