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Futebol Além de ingressos e camisas: como clubes podem transformar paixão em renda Guilherme Padin Do UOL, em São Paulo 08/08/2026 05h30 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× River Plate se tornou exemplo de poderio financeiro sul-americano com diversas fontes de renda Imagem: Reprodução/Instagram Transformar a paixão do torcedor em receita recorrente é o grande desafio dos clubes no futebol moderno. Enquanto Flamengo e Palmeiras, por exemplo, despontam desde o fim da década passada e brigam ano a ano pelos principais títulos no país, seus rivais têm alcançado êxitos pontuais, mas não mantêm os bons momentos por mais de uma temporada. Contas em dia Muito desse sucesso da dupla se deve ao equilíbrio financeiro e ao potencial de investimentos que possuem . Outros gigantes brasileiros, no entanto, lutam na tentativa de aliar bons elencos e balanços sem déficits , mas sem sucesso. Ampliando para o cenário sul-americano, não é diferente. Com o predomínio esportivo e monetário do Brasil na Libertadores, o River Plate é uma das exceções entre os vizinhos: o clube de Buenos Aires varia suas fontes de renda, se mantém-se forte no caixa e montou um estrelado elenco para voltar a disputar títulos em âmbito continental. Adriana Negreiros Homoerotismo e a relação entre poder e Vorcaro A Hora Teto e piso se encontram para Flávio e Lula PVC Fla segue líder? Meus palpites sobre a rodada Rodrigo Ratier Importar megaprisão de Bukele é 'perigo', diz estudo Diversificar o faturamento não se resume a criar uma lista genérica de novos produtos, explica Fernando Fleury, especialista em marketing esportivo e PhD em Comportamento do Consumo. O caminho exige a construção de uma arquitetura integrada, em que estádio, torcida, conteúdo, marca, dados e formação de atletas trabalhem de forma conjunta. Classificação e jogos Brasileirão Diversificar receita significa, antes de tudo, diversificar os motivos pelos quais alguém se relaciona economicamente com o clube Fleury O cenário mudou ao longo dos anos : em vez de depender quase exclusivamente de bilheteria, direitos de transmissão e patrocínios no uniforme, as instituições mais maduras passaram a perceber o torcedor a partir de suas diferentes "jornadas de consumo". O especialista aponta ao UOL dez caminhos para diversificar a renda e aumentar o poderio financeiro dos clubes. 1 - Programa de sócios segmentado "O erro de muitos clubes é imaginar que existe um único torcedor e, portanto, um único plano de sócio. Hoje é preciso ter propostas diferentes para quem frequenta todos os jogos, quem mora longe, quem acompanha digitalmente. Famílias, jovens, torcedores de menor renda e consumidores que procuram experiências premium. Continua após a publicidade O plano também não pode ser apenas uma antecipação da compra do ingresso. Ele precisa oferecer conteúdo, experiências, benefícios em parceiros, produtos, relacionamento e algum tipo de reconhecimento pela participação do torcedor. Ou seja, quando o programa de sócios é apenas um desconto no ingresso, o clube não criou uma comunidade. Criou uma tabela de preços." 2 - Estádio funcionando o ano inteiro "O estádio pode gerar receita com naming rights, nomes de setores, camarotes, hospitalidade, restaurantes, lojas, museu, visitas guiadas, estacionamento, coworking, eventos corporativos, festas e shows. Mas existe uma diferença importante entre possuir um estádio e saber operá-lo. Muitos clubes têm um ativo valioso, mas terceirizam praticamente toda a exploração comercial e ficam apenas com uma pequena parte da receita. Em suma, um estádio não pode ser um ativo que trabalha duas vezes por mês. Ele precisa funcionar como uma plataforma de entretenimento durante o ano inteiro." 3 - Melhor exploração do dia do jogo "O clube precisa olhar para a receita total produzida por cada torcedor, e não apenas para o ingresso. Alimentação, estacionamento, produtos colecionáveis, hospitalidade, experiências, visita ao gramado, encontro com ex-jogadores e ativações de patrocinadores fazem parte da conta. Continua após a publicidade Não é simplesmente cobrar mais, é criar razões para o torcedor chegar antes, permanecer mais tempo e consumir dentro do ecossistema do clube. O ingresso mede quantas pessoas entraram. O consumo no estádio mostra quanto valor o clube conseguiu criar a partir daquela presença." 4 - Patrocínios menos dependentes da camisa "A camisa continuará sendo importante, mas o inventário comercial precisa ir muito além dela. Conteúdo, propriedade intelectual, dados, relacionamento com a torcida, ativações, plataformas digitais, projetos sociais, categorias de base e experiências podem formar propriedades comerciais próprias. O clube precisa deixar de vender apenas exposição e começar a resolver problemas de negócio dos patrocinadores. O patrocínio não pode ser exclusivamente exposição em uniforme, deve ser a entrada de uma marca na cultura e na comunidade do clube." 