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Abandonado: veja o que restou do antigo estádio Godofredo Cruz, do Americano Se você for distraído, é possível caminhar pela Avenida 28 de Março, em Campos dos Goytacazes, sem sequer perceber que ali havia um grande estádio de futebol. Pessoas correm e fazem exercícios todos os dias em volta daquilo que um dia foi o Godofredo Cruz, casa do Americano. Mas basta o olhar um pouquinho mais atento para reparar a bilheteria abandonada, com o buraco pelo qual os torcedores retiravam seus ingressos. As colunas que sustentavam o teto do portão de acesso ou a entrada totalmente concretada para um antigo centro administrativo. Ruínas que resistem ao abandono. 1 de 10
Situação de abandono do antigo Godofredo Cruz: pelo buraco, é possível ver o tamanho do matagal no interior do terreno — Foto: Tébaro Schmidt / ge Situação de abandono do antigo Godofredo Cruz: pelo buraco, é possível ver o tamanho do matagal no interior do terreno — Foto: Tébaro Schmidt / ge Antes da demolição, o Godofredo Cruz era o terceiro maior estádio do interior do Rio de Janeiro, atrás do Moacyrzão (em Macaé) e do Raulino de Oliveira (Volta Redonda). Chegou a registrar um público recorde de 22.853 pessoas no empate em 2 a 2 com o Flamengo de Zico e Junior pela Taça de Ouro de 1983, o Brasileirão da época. O estádio fundado em 1954 foi palco de muitas glórias do tradicional Americano, como a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no Brasileirão de 1975, os gols marcados por Paulo Roberto e Rangel. O clube de Campos deu trabalho para os grandes do Rio de Janeiro até o início deste século: em 2002, foi campeão da Taça Guanabara com uma virada sobre o Vasco de Romário, que marcou o único gol vascaíno na derrota por 2 a 1. O Godofredo Cruz estava lotado. Depois disso, as dívidas sufocaram financeiramente o Americano, em especial depois do seu primeiro rebaixamento no Carioca na história (em 2012). O clube não viu outra alternativa senão abrir mão do seu maior bem. Acertou, em 2013, o contrato de permuta com uma construtora de Campos chamada "IMBEG - Imbé Engenharia LTDA". Imagens aéreas de 2013 e de março de 2026 comparam a situação do terreno onde ficava o estádio Godofredo Cruz — Foto 1: Arquivo — Foto 2: Irvin Bas / ge O resumo do acordo: o clube entregaria para a empresa o estádio e tudo que existia no endereço da Avenida 28 de Março (piscina, sede administrativa...) e, em troca, receberia um complexo com estádio novo e centro de treinamento num terreno de quase 200 mil m² localizado no distrito de Guarus. — As dívidas eram muito pesadas para o clube, por isso optamos pela venda. A salvação era essa, caso contrário, teríamos pouco tempo de vida. Posso dizer que hoje o Americano é um clube sem dívida alguma — afirmou na época César Gama, então presidente do Americano. O ge teve acesso à íntegra da Escritura de Permuta registrada no dia 28 de agosto de 2013 no cartório do 11ª ofício, de Campos. O complexo do Godofredo Cruz foi avaliado em R$ 26,7 milhões na ocasião. A IMBEG pagou ao clube R$ 5,6 milhões de torna e se comprometeu a quitar o restante do valor "com as benfeitorias e consoante projeto arquitetônico" do estádio e do CT em Guarus. 2 de 10
Trecho da Escritura de Permuta firmada entre Americano e IMBEG em 2013 — Foto: ge Trecho da Escritura de Permuta firmada entre Americano e IMBEG em 2013 — Foto: ge Concluída a troca de propriedades, o processo de desapropriação do Godofredo Cruz começou ainda nos últimos meses de 2013, mas a estrutura do local, as arquibancadas e tudo que fazia parte do complexo só foram demolidas por completo em 2014. Um dos maiores e mais tradicionais estádios do Rio de Janeiro deixou de existir. De acordo com notícias da época, o plano da construtora era subir prédios residenciais e empresariais, mas nem uma parede sequer foi erguida no local desde então. A IMBEG não quis comentar o caso ou esclarecer o porquê do terreno do antigo estádio estar abandonado há mais de 10 anos. Uma engenheira da empresa confessou em conversa com o ge que esse cenário não deve mudar tão cedo. Procurada, a prefeitura de Campos disse