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Futebol Como nossa mente responde à frustração da eliminação em uma Copa do Mundo Guilherme Padin Do UOL, em São Paulo 08/07/2026 05h30 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Jogadores do Brasil lamentam eliminação para a Noruega na Copa do Mundo Imagem: JEWEL SAMAD / AFP Lidar com uma derrota nunca é simples. Quando ela envolve um sentimento coletivo de um país torcendo pela seleção que o representa na Copa, é ainda mais complexo. Adicione a essa conta as expectativas frustradas pelo fato de essa equipe ser a maior campeã e, a partir de agora, viver seu mais longo jejum. É o que ocorreu no domingo (5) com milhões de brasileiros, até quem não se interessa pelo futebol, mas vivencia a experiência de uma Copa do Mundo. Mas como a ciência explica o que acontece com nosso cérebro ao passar por tamanha frustração? Como nossa mente responde a esses sentimentos de decepção? O UOL ouviu médicos especialistas para entender o que passou pela cabeça dos brasileiros ao testemunharem os dois gols de Haaland e a sexta queda consecutiva da seleção brasileira em Mundiais. Juca Kfouri O VAR seletivo e a proteção à Argentina PVC Fifa abriu a porta do inferno com o caso Balogun João Paulo Charleaux Flávio calcula errado, e estratégia sai pela culatra José Paulo Kupfer FMI está mais otimista com o Brasil que os brasileiros O que ocorre com a nossa mente nas derrotas? "Estamos no melhor momento para conversar sobre isso. Estamos vivendo uma espécie de luto. O nosso cérebro agora tende a passar por fases. Então, existe um primeiro momento em que de fato entende que alguma coisa foi perdida, que nós estamos nos despedindo de algo, e de fato estamos. Estávamos vivendo um momento de euforia", explica Diogo Haddad, coordenador do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Segundo Haddad, temos áreas no cérebro chamadas de sistema de recompensa. Nelas, quando buscamos muito alguma finalidade, existe uma explosão de neurotransmissores, que geram expectativas. "Essa expectativa criada traz ao cérebro várias angústias, ânsias, mas também prazeres", prossegue. Quando isso se perde e a expectativa é frustrada, explica o médico, nos tornamos pessoas "mais amargas" em um primeiro momento: "Ficamos bravos, ficamos nervosos, e depois isso vai passando ao longo do tempo." Ao nos depararmos com a frustração, a área do cérebro envolvida nesse processo é principalmente o córtex cingulado anterior, região associada ao controle das emoções, segundo o neurologista Renato Anghinah, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP. Nesse momento, prossegue, o controle dessas áreas é inibido. Continua após a publicidade Após frustrações, a área do cérebro envolvida no processo é o córtex cingulado anterior Imagem: Freepik Porém, há outras reações possíveis, aponta Anghinah: quando o sentimento é de tamanha decepção que o torcedor fica mais agressivo e colérico, as áreas de controle são mais afetadas e a reação pode ser amigdaliana. "Aquela reação da raiva, que é produzida na amígdala, gera um desconforto grande e uma exposição de agressividade muito intensa", completa. Evolução humana explica união do país na Copa Qualquer pessoa que saia às ruas em dias de jogos do Brasil em qualquer edição da Copa do Mundo verá pessoas vestidas de amarelo ou azul, o som de vuvuzelas e buzinas e bares repletos de torcedores. A mesma intensidade evidentemente não se vê na terceira rodada de um campeonato estadual ou nas fases iniciais da Copa do Brasil. E o motivo não está no desejo de se acompanhar um bom futebol. O que explica a colossal mobilização para apoiar uma seleção nacional, envolvendo mesmo aqueles que dizem não se importar com o futebol, tem a ver com a evolução humana, argumenta Alaor Carlos de Oliveira Neto, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Continua após a publicidade 'Copa é um grande convite ao envolvimento e o engajamento das pessoas', diz psiquiatra Imagem: Iwi Onodera/UOL Do ponto de vista evolutivo, o ser humano é tribal, coletivo, o que significa que pertencer a um grupo aumenta muito as chances de sobrevivência do indivíduo, diz Oliveira. "É a maneira como a gente cuida um do outro, como a gente protege uns aos outros. E a Copa do Mundo, essa encenação dos grupos nacionais, é um grande convite do envolvimento e o engajamento de todas essas pessoas, que se identificam por meio de uma nação, pela linguagem, pelos costumes, pela história daquele povo", afirma o psiquiatra. Portanto, para fazer parte de um grande evento de caráter mundial como a Copa, não há necessidade de que a pessoa goste ou entenda de futebol - "é algo abrangente a todos os indivíduos daquela nação, e pertencer a isso é natural, vem em onda". Uma forma de se entender esse processo é observá-lo da perspectiva contrária, considera Oliveira: "Quando a pessoa não participa, a sensação de exclusão é muito grande. Então, a Copa do Mundo é uma grande celebração de uma natureza humana, que é a identificação em grupos." Ao abordar o sentimento catártico muitas vezes associado ao esporte em seus momentos de decisão, o psiquiatra faz um paralelo com um período de mais de dois mil anos atrás: Continua após a publicidade "A palavra catarse, em grego, significa purificação. Na Grécia Antiga, a catarse ocorria nas encenações teatrais, nas quais as emoções reprimidas surgiam no público pela arte, pelo drama e o teatro. E o que é um jogo de Copa do Mundo, senão uma encenação de uma peça, em que não sabemos como vai acabar, quais situações vão ser vividas e todo tipo de emoção pode acontecer." Em uma sociedade na qual o hábito comum é reprimir as emoções, continua o especialista, o futebol acaba por representar "uma autorização de vivência catártica dessas emoções em um coletivo, é o momento em que não importa quem está ao seu lado, o que ocorreu em sua vida e os seus problemas". Sendo o jogo de futebol o momento de extravasar emoções, pondera Oliveira, ele se torna especial e necessário na vida das pessoas, uma vez que são necessárias válvulas de escape para liberar-se de tensões e pressões do dia a dia. A Copa do Mundo é uma licença poética de autorização de vivências e de celebrações e de compartilhamento de sofrimentos uns com os outros. Vivemos nesse momento a celebração do pertencimento a um grupo. Alaor Carlos de Oliveira Neto, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz Ciência Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Renan Santos rebate Flávio Bolsonaro: 'É especialista em defender inimigos' Irã chama Trump de 'criminoso' e diz que responde à vulgaridade com ações Arsenal prepara oferta final de meio bilhão de reais por Bruno Guimarães Carioca, Tarcísio critica Marina e Tebet por se candidatarem em SP Quem é o campeão de 98 que falou mal do Brasil e vê Ronaldo acima de Zidane