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No Mundial de Ciclismo de Montreal, a Bélgica colocou bilhetes nas garrafas de água dos ciclistas. Sem rádios, a equipe usou pedaços de papel para informar quem estava na fuga, qual era a diferença para os líderes e até quando era preciso atacar ou perseguir. Em um esporte de alta tecnologia, uma garrafa virou o principal canal de comunicação entre a equipe e o atleta.
A solução expôs um problema que o telespectador dificilmente percebe: quanto um ciclista realmente consegue saber sobre uma corrida de seis horas quando está no meio de um pelotão com cerca de 180 atletas? Ataques, quedas, problemas mecânicos e grupos que se formam à frente podem passar despercebidos. E uma informação aparentemente simples pode mudar completamente uma decisão.
Normalmente, essas informações chegam pelo rádio. O diretor esportivo, dentro do carro da equipe, acompanha a situação da prova e pode avisar sobre fugas, diferenças de tempo, perigos no percurso ou mudanças de estratégia. Sem os fones, os ciclistas precisam recorrer a alternativas como os quadros colocados à beira da estrada, auxiliares espalhados pelo percurso, companheiros de equipe e até uma visita ao carro. Foi aí que entraram os bilhetes nos bidons. A solução, porém, também tinha limitações: o atleta precisava pegar a garrafa correta e, caso a perdesse, perdia também a informação.
A ausência dos rádios também pode aumentar a importância da leitura individual da corrida. Foi o que aconteceu na prova masculina de Montreal. Brandon McNulty atacou a 32 quilômetros da chegada e chegou a abrir mais de um minuto para o grupo que tinha nomes como Mathieu van der Poel, Tom Pidcock, Ben Healy e Isaac del Toro. A vantagem caiu para cerca de dez segundos na parte final, mas a perseguição não se organizou de forma suficiente. McNulty venceu após 273,4 quilômetros e 6h17 de prova, conquistando o primeiro título mundial masculino de estrada dos Estados Unidos desde 1993.
O debate, porém, vai além da estratégia. A União Ciclística Internacional (UCI) também discute o impacto dos rádios na segurança. A entidade já testou provas sem comunicação e modelos em que apenas dois ciclistas por equipe podiam utilizar os fones. Entre os argumentos favoráveis estão a possibilidade de avisar rapidamente sobre acidentes e obstáculos. Do outro lado, o órgão aponta que os equipamentos podem distrair os atletas e que ordens simultâneas para avançar no pelotão antes de trechos perigosos podem aumentar a disputa por posição.
No fim, retirar o rádio não transforma automaticamente uma corrida em mais emocionante, assim como a comunicação não torna uma prova previsível. O que muda é a quantidade de informação disponível para quem está na bicicleta. Sem o contato constante com o carro da equipe, o ciclista precisa observar mais, interpretar os adversários e decidir por conta própria quando atacar, perseguir ou economizar energia.