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Reforma da Rua Javari divide opiniões A Rua Javari vive uma transformação que provoca entusiasmo e preocupação entre os torcedores do Juventus. O tradicional estádio localizado na Mooca, bairro da Zona Leste de São Paulo, começou a passar por reforma e colocou em destaque a discussão sobre se é possível modernizar um patrimônio sem descaracterizá-lo. As mudanças ocorrem justamente no momento em que o clube retorna à elite do futebol paulista após 18 anos. 1 de 15 Estádio do Juventus passa por reforma — Foto: Ulisses Lopresti Estádio do Juventus passa por reforma — Foto: Ulisses Lopresti O estádio Conde Rodolfo Crespi, conhecido como Rua Javari, teve suas características arquitetônicas reconhecidas como patrimônio da cidade em 2016. A volta do Juventus à elite do Campeonato Paulista e a transformação do futebol do clube em SAF, em 2025, reacenderam o debate sobre como adequar um estádio histórico às exigências do futebol atual. Administrado pela Contea Capital, que promete investir R$ 480 milhões, o Juventus traçou um plano de longo prazo para recolocar o clube na elite nacional. Ele prevê investimentos ao longo de uma década e tem como maior meta a disputa da Série A do Campeonato Brasileiro em 2035. O projeto para o estádio foi lançado há pouco mais de uma semana. Denominado "Arena Javari", prevê a ampliação das arquibancadas laterais, a construção de novos camarotes e de um rooftop. A capacidade será ampliada de cinco mil para 11 mil espectadores em dias de jogos e até 25 mil pessoas em eventos e shows. A obra está sendo dividida em duas etapas, com conclusão prevista para dezembro. 2 de 15 Projeto de reforma da Rua Javari — Foto: Divulgação/Juventus Projeto de reforma da Rua Javari — Foto: Divulgação/Juventus Tombamento Em 2020, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) decidiu que os muros, a entrada principal, as bilheterias, as arquibancadas, as gerais (setor mais baixo e próximo do alambrado) e o campo de futebol devem ser preservados. Qualquer intervenção depende de aprovação do órgão. 3 de 15 Estádio Conde Rodolfo Crespi antes da reforma — Foto: Clube Atlético Juventus / Divulgação Estádio Conde Rodolfo Crespi antes da reforma — Foto: Clube Atlético Juventus / Divulgação A SAF, então, protocolou um pedido de revisão da resolução de tombamento. No documento, o clube argumenta que precisa ampliar a capacidade do estádio para atender às exigências esportivas, compara a Rua Javari com outros estádios da capital e afirma que, nas condições atuais, não conseguiria mandar partidas da Série A1 do Campeonato Paulista no local. 4 de 15 Estádio do Juventus em obras — Foto: Ulisses Lopresti Estádio do Juventus em obras — Foto: Ulisses Lopresti Entre os pedidos apresentados estão alterações internas, criação de novos acessos, reformulação da arquibancada coberta, ampliação das áreas de circulação e remoção de algumas estruturas e volumetrias, sempre respeitando os elementos protegidos pelo tombamento. – O tombamento aconteceu há anos, em uma época de especulação imobiliária no bairro, em que havia o medo de o Juventus vender o estádio para construir prédios e, assim, pagar dívidas, já que o terreno é bem valioso. O tombamento aconteceu para evitar que o estádio desaparecesse – explicou Hamilton Kuniochi, torcedor e colecionador de camisas do Juventus. 5 de 15 Obras na Rua Javari — Foto: Ulisses Lopresti Obras na Rua Javari — Foto: Ulisses Lopresti Controvérsias Em maio, as primeiras obras começaram antes da análise e aprovação do Conpresp. Atualmente, quem passa pela entrada do estádio encontra os primeiros sinais da reforma. Arquiteto, urbanista e vereador de São Paulo, Nabil Bonduki afirma que as intervenções realizadas ultrapassaram o limite das pequenas reformas autorizadas inicialmente. 6 de 15 Como está atualmente as obras na Rua Javari — Foto: Instagram/ Nabil_Bonduki Como está atualmente as obras na Rua Javari — Foto: Instagram/ Nabil_Bonduki – Qualquer intervenção em um imóvel tombado tem que obrigatoriamente passar por uma aprovação do Conpresp. Eles tiveram uma aprovação para pequenas reformas e, com base nisso, fizeram grandes intervenções que precisariam ter aguardado o processo do Conpresp evoluir – afirmou Nabil em entrevista ao ge . O Conpresp determinou a apresentação de um projeto atualizado e de um relatório fotográfico das intervenções já realizadas. O órgão também solicitou uma análise complementar do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) sobre o pedido de alteração da resolução de tombamento. 