apenas que, "por se tratar de área privada, eventuais projetos dependem de iniciativa dos proprietários e do cumprimento das exigências legais e urbanísticas vigentes". O que o ge encontrou A reportagem do ge foi até Campos dos Goytacazes, município no Norte Fluminense que fica quase na divisa com o Espírito Santo. São 280 quilômetros de distância e aproximadamente quatro horas de viagem de carro saindo do Rio de Janeiro. Logo de cara, percebe-se que todas as referências ao Americano ou ao antigo estádio foram removidas, com exceção da mistura do preto e do branco no muro que circunda o terreno abandonado. As pichações espalhadas de um canto a outro são só o primeiro sinal do cenário de desleixo. 3 de 10
Ruínas do Godofredo Cruz têm sinais de que o local está sendo usado como abrigo para pessoas em situação de rua — Foto: Tébaro Schmidt / ge Ruínas do Godofredo Cruz têm sinais de que o local está sendo usado como abrigo para pessoas em situação de rua — Foto: Tébaro Schmidt / ge 4 de 10
Antiga bilheteria é uma das poucas estruturas intactas no antigo estádio Godofredo Cruz, em Campos — Foto: Tébaro Schmidt / ge Antiga bilheteria é uma das poucas estruturas intactas no antigo estádio Godofredo Cruz, em Campos — Foto: Tébaro Schmidt / ge Em um dos portões de acesso, há muito lixo e restos de alvenaria no chão. Caixas de papelão e o que parece ser os restos de um sofá indicam que o local vem servindo de abrigo para pessoas em situação de rua. A estrutura de uma das bilheterias é uma das poucas lembranças intactas do estádio — dentro dela, muito mato e mais lixo. 5 de 10
Uma das portas do terreno do antigo estádio Godofredo Cruz acumula notificações do Centro de Controle de Zoonoses de Campos — Foto: Tébaro Schmidt / ge Uma das portas do terreno do antigo estádio Godofredo Cruz acumula notificações do Centro de Controle de Zoonoses de Campos — Foto: Tébaro Schmidt / ge Notificações do Centro de Controle de Zoonoses, informando que o agente não conseguiu acessar o local para verificar se há focos do mosquito da dengue, se acumulam em uma porta mais adiante. Ao ge , a prefeitura informou que a última inspeção com esse fim ocorreu em novembro do ano passado, mas que vai solicitar à empresa responsável pelo terreno "a limpeza do local" porque recentemente recebeu reclamações. Veja o que disse a prefeitura: "O terreno foi notificado pelo município em 2024, conforme edital nº 04/2024, e, à época, passou por limpeza. Não houve novos registros de reclamações até o início desta semana, quando uma nova demanda foi recebida. A Prefeitura informa que adotará as medidas cabíveis, incluindo nova notificação aos responsáveis, para que providenciem a limpeza do local. O Centro de Controle de Zoonoses e Vigilância Ambiental informa que a última visita técnica da equipe do Programa Municipal de Controle de Vetores (PMCV) foi realizada em 14 de novembro de 2025, com inspeção interna e externa, aplicação de larvicida e remoção de inservíveis. Após essa data, as equipes não conseguiram acessar a parte interna do terreno, que se encontra fechado com cadeados". O antes e depois da visa aérea do Godofredo Cruz em ângulo parecido — Foto 1: João Pimentel — Foto 2: Irvin Bas / ge O antes e depois do muro lateral do complexo do Godofredo Cruz — Foto 1: João Pimentel — Foto 2: Tébaro Schmidt / ge O antes e depois de um dos portões de acesso ao Godofredo Cruz — Foto 1: João Pimentel — Foto 2: Tébaro Schmidt / ge A IMBEG não permitiu a entrada da reportagem no local, mas o ge sobrevoou o terreno com um drone. As imagens aéreas mostram que o lugar está completamente tomado pelo matagal. 6 de 10
Imagem aérea do antigo Godofredo Cruz mostra que terreno está tomado por matagal — Foto: Irvin Bas / ge Imagem aérea do antigo Godofredo Cruz mostra que terreno está tomado por matagal — Foto: Irvin Bas / ge 7 de 10
