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Futebol 'Vergonhoso': Rosario encara Corinthians após se esquivar de racismo Guilherme Padin Do UOL, em São Paulo 20/08/2026 05h30 Deixe seu comentário Hugo Souza durante Rosario Central x Corinthians, jogo da Libertadores Imagem: REUTERS/Agustin Marcarian Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Corinthians e Rosario Central-ARG se enfrentam hoje (20) em um confronto que, além do campo, ganhou outro duelo fora dele: após o jogo de ida, no Gigante de Arroyito, em que o goleiro Hugo Souza relatou ter recebido ofensas racistas , o clube argentino optou por iniciar uma disputa de narrativas em vez de reconhecer a gravidade do episódio. Em nota oficial no dia seguinte à partida, o Rosario devolveu a acusação de racismo à torcida do Corinthians, citando como exemplo as provocações feitas com notas de dinheiro em referência à crise financeira vivida pelos argentinos e o uso de camisas da Espanha. Além disso, negou a ocorrência das ofensas raciais e ignorou a existência de um vídeo de torcedores imitando macacos. O clube ainda colocou em xeque a palavra de Hugo ao tratar os atos como "supostas ofensas", exigir provas e inferir que o goleiro tentou obter vantagem esportiva por parar o jogo para fazer as denúncias. Segundo a nota, a acusação teria ocorrido após - e pela - desvantagem numérica. Porém, diferentemente do que escreveu o Rosario, Hugo havia denunciado os atos racistas cerca de 15 minutos antes da expulsão de Allan. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo O cenário que se desenhou na Argentina e se projeta para a partida de volta é alarmante: para além do risco de reincidência do ato, que no Brasil é crime, trata-se de mais um caso de racismo nesta Libertadores - dessa vez, com uma reação pelo menos controversa do clube acusado. Negação institucional e terceirização da culpa Para os especialistas ouvidos pelo UOL , a postura da diretoria argentina revela um padrão perigoso de desvio de responsabilidade e falta de letramento racial. Nicolás Cabrera, doutor em antropologia e sociólogo argentino que estuda a violência entre torcidas de futebol, define o comunicado do Rosario Central como "vergonhoso, ridículo e até perigoso", destacando a ausência de reconhecimento do clube: "não tem uma vírgula de autocrítica." O comunicado, segundo Cabrera, é um sintoma de como parte da sociedade argentina lida com o racismo e as violências no futebol. "Equiparar o ato de mostrar a camisa da Espanha com manifestações racistas não faz o menor sentido, e expõe o baixo letramento racial existente na Argentina. Há um mecanismo de externalização: a violência sempre está no outro. E se eu sou violento, é como resposta a uma violência sofrida", prossegue ele. Ele pondera que, na visão cultural local, provocações frequentes de brasileiros apontando a crise econômica - aporofobia, em sua avaliação - ou atos repressivos de forças policiais contra torcedores visitantes são sentidos como agressões graves. No entanto, o sociólogo reforça que compreender essas dinâmicas não justifica nem ameniza a gravidade do racismo. Roberta Pereira, doutora em estudos de futebol, analisa o episódio sob a ótica dos protocolos de combate à discriminação. Para a pesquisadora, a própria existência da nota do Rosario evidencia que o protocolo do jogo funcionou no aspecto de dar visibilidade ao problema. Continua após a publicidade "Na perspectiva educativa e da visibilidade, ainda que não resolva o racismo, o protocolo pausa o jogo. O juiz pausou e foi avisar que o jogador estava sofrendo racismo. Isso vai funcionar de algum modo para evidenciar a situação. Deixa de ser uma questão individual e passa a ser uma questão coletiva. É importante destacar o papel educativo e o papel de visibilizar a questão", argumenta Pereira, que, porém, ainda se diz cética com o protocolo. Contudo, a pesquisadora também critica duramente a estratégia do clube argentino em se desviar da responsabilidade em vez de combater a conduta. "O Rosario está mais preocupado em se defender de uma eventual punição do que adotar ações antirracistas", pontua. Ela destaca que colocar notas de dinheiro ou camisetas de outros países no mesmo patamar de injúrias raciais é inaceitável: "Atinge a pessoa na sua subjetividade, constitui uma violação de direitos humanos. O racismo não pode ser tratado como uma simples provocação de futebol." Roberta cobra um posicionamento contundente por parte das entidades organizadoras para evitar a inversão da culpa no futebol continental. "Que a Conmebol tome uma atitude em relação a essa nota. Se a Conmebol e outras federações não tomarem uma atitude, esclarecendo que o racismo é uma coisa, provocação é outra, acredito que essas notas vão aparecer sempre que utilizarem o protocolo", conclui Roberta Pereira. Como se posicionam os envolvidos Após o jogo, o Corinthians repudiou o episódio de racismo , mas não comentou o posicionamento do clube adversário. Sobre a nota do Rosario, não houve posição do Alvinegro. Já a Conmebol confirmou que o caso está sob apuração do seu comitê de disciplina, mas processos como esses levam semanas para a conclusão. Continua após a publicidade A reportagem procurou o Rosario Central cinco dias após a nota em que negava o caso de racismo e acusava os corinthianos, e perguntou se o posicionamento se mantinha após a repercussão do caso e do vídeo de torcedores imitando macacos. A assessoria de imprensa do clube argentino atendeu o UOL primeiramente, mas não respondeu mais após questionamento. A única posição do clube desde então ocorreu na antevéspera do jogo de volta, com uma publicação com recomendações aos torcedores que fossem à Neo Química Arena, incluindo respeitar a lei local e evitar gestos ou cânticos racistas, xenófobos ou discriminatórios. O que esperar para a volta Para Roberta Pereira, ainda é imprevisível a postura dos torcedores do Rosario no jogo da Neo Química Arena. "A torcida vai estar em menor número, já que será a torcida visitante, e acredito que a maior parte da torcida que venha é a torcida organizada. E, pelo que eu percebi, esses atos racistas não saíram da torcida organizada, mas da torcida comum", argumenta. Já Nico Cabrera considera provável que novas manifestações discriminatórias ocorram, mas pondera: "Talvez o fato de jogar no Brasil faça com que os argentinos fiquem mais quietos." Comunicar erro Deixe seu comentário Veja também Publicidade Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL. UOL Flash Acesse o UOL Flash As mais lidas agora Médico é levado à polícia por chamar mulher para atendimento em 'cativeiro' Cleitinho diz se arrepender de foto com Virginia na CPI: 'Não era momento' Flávia Saraiva é ouro nas barras assimétricas em etapa da Copa do Mundo Empresário é condenado por agredir ex-Miss Rio Branco; defesa vai recorrer Cúpula do Master citou advogada que recebeu R$ 33 mi como 'sócia' de Gilmar