7 de 15 Obra na Rua Javari divide os torcedores — Foto: Ulisses Lopresti Obra na Rua Javari divide os torcedores — Foto: Ulisses Lopresti Para o vereador, o material apresentado pelo Juventus não permite identificar com clareza todas as mudanças previstas no estádio. – O projeto apresentado foi muito sumário na relação daquilo que iria ser mexido. Pelo menos eu, vendo o que foi colocado, não consigo identificar se vai haver alguma alteração. Precisa haver um detalhamento do projeto. Rua Javari passa por reformas Procurada pelo ge , a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que o Conpresp aprovou parcialmente o pedido de reforma, conservação e regularização de demolição referente ao estádio. O órgão, porém, aguarda a complementação dos documentos por parte do Juventus. – Após essa etapa, o processo retornará ao Conselho para apreciação. A decisão determinou a apresentação de um projeto atualizado e relatório fotográfico das intervenções realizadas. Também estabeleceu que as obras nos vestiários sejam limitadas ao necessário para garantir seu funcionamento. Além disso, o projeto precisa ainda passar pela análise dos órgãos de preservação estadual e federal – informou a Secretaria, em nota. A legislação municipal prevê multa que pode variar de uma a dez vezes o valor do imóvel em casos de danos a bens tombados, além da obrigação de restauração. SAF aposta em revitalização O CEO da SAF do Juventus, Cláudio Fiorito, afirma que o projeto não prevê a construção de um novo estádio, mas um processo de revitalização da Rua Javari. – É um projeto de revitalização e restauro que respeita integralmente a história do estádio. A essência permanece exatamente a mesma. O objetivo nunca foi transformar a Javari em uma arena moderna, mas recuperar seu patrimônio. 8 de 15 Projeto de reforma da Rua Javari — Foto: Divulgação/Juventus Projeto de reforma da Rua Javari — Foto: Divulgação/Juventus Segundo Fiorito, os elementos tombados serão preservados. O dirigente defende a legalidade das obras e diz que não teme punições. – As intervenções realizadas até aqui fazem parte das autorizações existentes para obras de manutenção, recuperação e pequenas intervenções. Mantemos um diálogo constante com os órgãos públicos para que cada etapa avance dentro da legalidade. De acordo com o dirigente, estruturas como a fachada, a bilheteria e as tribunas históricas serão preservadas durante a revitalização. – O projeto não prevê alterações nessas estruturas tombadas. O trabalho realizado nesses espaços é exclusivamente de conservação e restauro. – Eu diria que o projeto não busca conciliar modernização e história, porque eles não se falam. Porque não existe modernização, o foco é apenas restaurar a história. Nosso objetivo é revitalizar e preparar o estádio para o futuro preservando aquilo que o tornou especial ao longo de mais de um século. As melhorias de infraestrutura, acessibilidade e capacidade são necessárias para garantir sustentabilidade ao clube, mas todas elas foram concebidas para respeitar a identidade do estádio. 9 de 15 Projeto da SAF para reforma da Rua Javari — Foto: Divulgação/SAF Projeto da SAF para reforma da Rua Javari — Foto: Divulgação/SAF Relação com a Javari Enquanto a SAF planeja o futuro do estádio e os órgãos de preservação analisam os limites das intervenções, os torcedores acompanham as mudanças com expectativa e preocupação. – A Rua Javari é como se fosse nossa casa, lugar em que você encontra amigos, vai para se divertir, dar risada. É um lugar que é o nosso refúgio – definiu Renato Corona, torcedor do Juventus e narrador das partidas da equipe. 