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Só para assinantes Fotos em troca de Pix: publicitário usava futebol de base para assediar Camila Brandalise e Pedro Lopes Do UOL, em São Paulo 23/02/2026 05h30 Deixe seu comentário 0:00 / 0:00 Carregando player de áudio "Então faz um video falando que me ama e aproveita e fica ja sem camisa ai vejo o tanquinho ahaahah" A fala acima é uma das várias conversas que o publicitário Fabio Barreto Bueno Adamo, 45, teve com meninos, crianças e adolescentes, jogadores de futebol. Os prints e transcrições fazem parte de um processo aberto em 2019, após um boletim de ocorrência feito pela mãe de um jogador de 11 anos, que denunciou Fabio após ouvir do filho o que o homem lhe pediu: uma foto íntima e uma ligação de vídeo no banheiro. Fabio tem parentesco de peso no futebol. Ele é cunhado do ex-jogador Edu Gaspar, ex-coordenador da seleção brasileira e atual diretor global de futebol do grupo que controla o Nottingham Forest, da Inglaterra. Também é filho de Jorge Adamo, ex-diretor de futebol e ex-conselheiro do Palmeiras. Ele tinha entrada em clubes tradicionais e participava da organização de campeonatos sub-16. Segundo relatos, usava essas situações e a ligação com nomes do meio para se aproximar dos garotos. O envolvimento com o futebol de base continuou até 2023, quando foi feita uma segunda denúncia. Em março de 2025, foi condenado a um ano e dois meses de reclusão em regime aberto pelo crime de aliciar e assediar crianças por qualquer meio de comunicação. A decisão diz respeito à denúncia de 2019. Em junho, ele recorreu. O recurso ainda não foi julgado. A denúncia de 2023 corre em segredo de Justiça, em processo separado. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública informou que o inquérito foi relatado em setembro de 2024, Fabio foi indiciado. O Tribunal de Justiça de São Paulo também foi contatado, e informou que ele segue em andamento, sob segredo de Justiça. Fabio e os advogados que o defendem no processo foram procurados repetidas vezes desde o dia 5 de fevereiro, mas não se manifestaram sobre os processos e sobre a matéria. Ela será atualizada caso enviem um posicionamento. A reportagem também entrou em contato com Edu Gaspar, avisando sobre a publicação e abrindo espaço para qualquer manifestação, mas ele não respondeu. Edu não é acusado nem envolvido em nenhum dos fatos nos processos, mas Fábio usava a relação para demonstrar aos garotos trânsito no meio do futebol. Fabio Adamo Imagem: Instagram/Reprodução A primeira denúncia Fabio foi denunciado à Policia Civil em 2019 por uma mãe que flagrou conversas dele com seu filho de 11 anos, pelo celular. Na ocasião, o filho contou a ela que Fabio transitava entre meninos e atletas da base do Palmeiras dentro da sede social do clube e no campo de futebol society. Segundo o menor, ele se apresentava como cunhado do Edu Gaspar e dizia ter contatos no meio do futebol. O menor confessou à mãe, segundo relato dela no processo, ter enviado imagem do órgão genital e feito uma chamada de vídeo na qual se masturbava a pedido de Fabio. O caso evoluiu para uma ação criminal, e houve uma perícia no celular do acusado. Em um laudo de 173 páginas ao qual a reportagem teve acesso, há conversas de Fábio com 24 garotos, a maioria deles do Palmeiras —11 dessas conversas incluem mensagens de teor sexual ou pedidos de fotos e vídeos. Também foram encontradas imagens de nudez e de órgãos genitais de garotos no aparelho. Procurado, o Palmeiras afirmou que Fabio jamais ocupou qualquer cargo no clube e nunca teve trânsito nas categorias de base. Ressaltou que ele é apenas um associado, que frequentava o clube social, e que nunca recebeu denúncia sobre o seu comportamento. O clube diz ainda que teve ciência da condenação de Fabio por meio do contato realizado pela reportagem do UOL e que não hesitará em tomar as providências necessárias em respeito à segurança dos seus associados. Foi a denúncia de 2019 que resultou na condenação, mas Fabio foi denunciado novamente em 2023, dessa vez por se aproximar de garotos de um clube do interior de São Paulo. A reportagem teve acesso ao conteúdo do inquérito policial, que foi anexado ao processo aberto em 2019, e conversou com um pai e uma mãe que o denunciaram. Os relatos indicam que Fabio pedia fotos íntimas aos