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Futebol Minha vida em um carro: o drama de sem-teto nos EUA que a Copa ignora Pedro Lopes Colunista do UOL, em Nova Jersey (EUA) 18/07/2026 05h30 Deixe seu comentário 0:00 / 0:00 Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× No estacionamento de um supermercado em Nova Jersey, nos EUA, sob um sol de quase 40 graus, um carro estacionado chama atenção. Ele é equipado como uma casa. Há cama, utensílios de cozinha, roupas, um paletó pendurado. Tudo impecavelmente limpo e arrumado. Há três anos, um mecânico brasileiro chama aquele carro de casa. O UOL chegou ao local após dias de investigação sobre a crise de moradia que atinge os EUA, conversando com pessoas da comunidade de imigrantes. Vamos chamá-lo de Paulo, um nome fictício, porque ele não quer ser identificado. Mauro Cezar Broxante, 3º lugar só atrai as seleções menores Joildo Santos Pix virou motivo de tarifa porque funcionou bem Paulo Camargo Os jovens perderam a ambição de serem líderes? Julián Fuks Elogio da desistência: o fantástico caso de Messi Ele tem medo do ICE, a polícia de imigração norte-americana empoderada por Donald Trump. Semana após semana, pipocam na comunidade brasileira casos de pessoas levadas na calada da noite, presas por dias, sem acesso a familiares e advogados. Carro onde mora um brasileiro em Nova Jersey (EUA) Imagem: Pedro Lopes/UOL Mas não é só isso. "Há três anos, sofri um acidente", diz, contando que as despesas com o hospital o deixaram falido. A voz fica embargada, mas ele continua. "O seguro até hoje não pagou nada, e eu fiquei impossibilitado de trabalhar. Hoje, vivo no carro". Paulo é mecânico de formação, inteligente e articulado. Chegou ao país há cinco anos legalmente. Durante os primeiros dois anos nos EUA, o sonho americano parecia realidade: a vida era próspera graças a um emprego como motorista de caminhão. Após o acidente, teve de fazer três cirurgias nas costas. A conta hospitalar ficou impagável e começou uma disputa na Justiça com o seguro para ver quem seria o responsável. Essa disputa até hoje não terminou. "Eu fiz parte da minha recuperação das cirurgias nesse carro, sozinho. Até hoje sinto muita dor, nas costas, no pescoço, na cervical, faço trabalhos que não poderia fazer, mas sempre que aparece, faço". Continua após a publicidade O carro, que terá o modelo omitido para preservar o anonimato, não custaria menos de R$ 100 mil no Brasil. Nos EUA, vale hoje três mil dólares. Paulo toma banho diariamente em uma academia da região, e conta com uma pequena ajuda da igreja evangélica que frequenta junto com outros brasileiros. Paulo montou uma espécie de oficina a céu aberto ali mesmo, no estacionamento. Trabalha em carros levados por clientes, em sua maioria também imigrantes. "A culpa de tudo o que acontece nesse país é do (Joe) Biden (ex-presidente norte americano). Deixaram entrar gente demais", diz um desses clientes, brasileiro, enquanto tem seu carro consertado. Paulo espera o desfecho de seus processos judiciais para voltar ao Brasil. Sonha com uma indenização. No país em que nasceu, quer reconstruir a sua vida. A alguns metros do brasileiro, um equatoriano vive com alguns cães e gatos. Tem problemas de mobilidade no pescoço, também fruto de uma intercorrência médica. De vidros fechados e com o ar ligado para suportar o calor, pede para não ser incomodado. Há pelo menos outros dois carros no mesmo estacionamento com características claras de que alguém vive neles. Um funcionário no local explica: os donos estão trabalhando, deixam seus carros às 5h e só retornam à noite, para dormir. Os veículos são suas casas, algo que se tornou parte da realidade norte-americana. Continua após a publicidade Estacionamentos de supermercados nos EUA viram opção de moradia para sem-teto Imagem: Pedro Lopes/UOL Uma Copa para os ricos em meio a uma crise nacional A vida nesse estacionamento se desenrola a pouco mais de 20 minutos de Morristown, subúrbio de alta renda que foi a casa da seleção brasileira em Nova Jersey durante a Copa do Mundo e que, às vésperas da final, recebe a Argentina. Para o palco da final, o Metlife Stadium, são cerca de 30 minutos. Um ingresso para a decisão do Mundial, entre Argentina e Espanha, custa a partir de US$ 4 mil. Enquanto isso, o salário mínimo médio dos EUA é de US$ 11,50 por hora - em 40 horas semanais, isso dá menos de US$ 2 mil por mês. Dados do Conselho Federal Interagências sobre Situação de Rua dos EUA (USICH) apontam que 40% a 60% da população sem teto do país possuem um trabalho em tempo integral. E, de acordo com o órgão, hoje nenhum estado ou condado norte-americano oferece uma acomodação de um quarto que possa ser pago com esse salário mínimo. O estudo diz que um trabalhador recebendo salário mínimo precisaria trabalhar, em média, 86 horas semanais para ter acesso a uma acomodação básica. "As pessoas imaginam que quem está em situação de rua tem alguma questão de abuso de substâncias ou de saúde mental. Mas muitas vezes, é uma questão financeira. É uma conta de quanto você ganha e quanto custa para viver aqui que não fecha" diz Dana Robertson, enfermeira do North Jersey Community Research Initiative (NJCRI). "Algumas das pessoas que se consultam aqui tem empregos formais em tempo integral, têm acesso a transporte", explica Dana. Continua após a publicidade O NJCRI é uma entidade que atua na região de Nova Jersey desde 1988, atendendo 20 mil pessoas em situação de vulnerabilidade, e abriu as portas a uma visita da reportagem. A entidade oferece tratamento para abusos de substância, alimentação, cuidado médico e outros serviços à população sem-teto local. "Aqui nós vemos veteranos, jovens, pessoas que tinham carreiras. Trabalharam para grandes corporações, um dia foram demitidas e nunca se reergueram" diz Ash'Shanae Cohen, gestora de casos do NJCRI. O Departamento de Moradia dos Estados Unidos (HUD) não mantém uma base de rastreamento específica para pessoas que vivem em seus carros, mas estima que elas correspondam a algo entre 20% e 30% da população de sem teto do país. Nos últimos dois anos, essas pessoas passaram a ser alvo de repressão e restrições cada vez maiores. Em Nova Jersey, pelo menos nove cidades proibiram o uso de locais públicos para dormir em carros. Em uma delas, Toms River, a violação pode levar até a 90 dias de prisão. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. 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