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Só para assinantes Assine UOL Opinião Esporte Uma defesa ética da minha torcida pela Argentina Milly Lacombe Colunista do UOL 18/07/2026 12h43 Deixe seu comentário Lisandro Martínez comemora gol marcado pela Argentina contra Cabo Verde na Copa do Mundo Imagem: Steph Chambers - FIFA/FIFA via Getty Images Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Parte da torcida brasileira está atravessada por um fenômeno anômalo: é capaz de enxergar o racismo na Argentina mas não no Brasil. Os argumentos passam por "não existem negros na Argentina" e vão até "os jogadores argentinos são racistas". Despacito. Sim, existem negros na Argentina. Mauro Cezar Broxante, 3º lugar só atrai as seleções menores PVC Está claro que a Fifa morre de medo dos EUA Sakamoto Brasil pede fim da 6x1, mas Flávio oferece Jair livre Christian Dunker A psicanálise é uma pseudociência? Aqueles que se identificam como negros compõem uma parte pequena da população, algumas centenas de milhares, mas eles existem e estão agora mesmo nas redes sociais exibindo a camisa de sua seleção com orgulho e apontando para nossa conveniente incapacidade de buscar pelo fatos e de reconhecê-los pelo que são. Aprendi, aliás, que existe inclusive o afro-turismo argentino. A Lunfarda Travel é uma agência especializada na herança africana deixada em solo argentino, nas raízes indígenas daquele país, nas mais recentes expressões da comunidade LGBT+, no resgate da origem negra do tango e na identidade argentina. A população argentina que se identifica como europeia vem da mesma fatia oligárquica da brasileira que fala com orgulho que descende de italianos, franceses, espanhóis, alemães, ingleses, portugueses. Um grupo demográfico que comparo aos motoqueiros de "Bacurau" e que só se descobre latino - e portanto "não-branco" - quando vai para o hemisfério norte. O processo de apagamento da identidade negra promovido dentro da Argentina é o mesmo que é até hoje acionado no Brasil. Duzentas mil pessoas foram sequestradas do continente africano rumo a solo argentino desde as invasões europeias do século 16, enquanto cinco milhões foram sequestradas e traficadas para serem escravizadas no Brasil. O plano em ambos os países era o de embranquecer a população. Um plano traçado por uma oligarquia que, sofrendo de profundo distúrbio de imagem e ignorância histórica, ainda se enxerga europeia. Um plano ainda colocado em operação pelo estado brasileiro. Todos os dias, aliás. A Argentina aboliu a escravidão mais de 30 anos antes do Brasil e tem María Remedios del Valle como "mãe da nação". Del Valle, uma enfermeira e soldado negra, lutou pela independência do país e desde 2024 é o rosto na nota de 10 mil pesos. Continua após a publicidade É certo que dentro da seleção argentina temos jogadores que apoiam o fascismo de Trump e Milei, assim como dentro da seleção brasileira existem muitos bolsonaristas, mas temos outros que estão ao lado dos interesses da população e ousam abrir faixas em campo apontando para o colonialismo europeu, que segue sendo praticado. Podemos e devemos criticar o acovardamento de Messi diante dos casos de racismo mostrados nas imagens de TV e promovidos por parte da torcida argentina que lá está - uma gente bastante rica e oligárquica. Tenho feito isso enquanto torço para que Messi se agigante e comece a usar a sua voz de forma mais forte contra Trump e Milei. As pessoas se transformam e o camisa 10 tem a chance de se inspirar em Maradona para fazer valer ainda mais a sua fama, o seu talento, a sua divina capacidade de existir dentro de um campo de futebol. Depois da vitória contra a Inglaterra, Messi falou a respeito da crise econômica que assola a Argentina e se colocou ao lado dos endividados. É um passo. Pode ser um passo. Gostaria que fosse um passo. É mais do que Neymar jamais foi capaz de fazer. Há, por outro lado, motivos bastante justos para torcermos para a Espanha. O governo espanhol é, hoje, um dos mais corajosos do mundo na luta contra o imperialismo da dupla Trump-Netanyahu. Lamine Yamal, apesar da pouca idade, é um jovem com consciência social que empunhou a bandeira da Palestina durante celebração do último título de seu time. Outro bom motivo é a preferência de Donald Trump pela Argentina: saber que Trump não gostará do resultado caso a Espanha vença é bastante satisfatório. São todas boas razões eu diria. E há, também, motivos para rejeitarmos a Espanha: um país europeu que saqueou nosso continente por séculos e que só é o que é por causa dessa espoliação. Sem falar no racismo praticado contra Vini Jr. e jamais devidamente punido. O racismo espanhol é bastante ativo, e seria preciso deixar isso registrado. Assim, no domingo, torcerei pela Argentina contra a Espanha. Torcerei pela Argentina do campesinato, das Avós da Praça de Maio, do feminismo exuberante de Veronica Gago, Rita Segato e Luci Cavallero. Pela Argentina de Maradona, de Lisandro Martinez, de María Remedios del Valle, de Eva Peron, de Mercedes Sosa e de Mafalda. Pela Argentina saqueada por europeus. Pela Argentina invadida, ocupada e dizimada por espanhóis. Pela Argentina latino-americana. Pela Argentina das populações originárias e pela Argentina negra, que ainda vive e se recusa a sofrer novos apagamentos. Opinião Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash Receba novos posts de Milly Lacombe por email Informe seu email Quero receber As mais lidas agora Polícia apreende 3,5 toneladas de cocaína escondidas em casas vazias em SC Corinthians sofre outro transfer ban e complica contratação de Wesley Val Marchiori acolhe filho da atual esposa de Brennand; conheça a socialite Salles critica centrão e cita Valdemar como 'orquestrador da corrupção' Por que Mbappé pode bater Messi e levar a Chuteira de Ouro mesmo sem marcar