atletas, se comportando nas conversas como se fosse um adolescente, sugerindo e fazendo chamadas de vídeo para masturbação. As vítimas tinham menos de 16 anos. Várias conversas foram obtidas na investigação e aparecem detalhadas no processo, em prints e transcrições. Fabio usava gírias típicas da faixa etária e dizia aos garotos que "os amava". "Manda uma foto, te pago um Big Mac" ou "te mando um Pix de 20 reais", eram algumas de suas mensagens, segundo o processo. Mesmo durante as investigações, Fabio trabalhou em proximidade com crianças. Em junho de 2023, ele participa de um podcast no qual se apresenta como coordenador da Copa Buh, um dos maiores torneios de base do Brasil, que inclui equipes do sub-11 ao sub-20 e tem participação dos grandes clubes. O podcast está publicado no canal da própria Copa Buh. Ele aparece ao longo de 2023 em várias partidas do torneio, normalmente entrevistando atletas. A reportagem entrou em contato com a organização da Copa, que disse que Fabio nunca teve uma posição de coordenação e era apenas parte do estafe de jogos, sendo pago por partida. A organização da Copa também diz que nunca recebeu denúncias sobre o comportamento dele, e que ele teria desaparecido e parado de responder todas as tentativas de contato no final de 2023. Embora Fabio tenha sido condenado em primeira instância, o Ministério Público apontou que a pena estaria prescrita, o que leva à extinção da punibilidade —mesmo condenado, Fabio já não teria nada a cumprir, pelo tempo decorrido entre os fatos denunciados e a decisão. Ele também foi denunciado pelo crime de adquirir, possuir ou armazenar fotos de crianças e adolescentes em cena pornográfica, mas foi absolvido sob a afirmação de que não era possível comprovar que as fotos em seu celular eram de menores de 18 anos. Em seu depoimento à polícia, ele confirmou que recebeu a foto de uma vítima de 11 anos com o "pênis ereto, mas de bermuda". Armadilha no clube A reportagem entrou em contato com a mãe autora da denúncia de 2019, que não será identificada. No processo, o menino diz que conheceu Fábio no clube social do Palmeiras. Fabio Adamo Imagem: Instagram/Reprodução O homem se identificou como parente de Edu Gaspar e tirou uma selfie com o garoto. A imagem foi enviada por aplicativo de celular e, depois disso, foi iniciada uma conversa. A mãe percebia que o filho falava com "Fabão" o tempo todo. Um dia, quando o menino dormia, checou as conversas. O agressor dizia "amo você" para conquistar a confiança da criança, pedia fotos e chamadas de vídeo. Ela encontrou falas de cunho sexual e foi falar com o jovem. Ele então contou que Fábio pediu uma foto do órgão genital, imagem anexada ao processo, e o coagiu a ir até o banheiro fazer uma chamada de vídeo para se masturbarem ao mesmo tempo. "Ele chorou muito quando me contou. Ficou com vergonha, achou que tinha feito algo de errado. Expliquei que não era culpa dele e fui direto fazer a denúncia", diz a mulher em conversa com a reportagem. Por essa denúncia de 2019, Fábio teve a condenação de um ano e dois meses em 2025. No meio tempo, ele foi proibido de ter perfil em rede social, mas manteve uma conta, segundo informação do processo. Seguia dezenas de perfis de meninos e tinha várias fotos com menores. "É um absurdo. Tinha várias evidências de que ele tinha feito o mesmo com outros meninos, e um ano em regime aberto significa que ele pode continuar fazendo tudo que já faz online", afirma a mãe. Fotos de órgãos genitais em troca de Pix Já em 2023, o pai de um jovem atleta ouviu do filho que, no vestiário de uma categoria de base do interior de São Paulo, os colegas falaram de um homem conhecido como " Fabão " que estava pedindo imagens dos órgãos genitais dos garotos. Fabio Adamo Imagem: Instagram/Reprodução "E nisso outro menino: "Ah, para mim também". E o outro: "Ah, eu fiz um vídeo desse, não sei o quê". Quando meu filho meu contou isso, eu arrepiei." Depois, por ser profissional da saúde e dar orientações sobre o tema a outros pais, foi procurado por três mães, que entraram em contato chorando dizendo que viram mensagens de Fabio para os filhos. Uma delas contou que ele apelidou o filho de 15 anos de "roludo", chamava-o de "lindão" e dizia coisas de cunho sexual. Fábio tinha 42 anos na época. Essas informações fazem parte do processo. A mesma mãe