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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Como a espanholização está acabando com o prazer no futebol brasileiro Danilo Lavieri Colunista do UOL 20/08/2026 10h14 Deixe seu comentário Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Arias, do Palmeiras, e Paquetá, do Flamengo, disputam bola durante partida válida pelo Brasileirão Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF A espanholização do futebol brasileiro está tornando o futebol brasileiro ainda mais doente. E, antes que alguém interprete isso como uma defesa de desempenho ruim, é preciso deixar claro: SIM, O PALMEIRAS PRECISA JOGAR MAIS BOLA . A questão aqui é outra. É refletir sobre como a concentração de poder, combinada com uma sociedade cada vez mais contaminada pela lógica das redes sociais, está mudando a maneira como o torcedor enxerga o futebol. Essa foi uma das boas discussões do UOL News Esporte desta manhã, entre Eduardo Tironi, Arnaldo Ribeiro, Julio Gomes e Walter Casagrande Jr. E o debate vai muito além de Palmeiras ou Flamengo. No futebol, sempre só um foi campeão. Mas, antigamente, vencer um clássico era motivo de comemoração. Eliminar um rival tinha valor. Ser campeão estadual importava. Uma boa campanha podia transformar uma temporada em algo marcante mesmo sem taça. Hoje, a régua mudou. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo Palmeiras e Flamengo passaram a ocupar no futebol brasileiro uma posição semelhante à de Barcelona e Real Madrid na Espanha. Os outros clubes acabam empurrados para o papel de Villarreal, Sevilla e Athletic Bilbao. De vez em quando aparece um Atlético de Madrid para interromper a hegemonia e normalmente arrebentando as suas finanças para isso. Assim, Palmeiras e Flamengo ganham de Corinthians, São Paulo, Santos, Fluminense, Vasco ou Botafogo e a reação é quase sempre: fizeram a obrigação. Empatam, crise. Perdem, fracasso. "Mas eles têm muito mais dinheiro, muito mais estrutura." Sim. Por isso mesmo precisam disputar mais, chegar mais longe e estar constantemente entre os candidatos aos títulos. O problema é transformar essa vantagem em determinismo. O futebol não funciona assim. Ele permite Mirassol, Leicester, Paulista de Jundiaí e Santo André. Só de falar o nome desses times vocês certamente lembram o que eles fizeram. Permite o Real Madrid dos Galácticos perder, o PSG de Messi, Neymar e Mbappé fracassar e a seleção brasileira de 1982 ser eliminada. O futebol existe justamente porque o resultado não é completamente proporcional ao investimento. Só que estamos entrando em uma vala comum em que tudo precisa ser explicado pelo dinheiro. Se ganhou, o planejamento estava certo. Se perdeu, estava errado. Se o mais rico não foi campeão, "pipocou". Se o mais pobre venceu, foi "zebra". E as redes sociais pioram tudo. Continua após a publicidade A lógica delas é binária. Ou o jogador é craque ou pereba. O técnico é gênio ou burro. O time está voando ou em crise. Não existe processo, contexto ou meio termo. Existe o último jogo. Uma vitória em clássico deixa de ser comemorada porque "era obrigação". Um vice deixa de ter valor. Uma boa campanha é esquecida porque não terminou com taça. O torcedor passa a assistir não para celebrar o que aconteceu, mas para procurar o que deu errado. Você se alivia com a vitória, você não comemora. Essa talvez seja a parte mais perversa da transformação. A paixão virou fiscalização permanente. A espanholização não é apenas a concentração de títulos. É a concentração das expectativas. Quando dois clubes têm dinheiro, estrutura e elenco muito acima dos demais, eles passam a disputar uma competição paralela. E o restante começa a ser avaliado apenas pela capacidade de incomodá-los. O problema não é cobrar Palmeiras e Flamengo. Eles precisam ser cobrados. O problema é acreditar que dinheiro compra resultado e que o futebol deixou de ser futebol para virar uma planilha de Excel. Investiu R$ 1 bilhão e automaticamente vai ganhar de todo mundo que investiu menos. Se chegarmos a esse ponto, teremos destruído justamente o que torna o esporte fascinante: a possibilidade de o mais fraco vencer. E talvez o maior perigo da espanholização não seja termos dois clubes muito fortes. É passarmos a acreditar que o futebol só é bom quando o resultado obedece ao dinheiro. Aí teremos um futebol mais rico, mais profissional e muito mais previsível. E também muito mais chato. E não se trata aqui de incentivar loucuras e gastos irresponsáveis. Mas lembrar que dinheiro no futebol não significa garantia de três pontos na tabela. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Danilo Lavieri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Cúpula do Master citou advogada que recebeu R$ 33 mi como 'sócia' de Gilmar Ídolo na Ítalia, Sandro Mazzola morre aos 83 anos Qual exercício ajuda a aliviar gases e 'destravar' o intestino mais rápido? Empresário é condenado por agredir ex-Miss Rio Branco; defesa vai recorrer Cleitinho diz se arrepender de foto com Virginia na CPI: 'Não era momento'