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Só para assinantes Assine UOL Opinião A Copa do Mundo é a continuação da geopolítica, por outros meios Juca Kfouri Colunista do UOL 24/06/2026 15h10 Deixe seu comentário Resumo Ouvir na voz do colunista 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Carlo Ancelotti durante evento de convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo Imagem: Reprodução/YouTube POR EDUARDO BRIGIDI DE MELLO* De pensar que a FIFA, das campanhas por inclusão, costumava se orgulhar de ter uma liga com mais membros que a ONU. Que as equipes de Irã e Estados Unidos posaram juntas para foto, no Jogo da Paz da Copa de 1998. Que a União Soviética participava de todas as competições, e chegou até a finalista da Eurocopa de 1988 (em Munique, ainda por cima). Nesta edição, os iranianos, que jogam em um país e dormem noutro, fazem uma corrida com obstáculos. Os uruguaios, obrigados a driblar cães farejadores no check-in do hotel, já entram cansados. O juiz somali, em impedimento antes de viajar, sem recurso ao VAR. As guerras proliferam e a Rússia, a única suspensa, alega ter partido para o contra-ataque - a recordar as disputas de 1812 e 1943, quando venceu os clássicos contra França e Alemanha, ambos jogando em casa. Sakamoto Jaques Wagner faz desserviço a Lula Nelson de Sá Chineses também têm sua CazéTV para ver a Copa José Saad Neto IA recria o gol mais bonito de Pelé marcado em 1959 Luciana Bugni Eu torço para a seleção ganhar cultura de Danilo As sanções seguem a tradição do futebol ocidental, que distribui cartões vermelhos unilaterais, com muitos pesos e diferentes medidas: na Copa ou na Assembleia Geral da ONU, atletas de alguns países são proibidos de entrar em campo ou de circular, em violação das obrigações do país-sede. Por essas e por outras, um amigo diz que a Copa emula uma guerra, felizmente sem mortos. Parece mais um de seus arroubos, mas a FIFA, de fato, agora concede o "Prêmio da Paz - o Futebol Une o Mundo". Mais uma prova de que no Mundial, assim como na geopolítica, a simbologia joga, para o bem e para o mal. É o soft power, o poder da persuasão, do toque de bola. Os anúncios das convocações, por exemplo. São acessórios na peculiar alquimia nação-futebol-confederação, mas ainda assim importantes para o moral da tropa. Em Buenos Aires, Scaloni selou uma carta com a relação dos selecionados, a ser passada de mão em mão entre argentinas e argentinos. No Uruguai, os nomes apareciam em cardápios de cafeterias, ao som de trilha original de Drexler e No Te Va Gustar. Em Madri, o rei passou a palavra a cidadãos e cidadãs de todas as classes, porque o elenco de convocados, disse ele, es la lista de todo un país. Continua após a publicidade Na Inglaterra, os nomes surgem pelas ruas ao som de Come Together, dos Beatles. Em Curaçao, um carismático rapper cantou o anúncio. No México, a voz de Roberto Bolaños (o Chaves) apresentou a lista por setores: os goleiros cresceram aprendendo a abraçar o inevitável, os zagueiros sabem que defender é um ato de amor, os atacantes rompem o mundo em dois (o antes e o depois do gol). Na Escócia, o adversário de hoje, Ewan McGregor rememora batalhas e um craque local exalta os underdogs, a zebra: você não pode escolher onde nasce, mas pode escolher para quem torce! Nesses chamados ao combate, o que conta não são atletas, dirigentes, patrocinadores. O que conta é o grupo, como na remada viking de jogadores, torcedores e parlamentares da Noruega. Conta a essência, o futebol-paixão, a simbiose time-torcida-nação. E a convocação do Brasil, misto de lançamento de celular e programa de auditório? Continua após a publicidade Vergogna degli altri, dizem na Itália. Vergonha alheia, mas também própria: nossa imagem prejudicada por ações de outras pessoas. Isso tá estranho, disse o técnico italiano ao abrir a cerimônia de convocação da CBF, que deveria ser a lista de todo um país. * Eduardo Brigidi de Mello é graduado em Ciências Jurídicas e Sociais e Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Diplomata desde 2008, com passagem pelas Embaixadas do Brasil na Guiné-Bissau e no Chile. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Juca Kfouri por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora 'Jogo de compadre': os duelos da 3ª rodada em que empate beneficia os dois STM nega ação de Bolsonaro para tirar ministro em caso de perda de patente Bolsonaro disse que não podia ficar desarmado: 'Tinha 3 mulheres em casa' Domo de Ouro: EUA anunciam primeiro teste bem-sucedido do sistema de defesa Menina australiana sofre queimaduras severas após tentar desafio nas redes