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Promessa do atletismo improvisa treino de salto no sertão do Piauí A imaginação fértil tem sido a principal aliada de Lielson Silva em busca do sonho de viver do atletismo. Campeão do salto triplo da região norte-nordeste, o jovem de 20 anos se desenvolve na modalidade em um terreno baldio, na cidade de Picos, no Piauí, onde a seca se exibe em meio à falta de chuva e às temperaturas altas, que se aproximam de 40º durante o ano todo. A caixa de salto é feita de forma improvisada, assim como todos os equipamentos utilizados por ele. - Para me manter focado nos treinos, eu uso minha imaginação. Quando tenho que saltar, me imagino num estádio cheio de gente, com as pessoas me aplaudindo. Alguns dias minha imaginação me leva longe, tão longe que chego a ficar nervoso na hora do salto - conta. 1 de 5
Lielson treina em campo baldio no sertão do Piaui — Foto: Winne Fernandes Lielson treina em campo baldio no sertão do Piaui — Foto: Winne Fernandes + Ex-recordista mundial júnior alega doping por bala de mascar, mas não se livra de 4 anos de suspensão O local dos treinos fica na região de Torrões, periferia da zona rural de Picos. O terreno baldio é desprezado pela comunidade. Como não tem iluminação, é uma área evitada pelos moradores por causa da insegurança. Sem uma pista adequada para treinar a menos de 300 quilômetros de distância, Lielson viu no terreno de chão batido uma oportunidade de mudar de vida. - Eu conheci o atletismo quando eu era criança, a gente ia só brincar de correr, de saltar. Quando era à noite estava todo mundo cansado, dormia cedo. Assim ninguém fazia besteira, não pensava em coisa errada. Fui evoluindo, começando a competir e aí foi virando coisa séria. Muitos desistiram no caminho, mas eu segui treinando no campo. Sozinho muitas vezes - explica. 2 de 5
Dona Pedrina, mãe de Lielson, em cozinha na casa da família — Foto: André Gallindo Dona Pedrina, mãe de Lielson, em cozinha na casa da família — Foto: André Gallindo Um dos seis filhos de dona Pedrina, o jovem viu a mãe, separada do pai, sustentar a família sozinha. A matriarca criou todos trabalhando na roça, pegando duro na enxada. Conforme foram crescendo, os mais velhos passaram a ajudar a mãe na plantação de milho e feijão. Apesar de ainda fazer 'bicos' na colheita do milho para contribuir com as contas da casa, Lielson tem uma vontade muito grande de romper o histórico da família e viver exclusivamente do atletismo. - Eu já fui competir com dois reais no bolso. Todos paravam para comer na estrada e eu ficava só olhando, só conseguia comer se meus amigos se juntavam e pagavam para mim. Mas eu ia mesmo assim e estava feliz com a oportunidade de competir. Sempre voltei com medalha. Uma vez pensei em pedir apoio às lojas da cidade, mas foi muito triste. Eu era mal tratado, e ninguém me apoiou. Lembro de parar na frente da escola e desabar no choro - conta. 3 de 5
Lielson trabalha na colheita do milho para ajudar em casa — Foto: André Gallindo Lielson trabalha na colheita do milho para ajudar em casa — Foto: André Gallindo Em 2024, Lielson participou do Troféu Brasil, a maior competição de atletismo da América Latina, e foi finalista. Ficou entre os dez melhores do Brasil no salto triplo. Também no ano passado, o jovem foi campeão entre os profissionais da Copa Norte-Nordeste, em Aracaju, onde alcançou a melhor marca da carreira, 15.28 metros. 4 de 5
Lielson treina em campo baldio no sertão do Piaui — Foto: Winne Fernandes Lielson treina em campo baldio no sertão do Piaui — Foto: Winne Fernandes Acostumado a lidar com a extrema pobreza desde a infância, Lielson achou que os dias sem alimentos e saneamento básico estariam contados com os resultados alcançados. Mas, não foi o que aconteceu. As adversidades bateram à porta mais uma vez e ele perdeu em 2025 as duas principais competições do ano. - Cheguei a comprar passagem para o Troféu Brasil, comprei antecipado porque era mais barato e minha única chance de ir. Acabou que a organização mudou o evento de local na última hora, e eu não tive dinheiro para viajar. Na Copa Norte-Nordeste, eu fui defender meu título e no dia da minha prova choveu. Eles adiaram o salto triplo, e eu não tive como comprar uma nova passagem de ônibus de Recife para Picos, eram 200 reais. Voltei arrasado - contou. Apesar das adversidades, Lielson não parou de treinar. Aos 20 anos, ele acredita que o ano de 2026 será determinante em sua carreira como atleta. Focado em mudar para São Paulo, onde estão as melhoras oportunidades do atletismo nacional, o jovem têm treinado de segunda a sábado no campo baldio em busca de melhores marcas. - As pessoas que moram aqui em Picos têm a mesma rotina, trabalham a semana, bebem final de semana. Eu quero ser diferente, quero ser reconhecido pelo que eu faço, ter outra realidade. Eu vejo todo mundo aqui como se fossem iguais. Eu quero ser diferente, quero competir fora do Brasil. Quero evoluir. Quero viver do atletismo - desejou. 5 de 5
Dona Pedrina, mãe de Lielson, em frenta à casa da família — Foto: Winne Fernandes Dona Pedrina, mãe de Lielson, em frenta à casa da família — Foto: Winne Fernandes Há dois anos, Lielson deixou de ser autodidata para evoluir com o auxílio de um treinador especializado no salto triplo. Túlio Moura, funcionário do Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo, é quem organiza e corrige os treinos do jovem de forma voluntária. Lielson grava as sessões e envia os vídeos para avaliação do técnico. - Já me vi nas Olimpíadas competindo entre os melhores do mundo. Não sei se vou conseguir, mas não vai ser por falta de esforço. Se depender da torcida da mãe Pedrina, o sucesso do filho já está garantido. - Ele é um menino muito dedicado. Sempre foi assim desde pequeno, na escola, em tudo. Quando ele passava fome ou não ia competir porque não tinha dinheiro, não dividia comigo para não me dar mais preocupação. Ele é diferente, foi o único da família a andar de avião. Eu tenho medo, mas deixo ele ir, voar atrás das coisas dele. Que Deus proteja Lielson e realize todos seus sonhos.