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Futebol França x Marrocos simboliza 'Copa das diásporas' e expõe racismo Guilherme Padin e Júlia Polo Romeo Do UOL, em São Paulo 08/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Mbappé abraça Hakimi após partida entre França e Marrocos pela semifinal da Copa do Qatar Imagem: Divulgação/Copa do Mundo da Fifa A partida que abre as quartas de final da Copa do Mundo de 2026 será provavelmente a que melhor simboliza a chamada "Copa das diásporas" , em que quase 300 atletas jogaram por seleções de países em que não nasceram. França x Marrocos marcará o enfrentamento entre um país responsável pela colonização de dezenas de outros ao longo de dois séculos e uma nação colonizada pelos próprios franceses, cuja independência foi conquistada nos anos 1950. Geopoliticamente, dois fatos atravessam o confronto desta quinta-feira (9): de um lado, a seleção marroquina é em sua maioria formada por atletas nascidos na Europa, o que representa um movimento incomum em Copas anteriores. Juca Kfouri O VAR seletivo e a proteção à Argentina PVC Fifa abriu a porta do inferno com o caso Balogun João Paulo Charleaux Flávio calcula errado, e estratégia sai pela culatra José Paulo Kupfer FMI está mais otimista com o Brasil que os brasileiros Do outro, quase todos os convocados da França nasceram no país, mas têm sua identidade e nacionalidade questionadas devido ao racismo. "O confronto é simbólico porque coloca frente a frente a antiga potência colonial e um país que hoje usa o futebol como instrumento de identidade nacional, prestígio internacional e soft power. Não é apenas um jogo eliminatório. É um confronto carregado de memória colonial, migração, identidade e globalização", afirma Alexandre Coelho, professor da Faap e doutor em Relações Internacionais pela USP. Para Coelho, esse simbolismo mostra que, no futebol contemporâneo, as seleções já não representam só o território, mas a diáspora, a ancestralidade e os vínculos transnacionais. A relação entre os dois países é marcada pelo passado colonial, lembra o professor, uma vez que o Marrocos foi protetorado francês a partir de 1912 e conquistou sua independência em 1956. "Desde então, os dois países têm uma relação próxima, mas ambígua: há vínculos econômicos, culturais, migratórios e diplomáticos importantes, mas também tensões ligadas à imigração, ao racismo, aos vistos e à memória colonial", prossegue. Movimento não é novo na França, mas racismo persiste Não há como dizer que a presença de jogadores nascidos em outros países na seleção francesa seja uma novidade: Just Fontaine, o jogador com mais gols em uma só Copa do Mundo, por exemplo, nasceu no Marrocos e jogou o Mundial de 1958 pela França. Outro caso é o da Copa de 1982, quando havia no elenco francês seis jogadores que nasceram fora do país. Continua após a publicidade Neste Mundial, porém, 23 dos 26 convocados à seleção nasceram na França. Nem mesmo a presença massiva de nascidos no país impediu os ataques racistas aos atletas dos "Bleus", que se multiplicaram nas redes sociais, questionando suas nacionalidades e os definindo como africanos somente pela cor da pele. O jogador francês Kylian Mbappé e a senadora paraguaia Celeste Amarilla; parlamentar fez comentários racistas sobre o atacante Imagem: Reuters; Reprodução/Redes sociais O caso mais notório foi o de Celeste Amarilla, senadora do Paraguai, que se referiu a Mbappé de forma racista e o chamou de "camaronês colonizado, fingindo ser francês, ressentido, novo-rico, arrogante e feio". O atacante respondeu : "Você é uma senhora desprezível e indigna de sua função. Você não representa o Paraguai, um país que demonstrou paixão e honra ao longo de toda a competição. Por causa de sua irresponsabilidade e de seu racismo assumido, o mundo inteiro já esqueceu a campanha e o esforço histórico realizados pelos jogadores paraguaios nesta Copa do Mundo", escreveu Mbappé. Críticas como a da senadora têm o racismo em seu cerne, aponta Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. "O racismo opera ao tirar a nacionalidade deles de franceses. Mbappé e tantos outros jogadores que nasceram na França são franceses. Eles (em alguns casos) têm pais que não são franceses, mas a questão é tirar desses jogadores negros a nacionalidade deles. É o racismo na forma mais cruel contra esses jogadores negros", afirma. Continua após a publicidade Ao UOL , Alexandra Mias, cônsul-geral da França em São Paulo, falou sobre o debate acerca da nacionalidade dos jogadores franceses: "Para nós, é muito claro. Nossa visão é que todo mundo pode se tornar francês, é uma nacionalidade muito aberta. Tivemos várias ondas de imigração no país e as pessoas se tornam francesas, não temos essa polêmica. São francesas mesmo. Bem como o Brasil é um país de muita diversidade e a gente acha que é uma riqueza, é a mesma dinâmica na França. Ficamos muito felizes de ver que pessoas com padrão diferente possam representar a riqueza da nação francesa." Marcelo Carvalho lembra que, em casos de outros jogadores não negros, não há a crítica sobre suas nacionalidades a partir de sua ascendência. "Ninguém contesta o Haaland, que nasceu na Inglaterra, mas é uma pessoa branca. Sempre se vai contestar pessoas pretas para dizer que não representam os países ditos como brancos", pondera. Há outros casos na própria seleção francesa, para além de Fontaine: ambos brancos, Raymond Kopa, descendente de poloneses, e Michel Platini, de família italiana, não tiveram sua nacionalidade questionada. Precisamos lembrar que a França é um país que colonizou grande quantidade desses países que hoje têm pessoas que moram na França. Tudo isso é parte desse processo da colonização, mas hoje não aceitam mais essas pessoas. Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol Marrocos: projeto e identidade Soufiane Rahimi, do Marrocos, comemora o terceiro gol da equipe ao lado de Achraf Hakimi Imagem: Hannah McKay Se ao longo das Copas do Mundo o movimento mais comum era o da seleções europeias incorporarem talentos de outros continentes - muitas vezes de países colonizados -, como a bicampeã Itália na década de 1930, há um caminho inverso nos últimos Mundiais que se consolidou na edição de 2026. E, neste caso, a equipe marroquina é a de maior destaque. Continua após a publicidade Nos últimos anos, o país passou por um projeto para, a partir do trabalho de olheiros, identificar talentos nascidos na Europa e convencê-los pela influência de suas famílias e pelo vínculo da diáspora marroquina. Em 2026, a estratégia mostra ter surtido efeito: são 19 jogadores da seleção marroquina nascidos no exterior. Entre eles, os destaques Achraf Hakimi e Brahim Díaz, nascidos na Espanha, e o goleiro Yassine Bounou, o Bono, que nasceu no Canadá. Ao incorporar jogadores nascidos fora do país como parte legítima de sua comunidade nacional, reflete Alexandre Coelho, o Marrocos "mostra como a globalização transformou a diáspora em recurso esportivo, identitário e diplomático". Do ponto de vista das escolhas dos atletas pelos países de suas famílias, Marcelo Carvalho aponta o orgulho de representar o país dos pais e ancestrais, mas observa também a influência do racismo e da xenofobia - no caso, em evitá-los. "É também parte desse processo da luta. Porque você vai viver em um lugar que tentam negar de ti esse pertencimento. O jogador vai pensar: 'Já que a violência está tão presente, não quero fazer parte disso'", argumenta. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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