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Só para assinantes Assine UOL Reportagem Esporte Alheia à Copa, fronteira terrestre México-EUA transpira tensão e frustração Julio Gomes Colunista do UOL 13/06/2026 15h30 Deixe seu comentário Veículo blindado do Exército dos EUA guarda a fronteira com o México Imagem: Jose Luis Gonzalez/Reuters Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Os quatro amigos olham apreensivos uns para os outros. O grupo é formado por cinco. Gildardo, Antonio, Juan, Alex e Manuel. O último ficou para trás. E foi levado para uma sala depois de ficar 25 minutos sendo questionado pelo agente de imigração diante de todas as outras pessoas que estavam na fila. "Onde você estava em abril? Ei, veja aqui a foto, você estava em tal lugar em maio. Então onde estava exatamente? Por que? Como? Quando?", perguntava com voz firme o policial Charlie (nome fictício), navegando pelo celular do próprio Manuel. Depois de tudo isso, Manuel foi levado para uma salinha fora daquele ambiente. Os amigos já tinham passado e estavam em solo norte-americano, sentados em um banco de cimento em frente ao muro que dizia Juárez-Lincoln, Border Protection, Laredo (Texas). Alguns minutos depois, apareceu o Manuel. "Não foi nada, não foi nada, eles só queriam tomar novamente minhas impressões digitais, a de um dos dedos não estava pegando direito", contou, sorrindo. O sotaque do Manuel era o mais difícil para mim. Todos eles tinham visto americano válido e um papelzinho azul, como se fosse um canhoto. Lá, aparecia o nome da empresa contratante, o endereço em que iam ficar nos Estados Unidos e o valor a receber por hora trabalhada (na casa de US$ 13, aproximadamente R$ 65). Quando cruzam a fronteira, recebem uma permissão temporária de trabalho. Yara Fantoni Hoje não é apenas a estreia do Brasil Juca Kfouri As estreias de que me lembro da seleção Rodrigo Ratier Se a Copa não dá lucro, por que querem sediá-la? Sakamoto Escravidão de jovens lembra lado ruim do futebol Os cinco recolhem as malas, se despedem e tocam o barco. No dia seguinte, pegariam um avião de Laredo para o Estado de Michigan, onde passarão entre quatro e seis meses trabalhando em uma propriedade rural. "Em oito ou nove meses, consigo tirar uns 30 mil dólares", me havia contado o Gil. "Vale à pena, é dinheiro para comprar nossa casinha, comprar um carro novo... Mas antes era mais tranquilo ir para os Estados Unidos, agora já não está tão legal". Ele se refere ao endurecimento das leis e da fiscalização para cima de imigrantes, uma política colocada em prática no segundo mandato de Donald Trump. "Nós todos entramos aqui como legais, temos os documentos, mas conheço gente que já foi mandada embora para casa pelo ICE, de volta para o México". A história dos cinco amigos que chegaram à fronteira de Laredo de ônibus, o mesmo trajeto que fiz (saindo de Monterrey), se confunde com a de outras milhares de pessoas que passam de um país a outro diariamente. Como Samanta Mendoza, que vive em Nuevo Laredo, do lado mexicano, e trabalha em uma loja de celulares em Laredo, do lado americano. Somadas, "las dos Laredos" têm uma população de aproximadamente 800 mil pessoas, 500 mil do lado do México. Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês "É muito cansativo. Eu cruzo a ponte umas 5 da manhã, porque se chegar aqui às 6 já sou obrigada a esperar uma hora, às vezes duas horas para passar. É quando junta a turma que trabalha, estudantes, enfim, muita gente", explica Samanta. São quatro pontes em que passam carros e uma para trens por cima do Rio Bravo, que separa o Texas do México. No século 19, colonos declararam a independência do Texas, as forças centrais mexicanas atacaram e isso resultou em uma guerra com os EUA - o México perdeu não só o Texas, que virou o 28o Estado americano, mas também um pedaço de terra ao norte tão grande que hoje oito outros Estados dos EUA ocupam a área. "A gente já até conhece os agentes da fronteira, mas todos os dias eles fazem as mesmas perguntas. Onde vai, motivo, etc, etc. Ficou tão ruim cruzar que muitos negócios fecharam em Laredo, piorou a economia. Muita gente resolveu ficar em Nuevo Laredo e comprar produtos nas lojas chinesas do lado de lá", me contou Samanta. Já o José, cubano, motorista de aplicativo, pastor nas horas vagas e declaradamente Trumpista, diz que "há controvérsias". "Tem amigos caminhoneiros que falam que as coisas estão piorando, tem outros que falam que estão melhorando". De uma maneira ou outra, o que é fato é que entrar nos Estados Unidos por terra é uma experiência muito diferente da imigração feita em aeroportos. Ao chegar de ônibus, após uma viagem de três horas entre Monterrey e a fronteira, nós escapamos das enormes filas de carros. Em compensação, o ônibus só é liberado a seguir viagem quando todos os passageiros passam da imigração. Se houver problema com um, como houve com Manuel, todo mundo tem que esperar. O processo todo, da chegada à fronteira até o ônibus seguir viagem a Dallas, demorou mais de uma hora. Eram somente 27 passageiros e não havia fila. Continua após a publicidade Isso acontece porque é nítido que a quantidade de perguntas e questionamentos é maior para cada uma das pessoas que entra do México para os EUA. No meu caso, ainda tive que explicar o que era a Copa do Mundo de "soccer" e por que raios eu estava entrando por Laredo e não em algum aeroporto internacional do país. A agente de imigração foi firme, mas simpática, não posso reclamar de nada. Mas demorou mais do que outras experiências. É uma atmosfera de desconfiança que simplesmente está presente no processo. "Eles ficaram muito, muito chatos mesmo", me disse Mônica, que tem família no Texas e não estava muito bem humorada. "Mesmo para quem passa sempre, ficou um negócio tenso. Te recomendo ficar calado e só responder o que perguntarem, sem conversa fiada". Ao pisar em Laredo e caminhar pela cidade sob Sol de 38 graus, é possível concordar com o que disse Samanta Mendoza, a mexicana que cruza todos os dias para trabalhar e diz que a economia piorou. São muitos espaços comerciais fechados - abandonados ou com sinal de "aluga-se". O próprio shopping anexo a uma das pontes por onde passam pedestres estava largado. Ali, na região da fronteira, só não parece cidade fantasma por que tem gente circulando, indo e vindo. Mas só de passagem. De Copa do Mundo, ninguém quer nem saber. O esporte mais forte da região é o beisebol. Os habitantes de Laredo que possuem casas às margens do rio batalham para que o "muro de Trump" não seja construído em seus quintais e haja uma nova maneira de fazer o bloqueio prometido pelo presidente. Mesmo do lado americano, tudo o que se lê e se ouve está em espanhol. O idioma da região definitivamente não é o inglês. São 3145 km de fronteira entre os EUA e o México, 2000 deles no Texas com um rio cujo até o nome é disputado. É oficialmente Rio Grande para as autoridades americanas, mas Rio Bravo para os mexicanos e todo mundo que mora às margens dele. É um universo próprio de cultura, língua, hábitos e trabalho. Mas que hoje está nitidamente fraturado. A política e o discurso não casam com a realidade prática das pessoas em carne e osso. Reportagem Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. 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