disse que chegou a procurar uma delegacia, mas ouviu da autoridade policial que não havia crime, apenas uma "piada de mal gosto". Outra afirma que Fábio fez um Pix de R$ 80 por uma chamada de vídeo na qual o filho se masturbou, e outro de R$ 20 por uma fotografia das partes íntimas. A terceira diz que o acusado pedia vídeos ao filho e oferecia em troca R$ 100 e uma camisa do time do garoto. A reportagem entrou em contato com as duas mães, que confirmaram o teor das denúncias, mas não deram entrevista. Com as informações das mães, provas foram juntadas e a denúncia foi aberta em agosto de 2023. Fabio foi indiciado, e o caso corre em segredo de Justiça, ainda sem julgamento. O pai que organizou a denúncia é especialista na área de prevenção a abusos e, em conversa com a reportagem, afirma que o abusador se aproveitou da vulnerabilidade de um sonho para manipular jovens e famílias. "Pegou os sonhos das crianças como isca para objetivos deploráveis", afirma. Modus operandi O processo detalha o dolo nas mensagens trocadas com as vítimas, desde o processo de aliciamento à insistência por fotos e vídeos em troca de favores no futebol, dinheiro e lanches. No processo, há dezenas de transcrições de conversas. A reportagem identificou 11 em que há falas de cunho sexual com menores, pedidos de vídeo ou fotos. Ele cita possibilidade de transferência de dinheiro ou pagamento de lanche no McDonald´s. Fabio Adamo Imagem: Instagram/Reprodução Em várias delas também há pedidos para que os meninos apagassem imagens, para evitar deixar rastro das conversas e não ser descoberto. Nas conversas, ele alegava que "os pais podem achar ruim". "É mais um elemento que mostra o caráter perverso da situação e o quanto que ele ocupa também esse lugar de agressor sexual em série, pedindo que esse 'segredo' seja mantido", afirma o psicólogo Denis Ferreira, um dos mais renomados pesquisadores no tema do abuso sexual contra meninos e homens no Brasil. À Justiça, Fabio alegou que tem "cabeça de adolescente", por isso falaria de igual para igual com os jovens. Mas o argumento não evitou a sentença condenatória. "Que cabeça de adolescente é essa que você pede para não revelar nada aos responsáveis porque sabem que não vão consentir, não vão autorizar? Como homem adulto, ele sabia que o que estava fazendo era criminoso e inadequado", diz Ferreira. 1 em cada 8 meninos já sofreu abuso sexual no Brasil O pai ouvido pela reportagem afirma ter ouvido outras várias famílias cujos filhos também teriam sido assediados por Fábio. Mas a maioria preferiu não denunciar. Fabio Adamo Imagem: Instagram/Reprodução "Um homem ficou apavorado, dizia: "Não, não, não, não. Não leva adiante, não conta para ninguém, pelo amor de Deus. Isso mostra o medo de um adulto, que deveria enfrentar o perigo para proteger uma criança", afirma ele. "É duro falar isso, mas acaba sendo uma covardia. E vai permitir mais vítimas crianças." Uma mãe consultou o marido sobre entrar na denúncia e ouviu: "O que que tem? Pelo menos ele arrumou um jeito de trazer dinheiro", referindo-se ao filho. Para Denis, o fato de serem mães as denunciantes mostra um "pacto de masculinidade inconsciente". "Os homens não vão comprar a briga porque eles vão ter que dar conta de que não foram suficientemente capazes de proteger os seus filhos", explica. A mulher que fez a denúncia em 2019 também cita que pessoas próximas a questionaram se o filho era gay, e relaciona isso ao fato de muitos jovens não terem coragem de falar sobre o ocorrido por medo de bullying e vergonha. Pesquisa global liderada pela Universidade de Washington, ligada ao braço da ONU pelo combate à violência infantil, um em cada oito homens no Brasil já sofreu violência sexual antes dos 18 anos. Para especialistas e segundo o próprio estudo, só não há mais denúncias e notícias sobre casos porque o silêncio e o medo de ser visto como "menos homem" ainda prevalecem entre as próprias vítimas e familiares. "A homofobia acaba sendo aliada do agressor, é um fator que coloca os meninos em risco, pois o abusador sabe que a vítima terá vergonha de falar para não colocar sua orientação sexual em cheque num momento da vida tão cheio de dúvidas", completa Denis. Comunicar erro Deixe seu comentário Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. Mais 235 234 233 232 231 230 Mostrar mais