5 - Conteúdo e mídia própria "Os clubes produzem diariamente histórias, bastidores, personagens, rivalidades e símbolos. Isso pode ser transformado em programas, documentários, conteúdos curtos, transmissões, podcasts, produtos editoriais, licenciamento e projetos patrocinados. Continua após a publicidade Não significa necessariamente cobrar por todo o conteúdo. Parte dele serve para ampliar a audiência, identificar o torcedor e levá-lo a outras ofertas. O conteúdo não é só comunicação. É uma porta de entrada para produtos, sócios, patrocinadores e novas gerações de torcedores." 6 - Produtos, licenciamento e comércio eletrônico "O varejo dos clubes ainda costuma depender demais da camisa oficial. Existe espaço para moda, produtos infantis, objetos para casa, coleções históricas, personalização, colaborações com artistas e marcas, produtos de entrada e lançamentos limitados. O clube precisa aparecer na vida cotidiana do torcedor, e não apenas no dia da partida. A camisa é o produto mais visível do clube, mas não deveria ser o único objeto possível de pertencimento. Isso está relacionado à forma como os clubes devem tratar a questão do patrocínio, inclusive." 7 - Formação e negociação de atletas "A base pode ser uma fonte relevante de receitas, mas precisa ser tratada como estratégia de longo prazo, e não como um caixa eletrônico usado para cobrir déficits imediatos. Continua após a publicidade Isso exige captação, inteligência de mercado, formação técnica, acompanhamento humano, planejamento de carreira e capacidade de negociar o atleta no momento adequado. A base gera receita quando existe método. Quando existe apenas necessidade de caixa, o clube vende cedo, vende mal e recomeça o mesmo problema no ano seguinte." 8 - Plataforma digital, dados e programa de fidelidade "Um dos ativos mais subestimados de um clube é sua capacidade de identificar e conhecer os próprios torcedores. Muitos clubes possuem milhões de seguidores, mas não sabem quem são essas pessoas, onde moram, como consomem ou quais produtos desejam. Cadastro único, CRM, aplicativo, carteira digital, programa de pontos e marketplace permitem personalizar ofertas e aumentar o valor do relacionamento ao longo do tempo, sempre respeitando a legislação e a privacidade. Um clube que conhece apenas o número de seguidores conhece a audiência. O clube que identifica seus torcedores começa a conhecer seu mercado." 9 - Novas propriedades esportivas e culturais "Futebol feminino, categorias de base, futsal, esportes eletrônicos, projetos de música, moda, educação e impacto social também podem ampliar o alcance do clube e atrair novos públicos e patrocinadores. Não é uma questão de criar modalidades aleatoriamente. É escolher propriedades que façam sentido para a identidade do clube e para sua comunidade." Continua após a publicidade 10 - Marketplace de benefícios e parcerias "O clube pode conectar seus torcedores a restaurantes, escolas, academias, serviços, turismo e comércio local. Isso aumenta o valor percebido do programa de sócios sem obrigar o clube a financiar sozinho todos os benefícios. Nesse modelo, o clube deixa de ser apenas vendedor de ingressos e passa a organizar uma rede econômica em torno da torcida." Mais equilíbrio, maior valor O relatório Convocados , pesquisa sobre as finanças das equipes brasileiras divulgada em maio deste ano, mostra como o "valuation" — valor atribuído a um clube de futebol — pode aumentar ou diminuir expressivamente de acordo com algumas variáveis. Estar em equilíbrio financeiro faz a instituição ser mais valiosa, como nos casos dos rivais Corinthians e Palmeiras: segundo o estudo, embora tenha uma torcida consideravelmente maior, atualmente o Alvinegro tem um valuation inferior ao Alviverde. "Há um comportamento tradicional do futebol brasileiro, que é o 'tenho mais dinheiro, vou gastar mais', o que é normal. O que falta é a compreensão de que não se pode correr riscos de quebrar", afirma Cesar Grafietti, economista responsável pelo estudo. Continua após a publicidade Quais são as variáveis consideradas pelo estudo? Elevam o valor do clube: Receita recorrente: quanto maior a receita operacional recorrente, maior a previsibilidade de caixa Venda de atletas: PL positivo e crescente indica solidez patrimonial, reduzindo taxa de desconto e elevando o valor Lucro líquido: resultado positivo comprova eficiência operacional e reduz necessidade de captação externa Taxa de ocupação: alta ocupação amplifica receita de bilheteria e visibilidade de marca, valorizando o ativo Reduzem o valor do clube: Despesas de juros: maior comprometimento da receita com juros reduz a margem para reinvestimento esportivo, reduzindo o lucro líquido. Salário/receita: folha salarial excessiva comprime margens e limita sustentabilidade financeira do clube. Endividamento líquido: dívidas altas aumentam o risco financeiro e consomem o caixa do clube, reduzindo o seu PL e a sua capacidade de investimento no futebol. 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