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Esporte Futebol Copa do Mundo Messi e Maradona: reencontro em Dallas Sebastián Fest Colaboração para o UOL, em Buenos Aires 27/06/2026 08h12 Deixe seu comentário Resumo Ouvir 1× 0.5× 0.75× 1× 1.25× 1.5× 1.75× 2× Diego Maradona consola Lionel Messi na Copa de 2010 Imagem: Reprodução Twitter O futebol e o calendário às vezes reservam surpresas: 32 anos depois de um dos maiores traumas da história do esporte argentino, Lionel Messi se reencontrará simbolicamente com Diego Maradona em Dallas, a cidade onde tudo desmoronou. A partida desta noite de sábado contra a Jordânia tem pouca importância, pois a Argentina já garantiu a liderança do grupo; nada mudará nesse sentido. Mas é interessante do ponto de vista histórico: em 27 de junho de 1994, em Dallas, a FIFA anunciou o resultado positivo de doping de Maradona. "Cortaram minhas pernas", diria o argentino, cujo colapso levou à ruína uma seleção que ameaçava conquistar a Copa do Mundo e acabou sendo eliminada nas oitavas de final. Julián Fuks Elogio dos amores menos absolutos Mariana Barbosa Fraude na Americanas tem perguntas sem respostas Marco Antonio Sabino Pelos números, Tarcísio já ganhou; será tão fácil? Paulo Camargo Carlo Ancelotti não é brasileiro; e daí? O contraste entre esses dois momentos não poderia ser maior: aquele dia, com Maradona como figura central, foi um dos piores — talvez o pior — da história da seleção argentina. Estes dias, com Messi como figura central, são dos mais tranquilos e serenos da história da equipe. Messi superou Maradona, reconhece ao UOL Mariano Israelit, um dos melhores amigos do campeão mundial no México-86: "Digo isso com pesar. Messi, ao se tornar campeão, ofuscou um pouco a figura de Diego". Será que hoje os argentinos são muito mais "messianos" do que "maradonianos"? Assista aos jogos da Copa ao vivo no SBT pelo UOL Play. Assine agora a partir de R$ 14,90/mês "Hoje posso dizer que sim. Infelizmente", admite Israelit, autor de um livro intitulado "O amigo de Deus", no qual relata sua vida ao lado do maior ídolo que o Napoli já teve. "Mas veja bem, tenho um enorme respeito por Messi; acho impecável o que ele fez. É um jogador excepcional, no mesmo nível de Maradona". Uma grande conquista de Messi foi convencer seus compatriotas de que ele deveria ser Messi, e não Maradona. Aos 39 anos, o capitão da Argentina conta também com a ajuda do passar do tempo: as novas gerações têm na memória seus gols e suas façanhas, enquanto as de Maradona pertencem principalmente às gerações anteriores, assim como, em sua época, as de Alfredo Di Stefano. Continua após a publicidade Qualquer argentino que rever aquelas horas do teste de doping em Maradona, em 25 de junho, após a vitória por 2 a 1 sobre a Nigéria, e o resultado positivo, dois dias depois, sente o coração se apertar. "Eu estava lá", lembrou ao autor desta coluna Harold Mayne-Nicholls, que mais tarde se tornaria presidente da Federação Chilena de Futebol, mas que naquela Copa do Mundo era o chefe de imprensa da sede em Boston. Mayne-Nicholls havia estabelecido um bom relacionamento com Maradona e com a delegação argentina. A imagem memorável em que uma enfermeira loira leva o astro argentino pelo braço esconde outra história. "Rapaz! E essa garota [mulher]?", perguntou Maradona a Mayne-Nicholls. O astro achava que a havia seduzido. "Diego, você precisa ir para o controle antidoping", respondeu Mayne-Nicholls, trazendo-o de volta à realidade. Sue Carpenter, a enfermeira, era divorciada de um argentino. Em pouco tempo, todo o país a conheceria. Continua após a publicidade Pouco depois, Maradona encontrou-se com Julio Grondona, presidente da Associação Argentina de Futebol (AFA). "Jogaram muito bem, mas em determinado momento os negros ficaram durões", disse Grondona sobre os nigerianos. "Eles têm um par de rapazes que eu adoraria ter no meu