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Tradição e modernidade: os estádios da Copa do Mundo de 2026 A instalação de um equipamento de publicidade com menção à Copa do Mundo no mesmo lugar de um mural artístico na cidade de Dallas, no estado americano do Texas, criou um imbróglio entre o artista responsável pela pintura, a Fifa e órgãos locais. Robert Wyland, responsável pela arte, pede 25 milhões de dólares - cerca de R$ 130 milhões na cotação atual - em um processo movido contra a entidade máxima do futebol. Dallas é uma das 16 cidades-sede do torneio, com o estádio local tendo capacidade para 94 mil torcedores. Serão nove jogos no local, inclusive um das oitavas e outro de semifinal, no espaço inaugurado em 2009 e que conta, atualmente, com o maior telão do mundo. 1 de 2
Robert Wyland em 1992 em frente a um de seus maiores murais da carreira — Foto: Getty Images Robert Wyland em 1992 em frente a um de seus maiores murais da carreira — Foto: Getty Images Como parte do trabalho de divulgação dos jogos na cidade, um prédio foi escolhido para abrigar um dos materiais de publicidade, o que é comum em eventos deste porte. Os trabalhos preparatórios, com a pintura com tinta branca, até foram iniciados, mas foram interrompidos, já que o espaço de 25 metros de altura abrigava o Ocean Life ("Vida Oceânica", em português), mural pintado no final dos anos 1990 por Robert Wyland, que atualmente tem 69 anos. Radicado na Flórida, ele conta com trabalhos espalhados por 17 países, sendo reconhecido internacionalmente por retratar baleias em armazéns e prédios comerciais com traços mais pacíficos e graciosos e coloridos, bem diferente de como os maiores mamíferos do planeta costumam ser associados. Com a escolha de locais de importante circulação, os murais acabam sendo incorporados à paisagem urbana, como foi o caso do pintado em Dallas. Mesmo com tons desbotados e rachaduras, em função do tempo em que foi criado, o Ocean Life havia criado um vínculo com os moradores da cidade, conforme relata o jornal britânico The Guardian. A obra até integrava o plano de restauração do artista, algo comum em sua rotina, mas não houve tempo. - Ela (assistente) me disse que alguém ligou para avisar que estavam cobrindo o mural com tinta branca ou azul, acho. (...) Fiquei chocado. Fui completamente pego de surpresa - afirmou Wyland, que desde os 14 anos nutre certo fascínio pela vida marinha e, em 1981, realizou a primeira pintura com foco em divulgar a conservação dos oceanos. 2 de 2
Robert Wyland está processando a Fifa e alega que entidade destruiu seu mural — Foto: Getty Images Robert Wyland está processando a Fifa e alega que entidade destruiu seu mural — Foto: Getty Images Robert também começou a receber relatos da supressão da pintura. Segundo ele, outras obras haviam desaparecido no decorrer dos anos, como em decorrência da demolição de um prédio, mas neste caso, ninguém foi avisado ou consultado. Assim que souberam do motivo, a equipe entrou com uma notificação extrajudicial para interromper a nova pintura e, dias depois, iniciaram o processo em que pedem a indenização milionária, que, segundo o artista, ser doada para instituições de caridade da cidade. O processo cita a Lei de Direitos dos Artistas Visuais, de 1990, que garante aos artistas de "reconhecido prestígio" proteção caso suas obras sejam destruídas de maneira intencional ou negligente. De acordo com o The Guardian, o valor pedido será o maior em reivindicações com base nesta legislação. - Às vezes, dinheiro é a única linguagem que as pessoas entendem. (...) O valor precisava ser grande o suficiente para servir de alerta a quem chega a uma comunidade e simplesmente destrói uma obra de arte que faz parte de sua identidade. Os direitos dos artistas não dizem respeito apenas aos artistas. Dizem respeito também à arte pública que traz tanta alegria às pessoas que vivem em uma cidade - disse Wyland. A menos de uma semana para a bola começar a rolar cidade, com o confronto entre Holanda e Japão, os trabalhos no novo mural permanecem interrompidos. Os proprietários do prédio deixaram claro que apenas cederam o espaço para um projeto de arte pública e que não lucram nada com isso. A Fifa, por sua vez, disse ao Guardian que não teve “qualquer envolvimento nisso”, encaminhando todas as perguntas ao comitê da cidade-sede. O comitê organizador local reconheceu falhas na comunicação (e isentou a Fifa de culpa), enquanto a Downtown Dallas, agência local de desenvolvimento econômico, tentou se distanciar da controvérsia, afirmando que participou apenas das discussões iniciais sobre o mural da Copa. E-mails obtidos pelo jornal "Dallas Morning News" na semana passada contam uma história diferente. Neles, um funcionário da Downtown Dallas aponta a obra de Wyland como um local ideal para receber um mural da Copa do Mundo. - O mural atual tem mais de 30 anos e já passou de sua vida útil - escreveu o funcionário. - A Mona Lisa passou de sua vida útil? Você diria que uma pintura de Van Gogh passou de sua vida útil? [Meus murais] estão aí há muito tempo. Talvez tenham desbotado um pouco ou apresentem rachaduras. Isso é absurdo. Como uma única pessoa pode fazer esse julgamento em nome de todos os moradores de Dallas? Eles vão tentar distorcer tudo - rebateu Wyland. Outras questões continuam sem resposta: se a Fifa ou o comitê organizador queriam apenas promover a Copa do Mundo, por que não cobriram temporariamente a lateral do prédio? Havia precedente para isso: durante oito anos, a obra de Wyland em Dallas ficou escondida atrás de banners publicitários antes de reaparecer durante a pandemia. Wyland espera obter esclarecimentos nos tribunais, onde sua equipe jurídica poderá “seguir o rastro do dinheiro”, como ele diz. Mesmo que tivesse a oportunidade, o artista afirmou que provavelmente não repintaria o mural. Trinta anos após sua criação, recriar uma obra daquela dimensão seria um enorme desafio para alguém prestes a completar 70 anos. O comitê organizador local ainda não revelou detalhes sobre a obra que pretendia colocar no lugar do mural de Wyland, embora seja legítimo questionar, neste momento, se ela chegará a ser instalada diante da reação negativa gerada. - Isso é claramente uma história de Davi contra Golias. (...) Eles são uma organização bilionária, e eu sou apenas um artista com uma pequena fundação. Mas vou dizer uma coisa: eles escolheram o artista errado e a obra errada. Não vou ficar parado e deixar que escapem impunes - completou Wyland.