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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte A abertura da Copa na Cidade do México foi difícil até para o Chapolim Julio Gomes Colunista do UOL 12/06/2026 10h45 Deixe seu comentário Torcida mexicana chega ao Estádio Azteca para a abertura da Copa do Mundo Imagem: MARIO VAZQUEZ/AFP Tinha Chapolim do lado de fora do estádio, com bigodes brancos. Tinha Chapolim bravo com o time depois do jogo. E tinha Chapolim tentando puxar a "ola" nas arquibancadas do Azteca. Os mexicanos não são exatamente inimigos dos estereótipos. "Ai, ai, ai, ai…. Canta y no llores…", a canção que embala os 80 mil no jogo de abertura já é daquelas que conecta com melancolia. Ao perguntar para qualquer um onde o México pode chegar, a resposta vai variar entre os emocionados diante do microfone ("campeones!") e os mais realistas ("quinto partido"). O quinto jogo foi o máximo que o México atingiu até hoje - quartas de final. Nesta Copa, o quinto jogo seria chegar apenas às oitavas de final. No final da partida contra a África do Sul, a enorme maioria estava insatisfeita com o resultado magro e a postura do time contra um adversário que jogou o segundo tempo inteiro com 10 em campo e não deu um chute a gol - no finalzinho, os sul-africanos ainda ficaram com 9, depois os mexicanos perderam o capitão Montes, expulso. Thiago Arantes Copa começou com 2 jogos ruins. E será assim mesmo José Fucs A narrativa de que Trump ameaça o Pix não é real Daniela Lima Alcolumbre sinaliza destravar análise da 6x1 Aline Sordili Anthropic monta rede de distribuição para o Claude "Muito conservador!", bradou um dos Chapolins. "Dava para ter feito 4 ou 5, esses cabrones tinham que ter feito mais gols!". Classificação e jogos Copa do Mundo O Chapolim que tentou puxar a "ola" era dos mais frustrados. "Isso aqui parece um funeral!", esbravejou, referindo-se aos torcedores em que a onda morria como uma marolinha. Não foi por falta de esforço. Ele tentou mais de 10 vezes. Corria de um lado para o outro da arquibancada tentando avisar as pessoas que a ola estava a caminho. Gesticulava com os braços. Parava para uma selfie. E voltava a gesticular. Só não contava com a astúcia de Gianni Infantino. O homem que tem a pachorra de vir a público defender os preços dos ingressos da Copa do Mundo, os mais caros da história - de longe. A Fifa transformou a Copa em coisa para gente muito, muito rica mesmo. É o mesmo processo que vemos no Brasil. Alguma cultura de estádio fica pelo caminho. Não só não sai a ola do Chapolim como aparecem vaias à seleção da casa. Sim, o México estava trocando passes de forma pouco emocionante lá pelos 15 do segundo tempo, com um homem a mais e só 1 a 0 no placar. Mas vaiar?? Sim, o estádio vaiou. Afinal, é a tal relação de clientela, não de torcida, que vemos cada vez mais. Pago, portanto, exijo. Muita emoção e cantoria no hino nacional, depois de uma horinha, nada disso importa se não me entregarem aquilo que eu paguei para ver. Eram dois mundos os que foram vistos nos últimos dias no México. O mundo da Copa do Mundo, que quatro horas antes do jogo já lotava as ruas em volta do Azteca e pagava uma fortuna pelos produtos licenciados vendidos lá dentro. E o mundo de quem não consegue participar do outro. Das pessoas que vivem em casas humildes em torno do estádio e assistiam da janela ou até entravam na onda colocando um som alto na frente de casa. Da galera que protesta por salários e aposentadorias dignos. Do povo que lota o metrô e passa horas no trânsito maluco da cidade. Continua após a publicidade O Azteca, apesar de reformado mantém a alma de sua arquitetura, ao contrário, por exemplo, do Maracanã. O México soube, de uma maneira ou outra, honrar os Mundiais passados, Pelé e Maradona, lembrar o que viveu. Mas o tempo inteiro passou a impressão de se sentir convidado para a festa dos outros. "Não é uma Copa nossa como as outras, não é mesmo?", me falou um motorista de aplicativo. O improviso nítido transformou em um inferno a vida de quem precisou trabalhar no Azteca na abertura - foi um caos completo, que eu nunca havia visto. Estou em minha sétima Copa do Mundo e fiz a travessia tecnológica e também de (perda de) peso da minha profissão. Foram dois dias sem Internet para poder minimamente trabalhar. Uma sala de entrevistas coletivas improvisada dentro da tenda que era a própria área de trabalho dos jornalistas. Nenhuma sinalização sobre posições, localizações, etc. Tudo muito improvisado e o staff da Fifa com constante cara de paisagem. A tribuna de imprensa, que antes era enorme e tinha monitores de TVs, virou um negócio encolhido, pequeno, numa esquina da arquibancada e sob chuva de cerveja - o que me fez torcer para que o México não marcasse mais gols, pois todo o equipamento, aquele que já não tinha Internet, ficava cheio de bebida também. Torcedores clientes podem tudo, afinal. Em 24 anos, do Japão e Coreia, passando pela Alemanha e pela África do Sul, eu vejo diante dos meus olhos o encolhimento da comunicação e a transformação das arquibancadas. O futebol é cada vez menos um esporte, cada vez mais um evento de entretenimento e valores altos. Nada de confraternização de povos, nada das incômodas vuvuzelas. No México, foi difícil trabalhar, foi difícil a seleção agradar, foi difícil para as pessoas juntar a emoção da Copa com a frustração do dia a dia. Neste novo cenário, nem o Chapolim consegue puxar uma simples ola. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. 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