time", respondeu Maradona. Então Grondona se virou para Mayne-Nicholls e perguntou com quem a seleção iria jogar. "Expliquei que era complicado, havia várias alternativas. E Diego me interrompeu e disse: 'Por que você se preocupa tanto, se vamos vencer o grupo? Vamos ganhar dos búlgaros com facilidade'". Nada disso: a Bulgária venceu por 2 a 0 uma Argentina que, nas oitavas de final, perdeu por 3 a 2 para a Romênia e saiu da Copa do Mundo abatida e humilhada. Continua após a publicidade Anos atrás, o autor desta coluna conversou longamente sobre o doping de Maradona com Joseph Blatter, que naquela Copa do Mundo era o secretário-geral da FIFA, presidida por um brasileiro, João Havelange. Em 1994, o esporte lidava com os casos de doping de maneira muito mais flexível e informal do que hoje. Não existia a Agência Mundial (WADA-AMA) e as decisões eram altamente discricionárias. Sem deixar de aplicar as leis esportivas, a FIFA podia decidir a favor de um lado ou de outro. E foi Blatter quem acabou tomando a decisão diante das dúvidas daqueles que o cercavam. "O presidente daquele comitê organizador era o mexicano Guillermo Cañedo, e o debate foi, imediatamente, se deveríamos tratar do assunto naquele momento ou tomar a decisão após a Copa do Mundo", admitiu Blatter. Maradona havia testado positivo para pseudoefedrina. "O exame demorou muito, porque Maradona não conseguia urinar", lembrou Mayne-Nicholls. A FIFA deveria punir Maradona durante a Copa do Mundo? Ou deveria adiar a decisão para depois do torneio, a fim de não prejudicar gravemente seu andamento esportivo? Continua após a publicidade Blatter deu algumas voltas antes de responder à pergunta. "Lembro-me de como Maradona saiu do campo acompanhado por uma enfermeira", diz Blatter, que não estava em Boston. Grondona, seu grande aliado, ligou para ele. Ele estava agitado. - Você viu o que aconteceu? O Maradona foi sorteado para o controle de doping! - Sim... E daí? - Que Deus nos proteja. Continua após a publicidade Ficou claro que Grondona sabia que Maradona não estava agindo corretamente. "Maradona tinha um médico particular fora da seleção, isso não podemos esquecer", lembrou o suíço - Um médico particular que não foi exatamente a melhor decisão que ele poderia ter tomado... - Isso eu não sei, mas tudo indica que não, que não foi... - É verdade que Havelange tinha uma posição mais dura do que a sua, que defendia que a Argentina fosse desclassificada da Copa do Mundo nos Estados Unidos e também da de França 98? - Não acredito nisso. E, de qualquer forma: quando há um caso individual, só se pune o jogador, e não toda a equipe ou a federação. Continua após a publicidade Era assim antes do "caso Maradona" e continuou sendo assim depois. Eu estava no centro da questão; não era um assunto para o presidente, mas para a administração da FIFA. E o chefe da administração era eu. - O senhor se encontrou várias vezes com Maradona desde aquele caso de doping. Vocês chegaram a falar sobre o assunto? - Nunca conversamos sobre o assunto, embora tenhamos nos encontrado muitas vezes. Ele nunca me perguntou nada e eu nunca disse nada a ele. - O senhor se lembra de Oscar Ruggeri? Ele está convencido de que houve uma conspiração para afundar a Argentina. - Claro que me lembro dele, sem dúvida. Veja bem, Maradona foi tratado como qualquer outro jogador que dá positivo em um exame antidoping. Havia a dúvida e eu disse que devíamos tomar uma decisão imediatamente. Em um caso como o de Maradona, devíamos decidir na hora. E foi o que aconteceu. O que teria acontecido se Blatter tivesse tomado outra decisão e optado por resolver a questão do doping depois da Copa do Mundo? Aquela Argentina que voava em campo poderia ter vencido a Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos. Qual seria o próximo passo, tirar o título dela? Nunca se saberá. 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