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Se ainda sequer completamos a primeira rodada de todos os grupos da Copa, ainda não é possível bater o martelo sobre se o modelo de 48 seleções está aprovado ou não - não por mim, ou pela mídia, porque a Fifa não voltará atrás (ao contrário, já pensa em ampliar esse número), mas pelo jogo, pelo futebol. Já há alguns aspectos perceptíveis, do lado positivo, do lado neutro e do lado negativo. No primeiro caso, a festa maravilhosa das torcidas dos "primos pobres", da bola; no segundo, o aumento siderúrgico dos lucros da Fifa, mas não sou comentarista de finanças; e no terceiro, haverá times podendo escolher se é melhor ficar em segundo ou em terceiro para pegar um caminho melhor à frente. 1 de 1
Vozinha em Espanha x Cabo verde — Foto: Reuters Vozinha em Espanha x Cabo verde — Foto: Reuters Comecemos pela parte boa. Não existem 48 timaços em seleções. Assim, se há 48 participantes numa Copa, haverá times fracos, times sem tradição, times que nada acrescentam esportivamente - casos de Curaçao e Haiti. Mas, em paralelo, ainda que tivéssemos 200 participantes haveria 200 torcidas fanáticas por futebol, que fariam festas lindas por feitos aparentemente simples. Como fez a torcida do Catar quando viu sua seleção fazer um gol no último minuto e empatar com a favorita Suíça. Ou a vibração incontida e contagiante dos torcedores de Curaçao quando o time fez um gol na inalcançável Alemanha - e aí pouco se lhes dá se o time perdeu por 7 a 1. E nesta segunda, a torcida de Cabo Verde vibrando muito e com incredulidade ao ver sua seleção resistir bravamente à Espanha campeã europeia. Nas seleções com esse perfil esportivamente frágil mas que esbanjam alegria sempre surgem ótimas histórias. Como a do goleiro Vozinha, 40 anos, que parou o ataque espanhol com pelo menos duas defesas espetaculares. Já seria uma boa curiosidade o fato de ele se chamar Josimar, em homenagem ao lateral brasileiro que foi um dos destaques da Copa do Mundo de 1986, ano em que Vozinha nasceu. Mas a história do apelido é fantástica. O pequeno Josimar brincava de bola na rua e era muito competitivo. Seu pai era do Exército do país e pouco convivia com o menino, bem como sua mãe, que precisava trabalhar. Josimar era criado pela avó. Assim, quando ele brigava na rua por alguma questão do futebol, os amigos mandavam-no reclamar com a "vozinha". E assim ficou. É história semelhante do atacante brasileiro Matheus Davó (hoje no futebol de Israel), que jogava na escolinha da Portuguesa paulista - e como havia vários Matheus e ele era sempre levado ao clube pela vó, quando alguém perguntava "Qual Matheus?", a resposta era "É o Matheus da vó". Quanto à parte "neutra", a Fifa está pouco se lixando com a qualidade do jogo ou com uma suposta inclusão dos povos no futebol. Esta se dá na filiação à entidade, em número maior do que há na ONU. O que a Fifa busca é conquistar mercados e inflar ao máximo a quantidade de consumidores. Para isso foi aumentado o número de países participantes na Copa para 48, já se fala nos corredores da entidade no aumento para 72, e eu duvido que vá sossegar enquanto não levar a uma Copa do Mundo a superlotação de China e Índia (aqui será mais difícil porque o país quase só curte o críquete). Agora, a antecipação de um problema. Até aqui, com apenas dois times se classificando por grupo, os dois jogos da terceira rodada são disputados no mesmo horário, o que mantém o equilíbrio e não dá vantagem a ninguém - tudo se resolve no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo grupo. Agora, com mais oito avançando (os oito melhores terceiros colocados), não há como disputar no mesmo dia e horário as 12 últimas rodadas. Assim, os times dos grupos K e L, ou I e J, por exemplo, entrarão em campo sabendo do que precisam para ser terceiro, e até para saber qual terceiro enfrentará um adversário melhor ou pior - situação privilegiada que os times do grupo A, B ou C não terão. E não estou sequer supondo que alguém vai perder de propósito, ainda que a derrota colocasse o time num caminho teoricamente mais simples no mata-mata. Mas nada impede que um staff pense assim: "Bem, se eu vencer, pego uma pedreira na sequência, então vou descansar os meus titulares..." Essa é uma questão que não poderá ser modificada nesta Copa, mas para a qual a Fifa necessariamente precisa encontrar uma solução para as próximas. Enfim, como ainda estamos no meio da primeira rodada, ainda teremos várias questões novas para analisar - e aprimorar. O importante é que, a despeito dos interesses comerciais da Fifa e dos patrocinadores, a Copa do Mundo continue sendo o maior espetáculo da Terra - como é desde que era disputado por apenas 13 seleções.