Matagal toma conta do terreno onde ficava localizado o estádio Godofredo Cruz, em Campos — Foto: Tébaro Schmidt / ge Matagal toma conta do terreno onde ficava localizado o estádio Godofredo Cruz, em Campos — Foto: Tébaro Schmidt / ge E o novo estádio? O Centro de Treinamento Eduardo Augusto Viana da Silva, batizado em homenagem ao "Caixa D'Água", ex-presidente da Federação do Rio e torcedor ilustre do Americano, vem sendo utilizado pelo clube desde dezembro de 2015 . Os jogadores têm à disposição uma estrutura relativamente moderna, com dois campos, alojamentos, academia e área molhada. No mesmo terreno, está sendo erguido o novo estádio do Americano. Mas as obras sofreram atrasos seguidos de atrasos, e a data para a conclusão continua sendo uma enorme incógnita. A reportagem do ge sobrevoou o local (veja as imagens abaixo) para verificar a atual situação. A estrutura principal, com três arquibancadas, está de pé, mas ainda falta muita coisa para ser feita. Veja as imagens do centro de treinamento e da construção do novo estádio do Americano O contrato da permuta firmado em 2013 dizia que a IMBEG tinha um prazo de 48 meses (quatro anos), com tolerância de 180 dias (seis meses), para entregar o complexo pronto, incluindo o novo estádio. Aproximadamente 13 anos depois, o Americano segue sem ter onde jogar. A atual diretoria tem um acordo encaminhado com o rival Goytacaz para, mais uma vez, mandar os jogos da Série A2 do Carioca (equivalente à segunda divisão) no estádio Ary de Oliveira, o Aryzão. O Americano estreia na competição no dia 18 de abril, contra o America. 8 de 10
Imagem aérea do Centro de Treinamento Eduardo Augusto Viana da Silva, do Americano. Ao fundo, a construção do novo estádio — Foto: Irvin Bas / ge Imagem aérea do Centro de Treinamento Eduardo Augusto Viana da Silva, do Americano. Ao fundo, a construção do novo estádio — Foto: Irvin Bas / ge Em março de 2023, o Americano acionou a IMBEG na Justiça para executar a multa contratual pelo atraso na entrega do estádio e do complexo esportivo. O contrato prevê multa de 0,5% em cima do valor da torna (R$ 5,6 milhões) por mês, ou seja, cerca de R$ 28 mil. Pelos cálculos do clube na peça inicial do processo, entre juros e correção monetária, a construtora devia aproximadamente R$ 675 mil naquele momento. Na ação, clube e empresa discutem sobre as datas para conclusão das obras e os motivos do atraso. A IMBEG argumentou que os prazos foram renovados em duas ocasiões, ambas com acordos de re-ratificação de permuta assinados pelo clube, uma em janeiro de 2015 e outra em dezembro de 2018. E que, a partir disso, o que vale seriam os seguintes prazos: Construção do complexo esportivo social - até fevereiro de 2021 Construção de clube social para atividades de convivência e lazer - até dezembro de 2023 Entrega do terceiro campo de treinamento - até dezembro de 2023 Estacionamento com 670 vagas - até dezembro de 2023 Serviço de terraplanagem - até fevereiro de 2021 9 de 10
Obras do novo estádio do Americano estão assim em março de 2026 — Foto: Irvin Bas / ge Obras do novo estádio do Americano estão assim em março de 2026 — Foto: Irvin Bas / ge 10 de 10
Obras do novo estádio do Americano estão assim em março de 2026 — Foto: Irvin Bas / ge Obras do novo estádio do Americano estão assim em março de 2026 — Foto: Irvin Bas / ge A construtora mencionou o impacto da pandemia da Covid-19, que suspendeu todos os tipos de serviços, e disse que, em setembro de 2018, as obras foram embargadas por culpa do Americano, que não cumpriu "com as exigências administrativas necessárias" que eram de responsabilidade do clube. Por fim, solicitou a produção de prova pericial técnica de engenharia. Em manifestação recente, a defesa do Americano reconheceu a prorrogação de alguns prazos, mas afirmou que o limite deveria ser abril de 2022, já considerando os atrasos ocasionados pela pandemia. "Entretanto, é fundamental ressaltar que, mesmo considerando todas as dilações e o cenário de pandemia, a previsão final para a entrega do empreendimento era 20 de abril de 2022". Em fevereiro deste ano, o Americano se tornou SAF. O departamento de futebol passou a ser comandado pelo Grupo Boston City, que tem como sócios o empresário Renato Valentim e o ex-jogador Felipe Melo. A gestão, que não quis comentar o assunto com a reportagem do ge , tem trabalhado na aproximação com a IMBEG para resolver toda essa questão sem a necessidade de judicializá-la.