Conteúdo Original
Futebol Nos últimos dez anos, só um em cada 10 treinadores do Brasileirão é negro Guilherme Padin Do UOL, em São Paulo 05/06/2026 12h00 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Roger Machado foi demitido após dois meses no São Paulo Imagem: Marcello Zambrana/AGIF Em um país no qual pretos e pardos são a maioria da população (56%, segundo o IBGE), só um técnico da Série A do futebol é negro. O posto é de Jair Ventura, que comanda o Vitória, 13º colocado do Brasileirão. Até o mês passado, eram dois: Roger Machado foi demitido do São Paulo em 13 de maio, após a eliminação na Copa do Brasil. O trabalho do comandante gaúcho durou só dois meses no Morumbis. Ele teve bons resultados no início - o aproveitamento foi de 57% nos 11 primeiros jogos. Mas pesava contra ele um descontentamento dos torcedores com a diretoria devido à saída do argentino Hernán Crespo, e ele chegou questionado e criticado pela torcida antes de estrear . Quando oscilou, foi rapidamente sacado. A demissão veio após a queda contra o Juventude. É uma história comum para todos os técnicos do futebol verde-amarelo. Mas mais comum para técnicos com a cor de Roger. O UOL procurou seis treinadores negros para avaliarem o cenário em que se encontra o racismo em torno de suas funções no futebol brasileiro. Um aceitou falar: Orlando Ribeiro, que comandou o Santos em 2022. "Todo trabalho tem um momento de oscilar. Há uma paciência menor conosco. Deveríamos ter mais condições para o treinador negro", afirma. Milly Lacombe Casemiro, Endrick, entrada dura e a panela revelada Josias de Souza Feitiço do terrorismo pode enfeitiçar Flávio Bolsonaro Alexandre Borges Perdão de juíza a Monique é uma aberração jurídica Mariliz Pereira Jorge Caso Henry Borel: o perdão da juíza insulta as mulheres "O futebol não aceitou negros e negras, ele tolera. Com os treinadores, isso vai mais ou menos no mesmo lugar. A paciência é menor, é quase nulo o entendimento de que aquela pessoa tenha capacidade intelectual. E a gente nem questiona por que negros e negras não estão nesse lugar." Marcelo, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol Quantos são os treinadores negros? Nesse contexto, o UOL listou os 159 treinadores que passaram pelos 20 times da Série A desde 2016 e fez uma descoberta importante: em um país de maioria negra (45,3% de pardos e 10,2% de pretos), os treinadores pretos ou pardos representam apenas 11% do total. A identificação foi feita por uma banca de heteroidentificação racial, o mesmo processo usado para evitar fraudes nas cotas raciais, que recebeu o nome e fotos dos profissionais. O método identificou assim os treinadores: 89,3% são brancos (142) 8,2% são pardos (13) 2,5% são pretos (4) "Os [treinadores] pretos estão sub-representados quatro vezes menos; os pardos, quase seis vezes menos, e os brancos, duas vezes mais, ou seja, quase 100% a mais que o percentual de brancos na sociedade", analisa Santa de Souza, responsável pela banca. Continua após a publicidade Relacionadas Júlio Baptista mira ser técnico, mas diz: 'Nós, negros, somos penalizados' Roger Machado discursa sobre racismo após vitória: 'Avanços são pequenos' Andrade discute racismo no futebol: 'Se você pensar, não tem diretor negro, também' "O período que vivemos da escravidão está muito presente no futebol. A baixa presença de técnicos negros se dá por uma estrutura racista" Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ao UOL Esporte. É uma situação diferente daquela dos jogadores: cerca de seis em cada dez são negros (57,9%, segundo estudo publicado em 2024 pela Escola de Educação Física e Esportes da USP, que levou em conta os elencos das Séries A e B do Brasileirão daquele ano), o que indica que, para a função de liderança e coordenação, o profissional preto ou pardo é desconsiderado na elite do futebol brasileiro. "O racismo está estruturado na sociedade brasileira e afeta o futebol. Da mesma maneira que tivemos dificuldades em relação ao preconceito com os atletas, podemos dizer que acontece com treinadores e gestores", avalia Orlando Ribeiro. Responsável pelo levantamento da USP, o pesquisador Donald Veronico fala em sub-representatividade: "O que explica que por volta de 60% dos jogadores sejam negros e os treinadores sejam por volta de 10%? Isso ocorre em função do racismo". "Desde 2014 quebramos, até certo ponto, esse silenciamento, e que mais pessoas negras falassem sobre racismo. Tivemos uma reação do meio esportivo, uma tentativa de silenciamento. A personificação dessa tentativa é Roger Machado. Qualquer treinador negro hoje não vai falar [sobre racismo], porque vai pensar no que está acontecendo com o Roger", avalia Marcelo Oliveira, do Observatório, sobre por que os treinadores negros não se sentem à vontade para se manifestar. Futebol, a caricatura de uma sociedade "Para mim, o futebol amplifica, cristaliza e aponta como somos como sociedade. O organismo social futebol é a caricatura do que somos". A frase de Roger Machado, um dos poucos treinadores negros na elite do futebol brasileiro, em 2024, joga luz a um problema que não pertence apenas ao âmbito esportivo. Continua após a publicidade Gerentes e diretores negros recebem em média 34% menos do que brancos nas mesmas funções, segundo pesquisa publicada pelo IBGE em dezembro. No mesmo estudo, brancos tinham ganhos médios de R$ 9.831, enquanto pretos e pardos nos mesmos cargos recebiam R$ 6.446. Imagem: Arte/UOL Os dados também apontaram decréscimos substanciais entre profissionais da ciência e intelectuais (R$ 2.220 a menos), trabalhadores qualificados da agropecuária, da caça e da pesca (R$ 1.627), técnicos e profissionais de nível médio (R$ 1.238) e membros das Forças Armadas, policiais e bombeiros (R$ 934). Outro estudo, da consultoria Indique Uma Preta, apontou que 8% das pessoas negras ocupam cargos gerenciais. Entre as mulheres em cargos gerenciais, as negras são 31%; entre os homens, negros são 28,6%. "Um país que foi criado em cima de 400 anos de escravidão. É impossível que a gente não traga vestígios dele" Roger Machado Leia a nota metodológica elaborada por Santa de Souza, responsável pelo procedimento de heteroidentificação Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Real quer estrela do Bayern e topa pagar quase R$ 900 milhões, diz jornal Hamilton lidera em Mônaco em dia de domínio da Ferrari e Audi no top 10 10 sex toys para surpreender e deixar o Dia dos Namorados mais quente Lula sanciona sem vetos lei da nova CNH com renovação automática Paul McCartney diz que briga com John Lennon no fim dos Beatles doeu