10 de 15 Renato Corona é torcedor e narrados dos jogos do Juventus — Foto: Ulisses Lopresti Renato Corona é torcedor e narrados dos jogos do Juventus — Foto: Ulisses Lopresti Essa relação afetiva com a Rua Javari é compartilhada por diferentes gerações de torcedores. Frequentador do estádio desde a década de 1960, o professor Pasquale, ilustre juventino, afirma que o local faz parte de sua própria história. – Para você ter uma ideia do que aquele estádio representa para mim, muitas vezes deixei de morar na Mooca e fui viver em outros bairros de São Paulo. Como sempre sofri de insônia, pegava o carro de madrugada, ia até a Rua Javari e ficava simplesmente olhando para a fachada do estádio, para o nosso Jota. 11 de 15 Placar da Rua Javari para Juventus-SP x Ferroviária no jogo de ida da final da Série A2 — Foto: Guilherme Moro/Ferroviária SAF Placar da Rua Javari para Juventus-SP x Ferroviária no jogo de ida da final da Série A2 — Foto: Guilherme Moro/Ferroviária SAF Colecionador de camisas e frequentador da Rua Javari há cerca de duas décadas, Hamilton afirma que a maioria da torcida entende a necessidade das mudanças, mas teme perder justamente aquilo que faz do estádio um lugar diferente. – A maioria quer ver o Juventus crescendo e evoluindo, mas tem preocupação com a memória afetiva e com esse sentimento de pertencimento que existe com a Javari. Corona compartilha da mesma percepção. Para ele, a reforma é inevitável, mas precisa preservar a identidade da Rua Javari. – É uma coisa que sabíamos que iria acontecer, toda essa reforma, essa troca de estrutura. É um estádio antigo e com poucas reformas, então era necessário. Sabíamos que ia acontecer, mas a gente espera que a Rua Javari não perca sua tradição. 12 de 15 Espaço da torcida organizada do Juventus na Rua Javari — Foto: Guilherme Veiga/Ag. Paulistão Espaço da torcida organizada do Juventus na Rua Javari — Foto: Guilherme Veiga/Ag. Paulistão História A origem do estádio vem da década de 1920, quando funcionários da empresa têxtil Cotonifício Rodolfo Crespi tiveram destaque em partidas na várzea paulistana e convenceram o dono da empresa, Conde Rodolfo Crespi, a ceder o terreno para que a equipe disputasse seus jogos. Mais tarde, esse time passou a se chamar Juventus. O estádio foi reinaugurado em 1940 e até hoje mantém características de sua fundação, como as estreitas arquibancadas, a ausência de iluminação artificial e os placares manuais. Essas características transformaram a Rua Javari em destino para torcedores de diferentes clubes que buscam a experiência de acompanhar uma partida em um estádio considerado "raiz". – A grande preocupação é que o estádio perca um pouco desse charme que ele tem, características que atraem turistas ou frequentadores que vêm só para ter essa experiência de como é ver um jogo na Javari – admitiu Hamilton. 13 de 15 Hamilton é coleciandor de camisas do Juventus — Foto: Reprodução/Instagram Hamilton é coleciandor de camisas do Juventus — Foto: Reprodução/Instagram Ao longo dos anos, o palco se tornou um símbolo do futebol na capital paulista. Em 1959, Pelé fez história em uma vitória do Santos por 4 a 0 sobre o Juventus. O Rei distribuiu quatro chapéus, inclusive no goleiro, e marcou o gol que é considerado o mais bonito de sua carreira. – Vi muitos jogos antológicos na Javari. Vi o Pelé jogar lá. Não vi o famoso gol dos três chapéus, porque foi em 1959, antes de eu frequentar o estádio, mas assisti a outros três jogos entre Santos e Juventus com o Pelé em campo. Vi Ademir da Guia jogar na Rua Javari e tantos outros grandes jogadores – contou Pasquale. 14 de 15 ARTE - Quadrinhos gol mais bonito de pelé juventus rua javari — Foto: Claudio Roberto ARTE - Quadrinhos gol mais bonito de pelé juventus rua javari — Foto: Claudio Roberto Para Corona, as transformações vividas pela Mooca também ajudam a simbolizar o momento da Rua Javari. – As coisas estão mudando, haja vista o boom imobiliário no bairro, não só na Mooca, mas nos bairros vizinhos. Muitas mudanças, prédios históricos estão dando lugar a arranha-céus, grandes terrenos estão virando prédios. Infelizmente o futuro é o progresso. Não será diferente com a Rua Javari. Vai ter suas mudanças, suas modernidades. Espero que fique na modernidade visual, mas mantenha esse clima, essa aura de estádio tradicional. 15 de 15 Rua Javari, estádio do Juventus — Foto: Cristina Strutz/CA Juventus Rua Javari, estádio do Juventus — Foto: Cristina Strutz/CA Juventus